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Eu brincava assim…

Janeiro 17, 2007

A minha infância e adolescência foram passadas em Lisboa, na Parada do Alto S. João. Pode parecer um lugar igual a muitos outros, porém, quando visto de cima, constata-se que possui qualidades invulgares para por em prática inúmeras brincadeiras. Os prédios estão dispostos em volta de um meio círculo, formando uma espécie de anfiteatro. Ao meio, existe um enorme jardim, com duas áreas distintas, a nascente e a poente, sendo separadas por uma área destinada ao estacionamento para o cemitério.

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Parada do Alto S. João 

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Nesta imagem tirada do GoogleEarth, apontei as três zonas principais. Assim, da esquerda para a direita e de cima para baixo temos, o sítio das escondidas e de ponto de encontro, o ‘campo’ pequeno e o ‘campo’ grande. Importa ainda referir que todo o passeio circundante ao jardim era um local excelente para andar de bicicleta.

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Nesta Parada, viviam muitas crianças, com a particularidade de serem quase todas do sexo masculino. Eram várias as famílias que tinham trios de meninos. A inexistência de meninas protegeu-os de picardias de adolescentes relacionadas com disputas territoriais, mas não os livrou de serem uns ‘totós’ quando avistavam alguém de saias. A sua sensibilidade para lidar com assuntos femininos era equivalente a um paquiderme a mover-se dentro de uma loja de loiças.

Como meninos comuns que eram, também eram vários os que tinham direito a uma alcunha dignificante. Assim, havia o “Cabeçudo”, o “Bacalhau”, o “Gazela”, o “Moleza”, o “Punkzinho”, o “Fanã”, o “Tretas”, o “Mangas”, o “Passadeiras” e muitos outros. Importa referir que em algumas noites de verão, chegavam a ser trinta rapazes a falar de tudo e mais algumas coisa, todos repartidos pelos grupos normais de discussão, o grupo dos mais velhos, o grupo dos mais novos, o grupo da música e o grupo do futebol.

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O desporto Rei

Começo por falar da brincadeira universal, o futebol. No jardim, existiam dois ‘campos’ de futebol, o grande, com piso em calçada portuguesa e o pequeno, com piso em alcatrão. No ‘campo’ grande, conseguia-se jogar com equipas de cinco jogadores, mais dois em relação aos que cabiam no ‘campo’ pequeno. No ‘campo’ pequeno, as balizas eram os bancos de madeira que lá existiam. Claro está que quando aí decorria um jogo, a área ficava interdita pelos desportistas que impediam mais alguém de lá se sentar, sob pena de levar com uma bolada. O ‘campo’ grande era delimitado de um dos lados por uma estrada, onde passavam eléctricos com frequência. Por vezes, na euforia do jogo, ninguém se lembrava de fazer uma pausa, indo a bola parar debaixo do eléctrico. Infelizmente, bolas de qualidade não eram um artigo que existisse em grande quantidade. Nesse aspecto, quem tinha uma bola de qualidade estava safo pois era sempre chamado para jogar.

Eu não era um ‘craque’ do desporto rei. A escolha das equipas era feita por dois membros. Afastavam-se e depois dirigiam-se um contra o outro, com um pé a seguir ao outro. Quem pisasse primeiro o pé do adversário tinha o direito de escolha. Eu, de forma injusta, ficava sempre para o fim das escolhas. O melhor era ser o dono de uma bola de qualidade. Como não haviam foras de jogo, por vezes jogava ‘à mama’, ou seja, nunca ajudava na defesa e esperava sempre que me fizessem um passe, para que eu, num simples remate tentasse marcar um golo. Quando não jogava ‘à mama’, era incluído na defesa, adoptando uma postura de ‘pantufeiro’ ou ‘sarrafeiro’.

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Importa mencionar um aspecto importante que dava cabo da boa performance de qualquer ‘estrela de futebol’. As 17:00 eram a hora sagrada para todos irem lanchar e ai de que se atrasava. As mães assomavam-se à janela e gritavam de forma decidida, como tão bem sabem fazer, “Oh fiiiiilho, anda já para casa lanchar!”. Qualquer bom momento de jogo que estivesse a decorrer, ficava adiado para as 17:30.

