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Olá princesa, sou o papá…

Fevereiro 4, 2007
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Seal e Heidi KlumEm tempos já tinha pensado em falar da minha experiência pessoal quando visitei uma sala de partos. Foi pois com bastante interesse, que li o óptimo artigo, “Partos difíceis, para os pais”, publicado esta semana na revista ‘Tabu’, do jornal SOL. Desse artigo da jornalista Marta Curto, saliento as seguintes afirmações de Maria de Jesus Correia, psicóloga da Maternidade Alfredo da Costa:

«O problema é que neste momento já não é uma opção que os homens têm, mas uma obrigação social»

«os futuros pais temem a ‘chantagem’ emocional das mulheres, que lhes dizem que serão maus pais e que não gostam delas se não as acompanharem, ou até a troça dos amigos que assistiram a tudo estoicamente»

«o erro não está em permitir o pai na sala de parto, mas sim em assumir-se que ele irá lá estar. Há pais que não estão preparados e não é uma questão de virem a ser melhores ou piores pais. As pessoas são diferentes»

No artigo, é referido que na Maternidade Alfredo da Costa, serão mais de 80% as mães que são acompanhadas pelos maridos. Num estudo realizado em finais de 2005, o pai do bebé foi considerado «a figura de suporte mais significativa no momento do parto»

A minha experiência pessoal.

Durante o tempo de gravidez, acompanhei a Princesa Mor nas aulas de um curso de preparação para o parto. Se há quinze anos atrás – tal como é mencionado no artigo – não era comum ouvir-se dizer que o pai tinha acompanhado a parturiente na altura do parto, também estes cursos de preparação são algo moderno. Posso dizer que dei por bem empregue o tempo que lá passei. Prestei pouca atenção à parte da respiração, mas estive bastante atento na parte que falava na forma de dar banho ao recém-nascido.

Como devem calcular, eu a Princesa Mor andávamos ansiosos pela chegada do dia em que a Princesa Jr iria decidir que o bem-bom teria de acabar e que seria interessante ir ver in loco de onde provinham todos os sons que ela ouvia antes dentro de um casulo com líquido amniótico.

No dia Mundial da Criança, perante uns sinais evidentes – para nós – de trabalho de parto, lá fomos nós às 09:00 para o Hospital. Às 09:30 estávamos de volta a casa pois tinha sido falso alarme. Era evidente que a pequenina não queria enfrentar os trinta e muitos graus que se faziam sentir no dia um de Junho, Quinta-feira. Passaram mais uns dias e nós sempre a fazer grandes caminhadas, pois disseram que ajudava.

Na madrugada da Segunda-Feira seguinte, pelas 03:30, fui acordado com um: ‘Ai! que estou cheia de dores’. Perante esses sintomas, a ingenuidade fez-nos pensar que poderia ser algum problema e não o tal momento muito aguardado. Chegados ao Hospital, a Princesa Mor entrou de imediato. Passados uns minutos, chamaram-me e disseram: É favor subir!.

Chegado ao bloco de partos, perguntaram-me se eu iria assistir. Eu disse de imediato que sim pois essa decisão já havia sido tomada com antecedência. Deram-me uma bata descartável de cor verde – não tive direito a máscara ou protecção dos sapatos – e encaminharam-me para a sala onde a Princesa Mor já se encontrava preparada para o trabalho de parto. Com sete dedos de dilatação, a epidural já não era uma hipótese viável. Além disso, no Hospital de Faro, a epidural só é dada das 09:00 às 20:00 pelo facto de só haver um anestesista. Durante a noite, o anestesista está dedicado ao serviço de urgência.

Colocaram-me ao lado da Princesa Mor e eu lá fui assistindo aos preparativos para o parto. Nesse aspecto, cito novamente a psicóloga Maria Correia no texto do SOL, «…E, em caso nenhum, deverá estar a assistir à cena de frente. A posição do pai é ao lado da mãe, dando-lhe a mão…». Aqui, penso que todos devem estar de acordo. O pai não vai ajudar o médico a puxar o bebé e por isso, tirando algum fetiche, nada justifica que o pai possa querer estar na primeira fila, além de que nessa perspectiva o trauma poderá ser garantido.

