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O vício de Pandora

Dezembro 17, 2008

A caixa de Pandora é uma expressão muito utilizada quando se quer fazer referência a algo que gera curiosidade, mas que é melhor não ser revelado ou estudado, sob pena de se vir a mostrar algo terrível, que possa fugir do controlo. Esta expressão vem do mito grego, que conta sobre a caixa que foi enviada com Pandora a Epimeteu. Pandora foi enviada a Epimeteu, irmão de Prometeu, como um presente de Zeus. Prometeu, antes de ser condenado a ficar 30.000 anos acorrentado no Monte Cáucaso, sendo o seu fígado comido todos os dias pelo abutre Éton, alertou o irmão quanto ao perigo de se aceitar presentes de Zeus. Epimeteu, no entanto, ignorou a advertência do irmão e aceitou o presente do rei dos deuses, tomando Pandora como esposa. Pandora trouxe uma caixa (uma jarra ou ânfora, de acordo com diferentes traduções), enviada por Zeus em sua bagagem. Epimeteu acabou abrindo a caixa, e libertando os males que haveriam de afligir a humanidade dali em diante: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira e a paixão.

Há coisas que me transcendem. O vício de Pandora é uma delas. Saliento que não estou a falar de Pandora, a filha primogénita de Zeus. Estou a falar de Pandora, a marca de joalharia criada em 1982 pelo ourives P. Enevoldsen e a sua esposa, lá prós lados de Copenhaga.

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Imagine esta situação.

– Querido!? Ofereces-me uma pulseira cheia de berloques bonitos?

– Hum…Hããã…qual é o preço?

– A versão mais baratinha deve ficar pelos [cof] 300 [cof] €

– 300 QUÊ? 300€? Mas nós estamos a nadar em dinheiro?

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Agora imagine esta situação.

– Querido!? Ofereces-me uma pulseira onde se pode vir a pôr berloques bonitos?

– Hum…Hããã…qual é o preço?

– A pulseira mais simples é 59€

– Está bem!

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Só mais tarde é que o desgraçado se irá aperceber que abriu uma verdadeira caixa de Pandora. Não haverá descanso enquanto a pulseira não for preenchida com berloques. Um berloque hoje, outro amanhã, pelos aniversários, para comemorar algo, porque está triste, porque está contente, porque sim, e em pouco tempo, o tal valor de 300€ (numa visão bastante conservadora) terá sido atingido ou ultrapassado.

Esta foi uma forma diabólica, que o casal Enevoldsen encontrou, para enganar todos os incautos da espécie masculina que não gostam de abrir os cordões à bolsa para oferecer jóias. Cuidado homens. Tenham medo, tenham muito medo. Para vocês perceberem, eu vou tentar fazer um exemplo personalizado. Oferecerem uma pulseira da Pandora, é o mesmo que vos oferecerem 4 pneus de baixo perfil, com jantes de liga leve. Gostariam de ficar apenas com os 4 pneus? Pois. Quanto tempo demoraria até pedirem a carroçaria ou o motor? Pois.

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Mas porquê eu não tenho destas ideias. É certo que não sou ourives, mas podia ter pensado nisto. Formava parceria com alguém que percebesse da arte de trabalhar o ouro e a prata, e neste momento, estaria a viajar pelo mundo, a publicar textos dos lugares por onde teria passado. Mas não. Não tive a esperteza dos Enevoldsen e quanto muito, sou mais um incauto que, de vez em quando, lá irá contribuir para a riqueza acumulada do casal dinamarquês.

Os Enevoldsen tiveram uma ideia brilhante. Juntaram o desejo feminino pelas jóias, ao desejo incontrolável de acabar uma colecção, seja ela qual for. Quantas vezes, não acabámos por gastar o dinheiro para comer algo na escola, em mais carteiras da colecção Galáctica ou outra qualquer, apenas na esperança de saírem os cromos que faltavam? E as colecções de chávenas de chá?

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Se quiser ficar a saber mais sobre esta marca do Demo, faça uma visita ao site da Pandora. Para se aperceber da verdadeira dimensão desta Caixa de Pandora, apresento-lhe os preços dos artigos principais ou mais comuns, a pulseira, os berloques e os acessórios.