O desporto rei também era praticado dentro de casa. Alguns de nós organizávamos campeonatos de subbuteo. Uma vez, o “Tretas” perdeu em minha casa num jogo decisivo. Com os nervos, esmagou a equipa toda com um punho. Deve ter achado que os jogadores ‘não se esforçaram’.

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Os clássicos

As escondidas, os berlindes e o disco.

BerlindesEm todos os locais costuma haver um grupo de rufias, malta do piorio de quem todos fogem. A Parada do Alto S. João não era excepção à regra e também tinha o seu grupo de rufias. Dois membros desse grupo pertenciam a um trio de irmãos, que ficaram órfãos no momento em que os pais morreram na Madeira, por serem ocupantes do avião da TAP que caiu nessa ilha. Esse trágico acontecimento libertou todo o bom feitio com que tinham nascido mas que ainda não se havia manifestado. Sinceramente, ninguém esperava que algum dos membros do grupo dos rufias conseguisse chegar aos dezoito anos. Assim, um dia bom era um dia em que os rufias ficavam em casa. Quando vinham para a rua, convinha estar na companhia que alguém que fosse capaz de lhes fazer frente, sob pena de levar-mos alguma traulitada.

Isto para chegar aos berlindes. Por vezes, estávamos entretidos a tentar ir à Piras ou à Meia, quando apareciam os rufias munidos de abafadores. A limpeza era geral e lá tínhamos que ir pedir dinheiro para comprar mais berlindes.

O disco era praticado num sistema de baliza a baliza, numa área específica do Jardim. Havia um conjunto de árvores que davam umas balizas perfeitas. A ideia era atirar o disco com toda a força de forma a tentar assustar o adversário e conseguir marcar golo na baliza contrária. As lesões eram grandes nódoas-negras.

As escondidas eram jogadas preferencialmente à noite (sim, não havia qualquer problema no facto do miúdos andarem à noite na rua) e junto a uma zona que era ocupada por um supermercado. Tal como em muitos jogos, havia um interesse pelo jogo que se assemelhava a uma curva de distribuição normal. Primeiro, o jogo começa com poucos elementos. Eram aqueles que conseguiam jantar mais cedo. Depois, os jogos iam tendo cada vez mais participantes, havendo um jogo que era sem dúvida o mais giro de todos. Porém, com as primeiras desistências, pois havia que tivesse que estar em casa às 22:00, começava a haver um declínio evidente. O pior era quando alguém se lembrava de ‘esconder-se’ em casa sem avisar os outros.

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A capacidade de improviso

Naquela Parada imperava uma imaginação muito fértil e uma capacidade de improviso inesgotável. Qualquer acontecimento desportivo que passasse na televisão, tinha sempre grande potencial para ser replicado por aqueles miúdos da Parada.

Mal começou um campeonato do mundo de Hóquei em Patins, já nós estávamos a organizar um campeonato em paralelo. Não haviam patins, por isso era Hóquei em Campo. Alguns tinham sticks a sério, sendo invejados por todos os outros. Quem não tinha stick, agarrava num pau comprido onde pregava na ponta uma madeira e já estava, um stick de alta competição. Mal o campeonato do mundo acabava, já ninguém queria jogar a esse Hóquei em Campo.

Carro da MatchboxComeçavam os Jogos sem Fronteiras e lá íamos nós para a rua inventar provas para serem superadas por equipas. O “Mangas” tratava de toda a parte logística. As medalhas eram caricas colocadas na linha do eléctrico. Depois de serem espalmadas, fazia-se um furo com um prego, passava-se uma guita e já estava.

Os lancis do jardim eram aproveitados para fazer corridas de carros da Matchbox ou de caricas, simulando uma autêntica corrida de F1 ou de Nascar.

Vimos na televisão um programa sobre tropas especiais e imediatamente formámos um grupo de acção rápida (só se fosse para fugir depressa para casa). Num dos exigentes treinos, ao saltar uma barreira, tropecei e fui bater com a cara no chão. Perdi metade dum dente da frente e tive que engolir todo o orgulho quando cheguei a casa e a minha mãe decidiu mostrar de forma enérgica que estava satisfeita pelo facto de eu apenas ter perdido parte de um dente.

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As guerras

A principal era a guerra de canudos. Consistia em usar tubos de PVC, daqueles da construção civil para passar cabos eléctricos, onde se enfiavam uns dardos ou ‘setas’ feitas com papel de listas telefónicas ou revistas. Por fim, soprava-se a ‘seta’ pelo tubo e tentava-se acertar no inimigo. Por outras palavras, aquilo era uma Zarabatana.