Não é a Princesa JrA médica que assistia ao parto lá ia dando umas indicações, sobretudo à custa de ‘faça força’. A forma peculiar de respirar, que havia sido aprendida no curso, estava agora esquecida num recanto obscuro do cérebro da Pricesa Mor. Mas a operação estava a correr de forma tão célere que estes aspectos eram insignificantes.

Até aqui, permanecendo ao lado da parturiente, não existe nada que possa impressionar o pai que acompanha este momento único. A menos que o dito ponha a imaginação a funcionar e pelos sons, perceba que a médica acabou de fazer uma incisão no períneo. Mas como não está a ajudar a segurar a tesoura, nem é ele que está a fazer o corte, não tem motivos para se impressionar.

Por fim, às 05:15, a Princesa Jr tomou conhecimento directo com o nosso planeta ainda azul.

Aqui, saliento os seguintes aspectos. Eu já tinha visto na TV várias imagens de partos, por isso, sabia que os bebés nascem ensanguentados e que o cordão umbilical tem uma cor acinzentada. Nesta fase, caso o pai não possa ver sangue ou seja facilmente impressionável, vão haver graves problemas, pois é uma imagem que pode ser efectivamente traumatizante.

A Princesa Jr foi colocada sobre a barriga da mãe e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, foi cortada a ligação directa entre mãe e filha. Ainda pensei que me perguntassem se queria cortar o cordão, mas tal não aconteceu, para minha desilusão. Nisto, perdi o contacto visual com a Princesa Jr, pois tinha sido levada para ser limpa e pesada. Só passados uns minutos é que me colocaram nos braços o ser mais bonito que eu já tinha alguma vez visto, com 3.700Kg e 50cm. Foi nesse momento que eu olhei para ela e com a voz totalmente embargada disse: ‘Olá Princesa, sou o papá…’

Os restantes procedimentos decorreram de forma normal e eu e a Princesa Mor lá nos despedimos da pequenina que teve novamente de sair da sala.

Clamp do cordão umbilical 

Estava eu em amena cavaqueira com a Princesa Mor, quando a médica diz que a Placenta ia sair. Neste aspecto, confesso que não sabia o que iria ver, pois as reportagens na televisão só mostram até ao momento em que o bebé nasce.

Bom, quando sai a placenta e a médica a coloca sobre a mesa de apoio, para onde eu tinha visão directa, não pude evitar soltar um ‘UAU’, assim tipo ‘UAU’, em consequência do facto de estar a olhar para algo semelhante a uma alforreca cinzenta e ensanguentada. Perante a minha expressão, a médica questionou-me: ‘Está a sentir-se mal?’. Eu disse que não e que apenas estava espantado com o aspecto da placenta por nunca ter visto uma imagem de exemplo. Dito isso, a médica achou que deveria dar uma aula de anatomia. Agarrou a placenta por baixo e elevou-a no ar, para que a Princesa Mor também pudesse acompanhar a explicação. ‘Pois, está a ver, aqui estava agarrada às paredes do útero….aqui estava a bebé….’, etc. Foi um momento onde eu achei que tinha perdido o apetite. Porém, ainda era cedo para comer fosse o que fosse. Mandaram-me para casa, pois a Princesa Mor tinha que ir para o recobro e disseram-me para voltar às 14:00, hora das visitas.

E foi assim.

Costumo dizer que não gosto de ‘fazer o circo’ com imagens. Para explicar algo ou fazer um texto, não é necessário exibir imagens chocantes ou ofensivas. Para isso já basta alguma da imprensa sensacionalista da nossa praça. Assim, quem estiver interessado, poderá ver aqui e aqui, o que serviu para uma aula de anatomia em directo.

A Alta Autoridade do ‘Ma Ke Jeto, Mosso’ avisa que os links podem conter imagens eventualmente chocantes, que podem ferir as susceptibilidades. Depois deste aviso, solicita-se que leia primeiro o resto do texto. Obrigado.

 

A minha opinião.

Assistir ao parto é um momento único e recomendo essa opção a todos os pais. Porém, que não hajam dúvidas que é um momento que pode impressionar ou mesmo traumatizar um qualquer pai mais sensível ou que efectivamente não suporte assistir a um parto. Aliás, o artigo não refere esse aspecto, mas uma sala de partos é um local bastante aquecido. Numa situação de calor intenso e perante os nervos normais de uma situação de emoção, pode acontecer que um qualquer pai possa desmaiar, mesmo que não seja impressionável com sangue.

