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A obscenidade mediática no Haiti

Janeiro 19, 2010

Se me dissessem para escolher uma única imagem que fosse capaz de representar toda a dimensão da tragédia no Haiti, eu não tinha dúvidas em escolher esta. A tristeza no rosto ferido da criança, é suficiente para representar a dor de todo um povo. A expressão da criança e da rapariga que está atrás (mãe?) são suficientes para se perceber que aconteceu algo de muito grave. Em segundo plano, um homem com as mãos na cabeça, transmite uma perspectiva de desorientação, de perplexidade sobre o que aconteceu. Tudo o mais que pudesse aparecer nesta foto seria dispensável.

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Desta tragédia talvez surja a imagem vencedora da próxima edição do Worl Press Photo. Eles, os mensageiros ou fabricantes de notícias, foram todos para lá. Oportunidades destas não surgem sempre.

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E perante tanta oferta de imagens e sons, devia caber aos representantes dos media na linha da frente, a capacidade de distinguir entre aquilo que deve ser captado, e aquilo que só diz respeito aos mortos, à dignidade do ser humano ou ao sofrimento dos que perderam tudo e todos. E mesmo que esses possam perder o discernimento no meio de tanta desgraça, mesmo que considerem que tudo é possível de ser captado, caberia aos representantes dos media de segunda linha, a capacidade de filtrar aquilo que realmente deve ser mostrado. Aquilo que vai informar o leitor ou espectador, sem ferir gratuitamente a sua susceptibilidade, ignorando-se aquilo que nada de relevante vai acrescentar à notícia. Mas não foi isso que aconteceu desde o dia seguinte à tragédia. Os corpos dos mortos, espalhados pelas ruas ou empilhados a um canto, eram exibidos com a mesma naturalidade com que se mostravam os sobreviventes. Ninguém vai mostrar o corpo do morto que deu à costa, depois de vários dias de busca. Nem ninguém seria capaz de mostrar os mortos que pudessem estar no autocarro submerso no Douro, junto a Entre-os-Rios. Então porque fizeram isso com os mortos do Haiti? Serão eles menos dignos de respeito? As imagens do Haiti passaram a ser mostradas sem qualquer aviso prévio sobre a possibilidade da susceptibilidade ser ferida. As imagens de mortos e de enorme sofrimento dos sobreviventes passaram a ser coisas banais, capazes de serem exibidas em horário nobre do Telejornal, sem que se avise miúdos e graúdos sobre o seu conteúdo? O panorama nacional e internacional foi o mesmo. No The New York Times, a legenda da foto dizia que: "Lionel Michaud cried after finding his 10-month-old daughter, Christian, among hundreds of bodies outside the morgue in Port-au-Prince”. E o corpo da criança lá estava na foto, depositado sobre os restantes, sem censura, sem filtros, sem aviso prévio, exibido de forma obscena para todos os que tenham acesso à Internet.

A gota de água que fez transbordar o copo da paciência, perante tantos atropelos ao jornalismo que se quer de qualidade e isenção, sucedeu numa ‘peça jornalística’ da RTP. O enviado da RTP dizia que as pessoas faziam as suas necessidades no meio do campo de refugiados. Bastava isso para eu acreditar nele. Não era necessário mostrar uma mulher a fazer as suas necessidades. Tinha deixado de haver limites.

Noutro ‘excelente’ exemplo de jornalismo, semelhante a uma mistura de Oprah com o programa do Ratinho, foi mostrada uma reportagem que falava da morte de uma menina de 11 anos, que tinha sucumbido aos ferimentos após 3 dias sob os escombros. A música de fundo dava vontade de cortar os pulsos. O ‘jornalista’, com a sua mão pousada sobre o ombro do tio da menina, ouvia-o contar as últimas palavras da menina “Obrigado Senhor, por me teres salvo a vida. Posso perder o pé mas terei sempre a vida”. E depois disso, a reportagem avança com esta frase, possível de ser interpretada de diversas formas:

A coragem de uma criança de 11 anos que acreditava em Deus e noutro destino, depois de 3 dias de enorme sofrimento

Isto não é jornalismo. Isto é um circo mediático que perdeu a noção do que é admissível, sem qualquer respeito pela dignidade humana. E nós, espectadores e leitores, temos o direito e o dever de mostrar indignação e revolta perante quem perdeu o discernimento sobre o que é razoável, objectivo e importante.

