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O ‘Mártir Dentário’

Dezembro 27, 2008

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Dentes, a última fronteira da dor (sim já sei, logo depois dos rins, ouvidos, parto, reumático, hemorróidas e corno). Mesmo no fim dessa lista, um dente lixado é capaz de dar cabo de qualquer coisa. Não é coisa para me gabar, mas posso dizer que já fiz quase tudo o que haveria para fazer em termos de tratamentos dentários. Garanto que tenho toda a legitimidade para ir à proa do navio e gritar bem alto “I’m the king of desvitalizations”.

Os dentes são fantásticos para demonstrar as Leis de Murphy. Uma semana tem 5 dias úteis. Poderá um dente começar a doer à 2ª Feira? Não. Ele irá começar a palpitar, precisamente às 21:00 de 6ª Feira, quando já não houver possibilidade de telefonar para o dentista que nos acompanha desde a infância. E como já existem muitos sítios que estão abertos aos Sábados, e como os dentes são seres altamente evoluídos e matreiros, agora, eles costumam começar a doer aos Sábados à tarde. E em cerca de 36h aplicam toda a sua fúria destruidora, como se estivessem a gritar: “Tremei! Eu sou o molar todo o poderoso e vou libertar toda a minha ira”.

De início, todos julgam ser capazes de suportar um ligeiro incómodo que palpita num dos lados do maxilar. Em breve, cada corajoso estará a berrar, a emaranhar pelas paredes e desejoso de nunca ter nascido. Não sei se existem estudos a esse respeito, mas estou capaz de publicar uma tese de mestrado (com aquilo de Bolonha – não é Bolonhesa – ainda existem estas teses ou é tudo doutoramento?) sobre os efeitos de propagação da dor de dentes. Tem, sem dúvida, um andamento exponencial. O primeiro comprimido (com capacidade para lixar o estômago) é capaz de atenuar a dor ao longo das 8h previstas. O segundo, já irá durar com sorte, umas 6h. Depois disso, o efeito de atenuação irá aproximar-se rapidamente do zero.

Nesse tal estudo, também publicaria a minha escala de severidade do problema dentário. Seria baseada na Escala Fujita, utilizada para classificar o grau dos Tufões ou Furacões, e teria categorias entre F1 e F5, onde o “F” não seria certamente relativo a Fujita. “F1” – Impressão; “F2” – Moínha; “F3” – Latejante; “F4” – Dai-me Forças; “F5” –MÃEZINHAAA.

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Ainda gostava de saber quantas virgens poderão estar à espera do ‘mártir dentário’. Mesmo que fossem 71, com a dor palpitante, não sei se o ‘mártir dentário’ conseguiria tirar algum proveito disso. O ‘mártir dentário’ é digno da compaixão de todos nós e identifica-se perfeitamente no Paraíso de Estomatologia, mal este abre à Segunda-Feira. Ele irá apresentar olheiras profundas, um tom de pele ligeiramente acinzentado e executará movimentos de forma muito lenta. Os argumentos que apresenta junto da recepcionista vão deixá-la lavada em lágrimas. Entre pequenos gemidos de dor, irá usar frases do tipo “Já não durmo há duas noites”, “Estou em grande sofrimento”, “Espero o tempo que for necessário” e abusará certamente da palavra “Deus”, com “Oh meu” e “Ai meu” atrás.

Quando os comprimidos deixam de fazer efeito, a anestesia do dentista passa a ser a droga do ‘mártir dentário’. Até se esquece que uma agulha bastante fina lhe irá perfurar a gengiva. Ele sabe que essa dose irá retirar-lhe todo o sofrimento, mesmo que possa ser de forma temporária. Sentir-se-á no céu e até poderá exigir as virgens a que tem direito. Pouco lhe importa que possa ficar sem sentir metade da cara, que deixe de sentir as narinas, ou que deixe cair pelo canto da boca a maior parte da água do copinho para fazer o gargarejo. O importante é deixar de sentir a dor latejante que quase o levou à loucura.