No artigo, a psicóloga afirma que «A percepção das dores de parto é, muitas vezes, a pior provação para o homem. Ver a mulher com dores e nada poder fazer, é uma violência. Ainda por cima porque é o próprio filho que a agride». É um aspecto interessante e sobre o qual nunca tinha pensado. Talvez seja esse um aspecto que impeça alguns pais de assistir ao parto, o facto de não de não conseguirem ver a sua mulher a sofrer.

Se eu tivesse dentro de mim um bebé prestes a nascer, se estivesse com dores horríveis e se fosse encaminhado para uma denominada sala de partos, iria gostar de ter perto de mim a minha Princesa Mor. Já gosto quando estou doente, o que seria então numa situação dessas. Porém, também não gostaria que ela me pudesse ver em sofrimento e por esse motivo, talvez a tentasse impedir de estar comigo nesse momento. Mas, se ela me dissesse que esta situação a iria impressionar, eu iria compreender e aceitar a sua posição. Antes isso do que eu ainda ter que estar a preocupar-me com as dores de parto e com o facto dela poder estar a sentir-se mal e prestes a desmaiar.

Um aspecto. Quando eu assistia ao curso de preparação para o parto, eram vários os pais presentes. Apesar da formadora salientar por várias vezes o papel do pai no parto e salvaguardar o aspecto de nem todos serem iguais e por isso haver sempre que não consiga assistir a um parto, fiquei sempre com a sensação que nenhum dos presentes seria capaz de publicamente afirmar que não iria estar presente no momento do parto.

Como nesta comunidade existem muitas opiniões diferentes, aproveito para colocar três questões cujas respostas vão também permitir aferir sobre algumas afirmações do artigo da revista.

Para elas: aceitaria sem qualquer reserva ou ressentimento que o seu marido ou companheiro não assistisse ao parto, por este reconhecer que não seria capaz de aguentar esse momento? Tal como diz a psicóloga, será que os homens temem a ‘chantagem’ emocional das mulheres, «que lhes dizem que serão maus pais e que não gostam delas se não as acompanharem»?

Para eles: acha que actualmente o acto do pai assistir ao parto já não é uma opção, mas sim uma obrigação moral? Iria admitir que não foi capaz de assistir ao parto, perante os seus amigos ‘heróis’ que estiveram presentes nesse momento?

Existe por aqui algum futuro papá que ainda não sabe se irá assistir ao parto?

8 comentários leave one →
  1. Outubro 21, 2009 2:36 pm

    Não sei se o blogger te avisa, aviso-te eu: foste linkado ! rs
    http://poderosas-sa.blogspot.com/

    beijo, Mosso sensível…. rs

  2. m_a permalink
    Abril 7, 2010 11:16 pm

    não foi aqui tida em conta uma outra opção:
    com direito a uma (fantástica) epidural, estivemos uns bons minutos a decidir se assistia ou não. eu estava pouco inclinada, mas quando ouvi que para nos ver só depois de ser suturada (e quando vagamente vislumbrei o cenário de guerra que ia aparecer… e apareceu!) pedi para sair. creio ter sido o melhor que fiz e não tenho um homem ressentido. acho que ficou um bocado desiludido na altura, sobretudo por essa pressão social que existe (curso incluído), mas não quis que gravasse na memória uma imagem de mim no meu pior, os grunhidos, a força, o esforço, o sangue, o corte e, pelos vistos, a placenta. tenho para mim que isso é coisa de mulheres.
    nessa manhã não fui a única a enxotar o marido e um médico obstetra esticou o polegar num fixe assim é que é, fizeste bem rapariga!
    um parto é violento e muito forte, cabe a cada um pensar e decidir o que quer e encontrar um equilíbrio nas susceptibilidades de cada um.

