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Recortes da Terra do Ópio

Setembro 4, 2009

Num recente comunicado, a Oxfam apresentou duras críticas à ajuda internacional que tem sido disponibilizada para o Afeganistão. Segundo os seus números, um terço do Afeganistão está em risco de fome. Os níveis de pobreza situam-se entre os piores do mundo, com 40% dos Afegãos a viverem abaixo da linha de pobreza. Uma mulher morre a cada 30m devido a problemas na gravidez ou no parto. Diariamente, os EUA estarão a gastar mais de 68 milhões de euros com o seu orçamento militar no Afeganistão, porém, a ajuda internacional é inferior a 4,8 milhões de euros por dia. «A ajuda internacional que chega ao Afeganistão, na maioria das vezes, não chega às pessoas que devia ajudar, ou é gasta em projectos que apenas trazem benefícios para os próprios contribuidores, em vez de satisfazer as reais necessidades afegãs».

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Na sequência de uma quebra de preços no mercado da droga, a cultura de ópio no Afeganistão terá caído 22% no corrente ano, levando muitos agricultores a optarem por novas culturas. Um declínio que será resultante da conjectura económica e não uma consequência do aumento do policiamento ou de medidas que incentivem a adopção de outras culturas. Apenas 2% da produção terá sido apreendida. Apesar desta redução, o Afeganistão continua a ser o maior produtor de ópio, com as colheitas deste ano a garantirem 90% do abastecimento do mercado de droga. De 2008 para 2009, a produção de ópio baixou 800 toneladas, de 7700 para 6900. Essas 800 toneladas são cerca do dobro da produção no chamado “Triângulo Dourado”, responsável pela produção no sudeste asiático. Na província de Helmand, onde se verifica grande pressão militar dos EUA e Inglaterra, houve uma redução de um terço nas colheitas. Apesar disso, desde 2008, terá existido um excesso na produção de 5000 toneladas, que ninguém sabe onde estão, que contribuíram para uma redução de 40% no valor do ópio afegão. Para todos os efeitos, num país com forte presença militar internacional, para onde são enviados muitos donativos, a cultura do ópio continua a ser a fonte de rendimento para a muitos afegãos, continuando a ser responsável por grande parte do drama da toxicodependência na Europa.

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Ainda sem serem conhecidos os resultados finais das eleições no Afeganistão, a verdade é que mais uma lei execrável, violadora de todos os direitos humanos, ainda está em vigor, tendo sido aprovada pelo Presidente Hamid Karzai na véspera das eleições, apenas para ganhar o apoio dos Xiitas, que representam 15% da população. A tal lei, aprovada por um presidente eleito graças aos esforços dos países defensores das liberdades e dos direitos humanos, que invadiram o Afeganistão para expulsar uns demónios chamados Talibans,  diz qualquer coisa como isto «Para além de prever que uma mulher possa ser privada de comida caso se recuse a satisfazer sexualmente o marido, esta lei estipula que as crianças serão colocadas à guarda exclusiva dos pais e avôs; que as mulheres deverão pedir autorização aos maridos para poderem trabalhar e prevê ainda que um violador escape a qualquer acusação caso se disponha a pagar à vítima». Apesar dos soldados que continuam a morrer e de toda a ajuda internacional, acabámos por ser responsáveis pela aprovação de uma lei degradante, violadora de todas as convenções e direitos. Noutro contexto, noutro lugar, a aprovação dessa lei poderia estar a  dar lugar a embargos ou sanções. Para já, a única preocupação é que se prove que a democracia vença no Afeganistão, pouco importando o preço a pagar para que se atinja esse objectivo.

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Como se estes problemas fossem poucos para Barack Obama e a sua administração, Stanley McChrystal, um dos principais generais dos EUA no Afeganistão, apresentou um relatório onde afirmava que a estratégia actual não está a resultar, defendendo que a principal prioridade deverá ser proteger a população afegã da ameaça taliban. Nesse relatório é indicado que os afegãos estão a sofrer uma crise de confiança porque a guerra contra os taliban não tornou as suas vidas melhores. Este general acredita que 60% do problema colocado pelo fortalecimento dos “estudantes de teologia” desapareceria se fosse possível aos seus novos recrutas encontrarem trabalho. E não avança para já com qualquer pedido de fortalecimento de tropas no terreno, o qual, apenas deverá ser avaliado no final deste ano. Um relatório apresentado numa altura em que as sondagens indicam que só cerca de metade dos norte-americanos considera hoje que vale a pena combater esta guerra, e após o mês de Agosto onde morreram 47 soldados americanos.