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Andava eu a refastelar-me com todas as iguarias desta quadra, quando sinto uma impressão num dos lados do maxilar “Olá!?”. Em poucas horas, um típico caso da categoria F1 evolui para um F3. Por sorte, ao fim de algum tempo, o latejar acabava por passar depois de o dente ser sujeito a algum tipo de pressão. Só que, na manhã do dia 26, houve picos na categoria F4, que, ao tentar comer os flocos mastigando apenas para o lado direito, chegaram a atingir a categoria F5.

Foi neste estado que me desloquei ao CCQTSV (Consultório Catita Que Tem Sempre Vaga). A dúvida era saber se consultório teria alguém que me pudesse atender, ou mesmo, se estaria aberto. No meio de uma grande infelicidade, até tive sorte. O consultório estava aberto, a ‘Dra. Fantástica’ estava de serviço, e o primeiro paciente com marcação faltou. Melhor era impossível.

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Faço um parêntesis para falar de um pormenor bastante importante. O dente em causa era um molar que há muitos anos tinha sido ‘coroado’. E antes que pergunte, eu vou falar sobre mais um capítulo da tal tese de Mestrado «O Tipo de Intervenção – Que Soluções». Também baseada na Escala Fujita, o tipo de intervenção tem categorias entre P1 e P5, onde o “P” está associado à questão “Pagamento”.

“P1” – Está tudo fixe; “P2” – Vamos brocar um bocado; “P3” – Vais ser desvitalizado; “P4” – Toma lá uma coroa; “P5” – A mãe de todos os implantes.

Caso você seja um dos Escolhidos ou abençoado, pelo facto de até hoje, apenas ter tido necessidade de tirar pedaços de tártaro incrustado entre os dentes, eu passo a explicar o que é um dente ‘coroado’.

– Depois de aplicada a anestesia divinal, uma BAM (Broca Altamente Massacrante) começa a perfurar o seu dente, como se andasse à procura de petróleo. A furação termina quando os ‘canais’ (orifícios ao longo das ‘raízes’ do dente, onde habitam os nervos) ficam à mostra e quando o dente já apresenta uma cratera que parece ter sido feita pelo impacto de um meteorito;

– O passo seguinte consiste em limpar os ‘canais’. Isso é feito à custa de um conjunto de limas circulares, de grossura crescente, que são introduzidas nesses orifícios. O som e a sensação de desbastar esses ‘canais’ é…

– Até aqui estaríamos na presença de um trabalho da categoria P3. A BAM volta à acção, no sentido de eliminar o resto da parte superior do dente, onde você gostava de passar a língua. Na prática, você fica apenas com a raiz do dente;

– É feito um molde, que servirá para a construção de um dente em cerâmica (Coroa);

– É aplicado um espigão que será CIMENTADO às raízes do dente;

– Por fim, é CIMENTADA a Coroa ao espigão.

Repare no destaque dado à palavra CIMENTADA. Essa robustez é a que garante que o dente pareça um dente de origem.

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Expliquei à ‘Dra. Fantástica’ os sintomas, ela tirou uma radiografia e Oh Lá Lá, o dito ‘coroado’ tinha uma infecção por baixo das raízes. Daí, a dor lixada que surgia sempre que era feita uma pressão sobre o dente. Solução? Era preciso tirar a ‘coroa’, abrir os canais, desinfectar e voltar a por tudo no sítio. Tirar a ‘coroa’? Eu cheguei a destacar o aspecto CIMENTADA?

Numa abordagem ingénua, eu pensei que existisse um objecto fantástico, capaz de remover a coroa com a maior das facilidades, assim algo tipo robótico, que se adaptasse à ‘coroa’ e que fosse fazendo pequenos ruídos, tipo, TZZZC, TCHHHK, WNHIC, depois disso, a ‘coroa’ saltaria como se fosse uma simples carica. Como eu estava errado.