Pulseiras: Entre 59€ a 1411€

Berloques: Entre 22€ a 500€

Muranos: 165€

Travões: Entre 24€ a 185€

Separadores: Entre 13€ a 118€

A diferença de preço reside nas diferentes preciosidades dos materiais utilizados. Os preços mais baixos dizem respeito à utilização de prata simples. Os intermédios, à mistura de prata com ouro. E os mais caros, à utilização de ouro, podendo em algumas situações, haver ainda a incorporação de um diamante.

Repare, a pulseira será o começo de tudo. A origem, não da vida mas do pesadelo. Depois, vêm todos os berloques, de todas as formas e feitios. A seguir, surgem os acessórios, os Travões – para impedir que os berloques se movam à maluca ao longo da pulseira – e os Separadores – para distinguir o trigo do joio ou para colocar menos visível as peças mais feias que tenham sido recebidas em oferta.

Sem ser um especialista neste assunto, eu diria que em cada pulseira, será possível colocar de forma harmoniosa, 12 berloques, 3 travões e 3 separadores.

Assim, contas por alto, preencher a pulseira mais rasca poderá custar uns 375€. Já o preenchimento da pulseira Barbie Girl ou, modelo Paris Hilton, poderá eventualmente rondar uns 6900€.

E se ouvir falar em Murano, não pense que se trata de um lagarto de grandes dimensões. São umas peças em prata ou ouro, revestidas num vidro de Murano, uma ilhota lá prós lados de Veneza.

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O casal Enevoldsen deveria ser processado. Processado por fomentar a inveja, a cobiça e a má-língua entre as mulheres, e por levar os homens ao desespero.

– Querido, a X já tem o berloque 79112;

– Tem o quê?

– O Berloque Pandora que é um morango;

– Sim…e?

– E eu gostava de ter agora o 79116, aquele que é um ananás;

– Vais, então não vais!

Pandora veio salientar a diferença entre classes sociais. Uma AIG (All In Gold) nunca irá dar conversa a uma JIS (Just In Silver). Pelo meio, com possibilidade de travar amizade com ambos os lados, fica a MGMS (Maybe Gold Maybe Silver). E ninguém falará a uma AB (All Brakes), a não ser que eventualmente sejam todos em ouro.

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O casal Enevoldsen é diabólico. Não bastava terem criado algo a apelar a um dos mais elementares instintos humanos, o coleccionismo, como inventaram peças, às quais se pode atribuir simbolismo. Na opinião do incauto, poderão ser peças toscas, diria mesmo, feias, que apenas representam o valor de aquisição. Mas para a verdadeira Pandórica (mulher que sabe de cor todos os códigos do catálogo), cada peça tem um simbolismo muito importante, nem que seja para arranjar mais um argumento a justificar a sua compra.

Temos o morango, peixe, casa, dado, coração, zodíaco, trevo, serpente, golfinho, fantasminha, porquinho, rã, cavalo, girafa, coelho, prenda, galinha, mala de senhora, saco de dinheiro, ouriço, anjinho, carrinho de bebé, puto anafado, mala de viagem, ananás, boneco de neve, miúda anafada, lebre, abóbora Halloween, urso, palhaço, carro, jô soares(?), pomba, baú, e mais outras tantas de formas estranhas.

Uma pessoa quer ter sorte, pimba, compra o trevo. Teve um filho, pimba, carrinho de bebé. E muitas, mas mesmo muitas justificações para adquirir um qualquer berloque.

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Existem casos de sucesso e completos desastres. Um amigo meu, a propósito da comemoração dos 10 anos de casado, decidiu oferecer à sua esposa, 10 berloques e uma pulseira da marca do Demo. A dita e os cujos, não foram bem aceites, com a justificação que a dita ficava larga, ou que não gostava muito dos cujos, já nem sei. Sei que o incauto – perdão, homem que tem a iniciativa de pegar o vício Pandora, nunca será um incauto, quanto muito, totó – terá ficado a pensar na asneira que fez, e a dita e os cujos, deverão estar perdidos numa qualquer gaveta. Já lhe disse, põe um anúncio: Vende-se. Várias cenas Pandora, tipo JIS.