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Como se não bastasse o relatório anterior para antever um futuro muito incerto para o Afeganistão, tivemos agora conhecimento das festas perversas e praxes violentas sobre recrutas em Cabul, ou do novo conceito PMCGW (Private Military Companies Gone Wild). Nestas festas, o álcool circula livremente e os novos recrutas são forçados pelos superiores a realizar "actos sexuais desviantes e humilhantes". Estas festas foram denunciadas pela POGO (The Project On Government Oversight) num relatório enviado esta semana à secretária de Estado Hillary Clinton, no qual se alega que "as actividades obscenas" dos guardas colocam em causa a segurança dos cerca de mil diplomatas e funcionários da embaixada. Em causa está o facto da segurança dos diplomatas em cenário de guerra, ser assegurada por 450 seguranças, ex-militares de vários países, contratados pela ArmorGroup North America, uma empresa com quem o Departamento de Estado dos EUA celebrou um contrato de 132 milhões de dólares, válido por 5 anos e renovado em Junho, apesar de diversos avisos sobre incumprimentos do contrato. Além do consumo de álcool e da perversidade dos actos, praticados sobre novos recrutas e contra a sua vontade, acrescem alegações de que os guardas levaram prostitutas para festas, violando as normas de segurança, e que terão convencido guardas afegãos a participar, num claro desrespeito pela sua religião. Este tipo de comportamento acaba por não ser novidade entre as empresas privadas de segurança, sendo este artigo demonstrativo do que se passa no Iraque “Steroids, drink and paranoia: the murky world of the private security contractor”.

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Alguns poderão dizer “Mas Camp Sullivan – a base onde estão aquartelados os seguranças da ArmorGroup North America – não é Abu Ghraib, sendo apenas malta doida a divertir-se, sem maltratar prisioneiros”, ou mesmo poderão ler-se imbecilidades destas «Geez, give them a break! The in the middle of a war fighting for people back home who m sure have done similar stupid things (just not advertised to the puiblic)! Atleast they finding ways to enjoy themselves when they can!», escritas num comentário de uma notícia. Só que, estas imagens são divulgadas num país onde a imagem do invasor que expulsou os demoníacos talibans já conheceu melhores dias. Um país onde os atentados têm vindo a aumentar, onde a miséria aumenta, onde a esperança vai esmorecendo, e onde a religião dita leis severas. Qual o impacto da imagem de um soldado a lamber álcool que escorre entre as nádegas de outro? Mercenários pagos a peso de ouro pelos EUA com verbas muito superiores às que são dadas para o desenvolvimento do Afeganistão?

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Para piorar, estas imagens vêm a público na mesma altura em um ataque aéreo das forças da NATO no Afeganistão contra rebeldes taliban, os quais tinham roubado dois camiões cisterna, resultou em pesadíssimos danos colaterais, com a perda da vida de pelo menos 90 pessoas que estariam nas imediações do local tomado por alvo, na província de Kunduz, no norte do país. Dois meses antes, o já referido general Stanley McChrystal, tinha ordenado expressamente que não podiam ser feitos ataques aéreos sobre nenhuma posição a não ser que tivesse sido confirmado com segurança que não seriam postos em perigo nem civis nem forças coligadas. Pior era difícil.

Em Junho de 2008, eu escrevia que Da Terra do Ópio nada de novo. Em Dezembro de 2007 tinha falado sobre Morrer na terra do ópio. Em Setembro de 2009, face a estes recortes, torna-se difícil encontrar algo que tenha mudado para melhor.

 

 

 

7 comentários leave one →
  1. Setembro 4, 2009 4:49 pm

    Excelente compilação!
    Parabéns

  2. Setembro 4, 2009 5:37 pm

    Ganda Post!

    • Setembro 4, 2009 5:49 pm

      Francisco, seja bem-vindo por aqui.
      Fui dar ao “O Mundo em Guerra” e vi lá um dado bem importante que queria ter colocado neste texto, pois tinha-o lido ontem algures, mas hoje não o encontrei: Departamento da Defesa tem mais guardas privados do que soldados no Afeganistão. São 53 300 os homens de uniforme no terreno e 68 200 os contractors.. Também hoje li algures que se não houver forma de aumentar o número de soldados no terreno, então, o aumento de efectivos teria de ser feito à custa de mais contratos com empresas do tipo da ArmorGroup North America.

  3. Setembro 7, 2009 11:04 pm

    Considero o Afeganistão uma dor de cabeça maior que a do Iraque, pelo facto de ser um país paupérrimo e impossível de ser controlado, dado seu relevo montanhoso.
    Desconhecia esse pormenor da segurança privada ser em maior número que as forças militares.
    O Comandante das Forças da NATO nesse país já disse que a resolução do conflito não está na acção militar, mas sim na acção social e económica junto das populações.
    Oxalá que os falcões do Ocidente percebam isso a tempo…

  4. Setembro 15, 2009 10:01 am

    It will be up to Britain and other European states, and not the United States, to provide reinforcements for Afghanistan if it is decided more troops are needed, Nato sources said today.

    Stanley McChrystal, the US general in charge of the overall Nato force of 100,000 has yet to make any formal request, and, according to a senior European official, he has been discouraged from doing so for the time being ‑ at least until there is a clear political settlement in the wake of Afghanistan’s disputed election.

    But if and when the call comes, the US will argue that it has already sent an extra 21,000 troops this year, and is still deeply committed in Iraq.

    America already provides two-thirds of the Nato force. The pressure will instead fall on the European states.
    (link)

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