– Erineide [1] pode dar-me o ‘Saca Coroas’ [2]?

[1] As minhas desculpas para a auxiliar da ‘Dra. Fantástica’. Eu sei que é ‘neide’ qualquer coisa, mas não me recordo do seu nome.

[2] Também não me recordo do nome exacto do objecto do Demo

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Mais um parênteses, a propósito da Erineide. O seu papel consiste basicamente em segurar no ‘Aspirador de baba’. Na minha opinião, trata-se de uma função que exige um elevado nível de dedicação e não está ao alcance de qualquer um. Ou se nasce para aquilo, ou não vale a pena tentar insistir. O CAB (Controlador do Aspirador de Baba) tem de ter a capacidade de perceber o momento exacto para aspirar, e deverá fazer isso com calma, sem medo que a baba do ‘mártir dentário’ possa vir a inundar o consultório.

Não deverá estar sempre a aspirar, fazendo com que as gengivas fiquem ressequidas e encarquilhadas, obrigando o ‘mártir dentário’ a tentar gritar “Ághhhua”, nem deverá deixar acumular muita baba nos cantos, levando novamente o ‘mártir dentário’ a gritar “Sochhollo…afhhoghar”.

Um bom CAB contribui directamente para o sucesso de um consultório dentário.

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Voltando ao ‘Saca Coroas’, resta dizer que o dito era apenas e somente, uma espécie de varinha de metal.

Bem, eu vou encostar isto à coroa e irei dar umas pancadinhas – disse a ‘Dra. Fantástica’

Pancadinhas? Vais o quê? Onde? Não me recordo se salientei a palavra CIMENTADA.

[Toc] [Toc] [TOC] [TOOC]

– Uáááááá, Ó F%%$$##& F5 F5

Não é muito agradável, eu sei. Há dias também tive que passar pelo mesmo. Mas não há outra forma de fazer – disse a ‘Dra. Fantástica’

– Nhhão hhá o quhê? Eh páh! Ixto dóhi

[Toc] [Toc] [TOC] [TOOC] [Toc] [Toc] [TOC] [TOOC]

– Uáááááá, F5 F5 F5 F/&%%$$# CUM C%$$#%%#%#

Pois, isto está complicado. Não estou a conseguir. O melhor é você voltar à tarde, para que seja o Dr. Big a tentar – disse a ‘Dra. Fantástica’

WOW. Alto aí. Pausa. Vamos lá analisar isto com calma.

Nesse momento eu suava abundantemente da testa e a Erineide ia-me secando com umas compressas.

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Voltar à tarde? Eu tinha uma dor insuportável e a última coisa que me apetecia era voltar a um dentista. Um gajo é baleado, vai ao hospital e o médico tentar tirar a bala com a mão. Dói, não é? Olhe, não consegui, vou cosê-lo e peço que volte à tarde para o meu colega repetir todo o processo doloroso.

E vamos agora falar do Dr. Big. É o dono da clínica, sendo especializado em tudo o que seja coras e implantes. Uma vez, foi ele que colocou uma ‘coroa’ num molar lixado. Além de achar que todo o processo tinha sido um bocado ‘à bruta’, o pior aconteceu no final do processo. Quando ele cimentou a ‘coroa’, eu fiz de imediato um teste exaustivo à qualidade do produto (passar a língua no dito) e exclamei “Palece uma bhola”

– Parece uma bola? Uma bola?

Imagine o Michelangelo a ir ter com o Papa Júlio II.

– Santíssimo, já terminei o tecto da capela

– Humm, Michel, não está mal, mas…

– Mas!?

– Acho o Adão um bocado balofo. E aquele dedinho espetado de Deus é assim um bocado…

Não se diz ao Michelangelo das coroas que aquilo parece uma bola. Nunca.

Será que ele ainda se lembrava dessa heresia que eu tinha dito?