    • Abril 8, 2010 10:17 am

      m_a, eu diria que cada caso é um caso, que não existem receitas ou que as coisas sucedem sempre de forma perfeita. Na primeira semana de Julho, eu quero repetir este processo. E até já disse à médica que, caso seja ela a fazer o parto, que me deixe cortar o cordão. Espero acompanhar o parto e espero poder receber nos braços a nova Princesa Jr. Isto é o plano. Se ele vai concretizer-se ou não, já é outra história. Isto é, o parto pode ser difícil, pode haver cesariana, ou eu posso sentir-me mal nesse momento. Não por eu ter assistido a um que não possa sentir-me mal noutro. Daí eu dizer que não há receitas ou regras. É uma questão de se ponderar no momento aquilo que fazer mais sentido fazer. E nesse caso, se a opção foi de esperar lá fora, ela será uma opção tão válida como a de ter ficado. Sem dúvida que «cabe a cada um pensar e decidir o que quer e encontrar um equilíbrio nas susceptibilidades de cada um». E é verdade que a tal pressão social existe. Muito mais nessas aulas de preparação do parto. Mas desde que nós achemos que agimos correctamente, que lixem as opiniões dos outros :) Já agora, por causa desse curso, eu acho que ele foi bom para criar amizades. Muitas duram até hoje, com participação nos diversos aniversários dos miúdos. E também ensinou como se dava banho ao bebé. De resto, respiração e outros coisas, foi tudo para esquecer.

  3. m_a permalink
    Abril 8, 2010 10:54 pm

    ena! PARABÉNS!!! outra princesa a caminho é alegria a dobrar :) que bom, adoro estas novidades!!! daqui a um ano pensarei também em trazer outro passarinho aqui para o ninho, ainda estou a curtir o regresso ao trabalho.
    aconselho vivamente a epidural a maior amiga das mulheres quando bem dada, uff, eu que o diga…
    em relação ao curso é verdade que encontrar casais que nos acompanham ao mesmo tempo criam laços. eu fiquei amiga de um casal que tem uma menina, uma candidata ao meu rei.
    felicidades e que corra tudo pelo melhor, como vocês querem! um abraço

  4. cristina dinis roldao permalink
    Junho 5, 2011 8:31 pm

    Parabéns aos participantes no nascimento: a mãe, o pai e a bebé :)
    Gostei muito deste olhar masculino sobre um momento que é essencialmente feminino (acho eu).

    Tive os meus bebés há 22 e 18 anos, na altura, a questão dos pais assistirem ou não ao parto ainda se punha vagamente e só era possível nalguns hospitais. Talvez por isso essa possibilidade foi muito superficialmente abordada cá em casa. Há 22 anos atrás os cursos de preparação para o parto (que eu pretendia frequentar) eram escassos e distantes de casa, desisti da intenção. Dado que a questão da presença do pai na sala de partos se reveste hoje de um condicionalismos social de certa forma já forte, se eu hoje tivesse outro bebé não faria, de todo, questão na presença do progenitor ao meu lado naquele momento, não estou preocupada com a sua sensibilidade, a verdade é que se trata de um momento tão MEU, tão meu e do bebé, estou tão atenta ao desenrolar de um trabalho transformativo tão mágico que mais nada me importa naquele momento, nem sequer os bitaites e por vezes alguma má formação/educação de alguns elementos da equipa de serviço me tocam. O papá, refeito das comemorações – ponto de honra – pelo nascimento do rebento, terá oportunidade, no recato do lar de tomar contacto com o seu descendente devidamente limpo, vestido, alimentado e de preferência a dormir :)

    • Junho 6, 2011 11:29 am

      :) Cristina, o pai é naquele momento, um personagem completamente secundário, do qual se espera que cumpra o seu simples papel sem problemas, isto é, sem se sentir mal ou poder tornar-se em mais um motivo de preocupação. Os tempos serão hoje muito diferentes do que era há 20 anos atrás, ou muito mais do que eram há 40 e picos anos atrás, quando eu nasci, onde a minha mãe, sozinha na sala de partos, teve de exigir uma cesariana às enfermeiras com forte componente religiosa, por ver que aquilo não estaria a correr bem. E esses cursos de preparação já são hoje em dia muito comuns e existem em quase todos os centros de saúde. Eu assisti aos dois partos das minhas filhas e foi fantástico poder estar ali naquele momento em que põem um pequeno bebé em cima da barriga da mãe. Ou quando dizem ao pai: “Pai, agora vá ali vestir o bebé”, e o pai fica a olhar para a roupa, para o ser pequenino com ar muito frágil, e começa a fazer figas para que consiga executar tudo bem, tendo em conta os olhares que sente nas suas costas do sexo feminino :)

Trackbacks

  1. Estou no WORDPRESS, mas isso não impede que... : Olá princesa, sou o papá…

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