Não posso deixar de recordar o Larry Flynt. Nas muitas batalhas legais que teve de travar, a certa altura, ele apresentou estes argumentos (não encontrei a versão português/Portugal):

“Assassinato é ilegal, mas se fotografar um assassinato, vai para a capa da Newsweek! Pode até ganhar um Pulitzer! E, no entanto, sexo é legal. Todos fazem ou todos querem fazer. Mas se fotografar duas pessoas transando ou uma mulher nua eles te põem na cadeia. Tenho um recado para vocês, bondosos, moralistas e cristãos, que dizem que seios e vaginas são obscenos. Não reclamem comigo, reclamem com o fabricante! Jesus disse: ‘não julgueis’, mas se vão julgar, julguem direito, de olhos abertos. O que consideram obsceno? Políticos e demagogos gostam de dizer que material sexualmente explícito corrompe a juventude, no entanto, eles mentem, enganam e fazem guerras. A verdadeira obscenidade é criar os jovens acreditando que sexo é ruim, feio e sujo. E que é heróico derramar sangue do modo mais honroso, em nome da humanidade. Temos problemas com o sexo devido a tantos tabus. Por isso, somos tão irados, violentos e genocidas. Mas façam essa pergunta: o que é mais obsceno? Sexo ou guerra?”

Não deixa de ter razão, sobretudo, apesar de já terem passado muitos anos após essa argumentação. Continua perfeitamente válida nos dias de hoje. O que é mais obsceno? Sexo ou guerra?

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9 comentários leave one →
  1. Janeiro 19, 2010 8:24 pm

    Circo mediático é a expressão mais do que correcta para caracterizar a loucura dos media envolvidos na guerra de audiências. Para além de ser imoral é manifestamente desumano!
    Não existem limites nem éticos, nem morais…Não existem excepções, embora esta situação de “verborreia mediática hiper realista” já tenha sido denunciada em alguns artigos de opinião na imprensa escrita…mas o que interessa é o mainstream do sangue, suor r lágrimas…

  2. Palma permalink
    Janeiro 19, 2010 10:29 pm

    Parabéns por este post magnicamente terrível. Infelizmente é tudo verdade. Uma obscenidade total. Boa noite – Palma -Louletania

  3. Janeiro 19, 2010 11:21 pm

    Eu vejo pouca televisão, e tenho, deliberadamente, fugido de ver esta exploração da desgraça.

    Hoje, ao observar um dos reporteres desabafei: “mas estes abutres não têm limites?”

    Vão para lá como se fossem para um jardim zoológico, e depois ainda reclamam da falta de segurança.

    De que lado está a “desumanidade”? No desgraçado que ataca para comer, ou no jornalista que busca a fama no sofrimento alheio?

  4. Janeiro 20, 2010 10:38 am

    A fabricação de noticias começa a ser uma das situações mais comuns em qualquer canal. Aplicam a célebre máxima da publicidade ” mesmo que falem mal de mim o que importa é que falem”.
    è como aquelas perguntas de extenso critério jornalistico depois de uma pessoa perder a casa “Então o que sentiu quando viu a casa ir pelos ares?”
    Acham que vale a pena a resposta?

    Nota – peço desculpa pela noobice, mas publiqueui este comentário no post anterior, por isso p.f pode apagar no post anterior já que não faz sentido e eu odeio SPAM :)

  5. Janeiro 20, 2010 8:36 pm

    @Pirate68, @Palma, @Kurioso1950 e @Pedro_T,
    agradeço os vossos comentários e digo que concordo com o que escreveram.
    Eu estava a imaginar esta tragédia na Coreia do Norte. Poderiam morrer centenas de milhares de pessoas que nada se saberia. Ali, o Circo mediático não conseguiria entrar. Mas também não haveria ninguém para contar ao mundo a tragédia que se estaria a viver.
    Nestas tragédias, é preciso equilíbrio e bom-senso.

  6. zhipol permalink
    Janeiro 20, 2010 9:09 pm

    Quem vê um noticiário na televisão nestes dias,vai pensar que a gripe A foi erradicada ou que o desemprego em portugal já não existe.Nas tvs nacionais já não existe jornalismo sério.Parece que aprenderam todos no 24 Horas.Quanto mais sangue melhor.Mas nos zapings que tenho feito por televisões de outros paises,o cenário não é diferente,só muda o idioma.Só havia uma maneira de deixarem de falar do Haiti,era haver um drama ainda maior noutro sítio do planeta.

  7. camionista permalink
    Janeiro 21, 2010 8:10 pm

    Caro BW, este post é serviço cívico.
    A loucura e o impudor dos media parecem não ter limites.

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