Há dias, num evento social, estive a falar com uma Pandórica, que dizia orgulhosa, ter começado a segunda pulseira. Que antes não tinha descanso enquanto não conseguisse completar a pulseira. Os olhos brilhavam. Não entrei em pormenores, mas por portas e travessas, acabei por saber que a dita e os cujos que constituem a primeira conquista, deverão perfazer uns 3000€. Estive a falar com uma grande Pandória e nem me apercebi.

Há quem diga, e com razão: Não deverá faltar muito para haver notícias de PandoraJacking.

E eu acrescento: Desaparece o ‘Gang do Multibanco’, para surgir o ‘Gang de Pandora’.

Quanto faltará para surgirem os primeiros PA (Pandora Anónimos)?

– Olá, eu sou a X e faz um mês que não compro, ou peço para me comprarem, um berloque da Pandora!

– OLÁ X!

12 comentários leave one →
  1. Dezembro 17, 2008 4:38 pm

    E eu a pensar que ias falar da minha heroína, uma tal de Pandora! A malta intelectual sempre tem vantagens: não ter de se expor à inclemência das contas de Murano é uma delas. :) beijinho

  2. Dezembro 18, 2008 9:09 am

    :) Pensavas que eu ia dizer que a Pandora snifava umas linhas de coca?
    Olha que esta Pandora ataca tudo e todos. É uma praga.

  3. Dezembro 19, 2008 7:37 pm

    Eu conheço esta Pandora …

    Mas facilita as ofertas ou seja não vais problemas em escolher o proximo presente até preencheres a dita cuja …

    Um abraço da M&M & Cª!

  4. Dezembro 20, 2008 2:04 pm

    Miguel,
    isto é escrito por alguém que aparenta odiar a Pandora :) mas é exactamente isso que dizes, na dúvida sobre o presente, vai um berloque da Pandora. E muito recentemente, já testei isso na prática

  5. Dezembro 22, 2008 4:08 pm

    Miguel,

    se leres este comentário, queria alertar para o facto de não conseguir ter acesso ao teu blogue. Dá erro e fecha-me o Internet Explorer :(
    Assim, se leres isto, para ti e para os teus, desejo-vos um Feliz Natal e um fantástico 2009

  6. Janeiro 5, 2009 5:57 pm

    O que eu já me ri com este post! Só por isso um muito obrigada.
    Tem piada, que esta é uma das coisas que peço a toda a gente que não me ofereça. Eu até sou berloqueira, mas acho um desperdício de €€€ estas “fantasias”…
    Um óptimo 2009!

  7. Janeiro 6, 2009 10:18 am

    Cerejinha,
    isto está a tomar proporções assutadoras. Este Natal, cheguei mesmo a ver um anúncio na TV da Pandora. E também já sei que o catálogo aumentou, por isso, mais berloques para muitos comprarem.
    Como isto anda, já é perigoso sair à rua com quem use uma Pandora toda preenchida. É que pode não parecer, mas está ali muito dinheiro.

  8. Hueysla permalink
    Fevereiro 27, 2011 11:05 am

    Essa sua redação foi motivo de muitas gargalhadas aqui em casa….ta o máximo….hahhaaa…e todas temos a mardita….kkkkkkkkkkkk….até a minha filha de 8 anos ja tem uma quase cheia….realmente….tudo gente louca!!!!!!bjinhosss

    • Março 11, 2011 2:28 pm

      :)) Hueysla, o ‘truque’ daquilo é mesmo o conceito de colecção que está associado. Hoje compra-se uma, amanhã outra, e ao fim de algum tempo já se torna difícil resistir a aumentar a colecção

  9. Anonimo permalink
    Junho 17, 2011 11:10 am

    A Pandora é um sucesso internacional!!!
    Por que não facilitar-nos a vida a nós homens na altura de comprar um presente?
    É assim tão mau o conceito de colecionismo?
    Este post parece-me mais de uma pessoa frustrada que não dá valor ás mulheres e lhe chama por linhas travessas, burras. Mas isso elas não são, têm sentimentos e gostam de Joias e não de “berloques” ( santa ignorância)…,

  10. Daniele permalink
    Outubro 21, 2011 7:05 pm

    Aqui no Brasil esta “mardita” também chegou e eu, como não poderia ser diferente, estou louca para comprar a pulseira e começar a coleção.
    Me diverti muito com o seu post.

Trackbacks

  1. Estou no WORDPRESS, mas isso não impede que... : O vício de Pandora

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