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Entre receios e dores tipo F4, lá voltei à tarde à Casa dos Horrores.

O Dr. Big agarrou no ‘Saca Coroas’ e

[PÁÁÁ] [TRÁÁS] [PÁÁÁ]

– UÁÁÁÁÁ OH F%#$%&#$ UÁÁÁÁÁ

Pelo ar de felicidade dos presentes, percebi que a dita ‘coroa’ tinha finalmente sido DESCIMENTADA. A diferença entre a ‘Dra. Fantástica’ e o Dr. Big reside entre pancadinhas e pantufadas no ‘Saca Coroas’. Enquanto a Erineide me secava a testa, eu tinha a dúvida habitual de quem presencia um acidente: “Não vou olhar, não vou olhar, WOW, IHHH, É só sangue”, neste caso “Não vou lá com a língua, não vou lá com a língua, WOW, CA GRANDA BURACO”.

Mais limas para abrir os canais, mais compressas pedidas à Erineide, e toma lá uma massa branca que salta ao mínimo contacto.

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Já lá vai o tempo em que a queda de um dente era um divertimento e que até podia dar dinheiro da Fada dos Dentes.

Agora, resta saber se a antiga ‘coroa’ pode voltar a ser colocada ou se haverá lugar a uma despesa da categoria P4.

8 comentários leave one →
  1. Dezembro 27, 2008 11:01 pm

    Adorei este post, fartei-me de rir. Já passei por tudo isso, felizmente há que tempos que nada disso me acontece. As melhoras! Beijinhos, Ana

  2. Dezembro 29, 2008 1:21 am

    hahaha, gostei muito! espero que não haja despesa P4, não era nada bom para um inicio de ano. Um abraço.

  3. Dezembro 29, 2008 10:23 am

    Ana,
    posso adiantar que só hoje deixei de tomar um comprimido para as dores. Eu que odeio (ou tenho um medo terrível) os anti-inflamatórios, andei a tomá-los desde a 5ª Feira passado. E ainda vão ser vários dias sem poder comer paar o lado esquerdo, sob pena da tal massa branca frágil saltar toda ou partir-se o restinho de dente que lá está.
    Olha, como estás na terrinha do meu coração, espero que gozes ao máximo e que passeies até à exaustão. Entre várias coisas, tenho saudades das espetadas.
    AH! E depois, tens de contar como é o espectáculo do fogo de artifício

  4. Dezembro 29, 2008 10:32 am

    Popelina,
    estou com um péssimo pressentimento a esse respeito. Pude olhar para a coroa e vi que estava estalada. Também, com as pantufadas que o Dr. Big deu, não seria difícil que isso pudesse acontecer. A Coroa deveria ser fornecida com um sistema de parafuso, assim, em caso de necessidade, era só desapertar.

  5. Anónimo permalink
    Agosto 7, 2012 7:04 pm

    Adorei o sentido de humor do “Mártir” e identifiquei-me em muitas das situações que descreve. Ando de facto também eu com problemas dentários e em fase bastante activa de tratamento, desde a cirurgia de regeneração óssea, implantes, desvitalizações, etc.. Gostaria apenas de fazer uma pwequena rectificação em relação à Enereide, cuja profissão se chama Assistente Dentária, com 2 anos de formação na Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa (penso que ainda não há outra) e cujas funções vão muito para além de aspirar saliva. Essa foi a minha formação e profissão durante 15 nos e garanto-lhe que talvez se não tivesse em tão grande sofrimento e angústia, poderia ter-se apercebido de muitas outras tarefas desempenhadas pela “dita cuja”. Agora o que também há muito por aí são médicos dentistas que para pagarem apenas um ordenado miserável e não oferecerem quaisquer condições ou vínculo à respectiva assistente, optam por “arranjar” uma carinha laroca sem formação profissional que segure no dito aspirador e pouco mais… Boa sorte para futuras experiências na cadeira do dentista!

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