As ‘setas’ feitas com papel de revista eram mais resistentes em relação às outras e não deixavam tanto sabor na boca – pois, as ‘setas’ eram construídas à custa de uma potente cola chamada cuspo. Em bairros adjacentes à Parada, haviam uns prédios fantásticos, de três andares, com janelas na escada. Assim, uma equipa tomava de assalto o prédio e tentava defender-se dos ataques da equipa que ficava no exterior. O jogo terminava quando já não houvesse adversários ‘vivos’ ou quando um dos inquilinos do prédio abria a porta e escorraçava todos à vassourada. Não sei porque se chateavam. Afinal, nós não íamos varrer todos os dardos que tinham sido lançados. Um pormenor, os rufias construíam dardos com um alfinete na ponta.

Depois, havia a guerra de torrões. Em algumas zonas do jardim, haviam uns lotes que eram revolvidos com uma enxada, criando uns belos torrões de terra para arremesso. Mais uma vez, eram criadas duas equipas que atiravam torrões entre si, tentando causar ‘baixas’ no inimigo. Uma vez, alguém usou um torrão que não estava homologado pelas regras internacionais das brincadeiras infantis. Quando esse torrão foi arremessado e caiu direitinho na tola do João Maria, ouviu-se algo semelhante a partir-se um ovo. O dito torrão tinha um vulgar calhau no seu interior e obrigou o João Maria a levar vários pontos na cabeça. A mãe da vítima mostrou de forma enérgica que estava satisfeita por apenas ter sido uma cabeça partida e decidiu premiar o filho com uma clausura de quinze dias.

Ainda havia uma guerra que era a das flores e que se realizava apenas uma vez por ano. As flores eram as que ficavam no chão quando terminava o Dia de Finados.

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Jogos para casa

Brincar dentro de casa era sempre uma alternativa viável a ir brincar para a rua. Aí, sabíamos que não iriam haver rufias.

As primeiras brincadeiras foram feitas na casa de um vizinho do prédio do lado. Ele tinha sempre grandes novidades em brinquedos e por isso, era bastante apreciado. Tinha montes de Legos que davam para construir tudo e mais alguma coisa, tinha ActionMen, tinha pistas da Matchbox, tinha pistas de corridas de automóveis e até foi o primeiro a ter um Spectrum, resumindo, era bastante apreciado.

Personagens do Espaço 1999O Espaço 1999 era o mote para a maioria das brincadeiras. Eu, o vizinho e o “Cabeçudo” éramos os actores principais. Com base em alguns episódios, fazíamos histórias nossas adaptadas aos cenários disponíveis. Os Legos serviam em primeiro lugar para construir todas as armas do tipo Laser mortífero. Depois, eram usados para construir os Eagle e outros edifícios que estariam sujeitos à agressividade do espaço. Uma curiosidade, a mim calhava-me quase sempre o papel do Alan Carter – o que pilotava os Eagle. Nunca conseguia ser o comandante John Koening.

As crianças têm sempre uma tendência para fazer asneiras. É normal. O problema é que as punições eram sempre exageradas. Uma vez, em casa desse vizinho e numa encenação do Rei Artur, eu fiz um gesto de defesa com um stick de hóquei (ele tinha um a sério). Esse gesto decapitou um cavalo de porcelana que estava nas proximidades. Quinze dias sem poder ir à casa do vizinho.

Noutra situação, o “Cabeçudo” olhou para dois barris que estavam na sala. O primeiro barril era um rádio e o segundo, continha uma aguardente fortíssima. Sem maldade, o “Cabeçudo” rodou o pipo do primeiro barril e não aconteceu nada porque não tinha pilhas. Fez o mesmo no segundo barril e não ligou mais para o caso. O dono da casa, ao olhar para o móvel onde estavam os barris, não apreciou muito o novo género de madeira, tipo ‘Madeirus Albinus’. Um mês sem podermos lá entrar.

Outro jogo que tinha muito sucesso era a F1. Em cartolina, fazíamos todos os circuitos mundiais. Depois, cortávamos os carros da grelha de partida que era publicada no AutoSport e colávamos os papéis a pedaços cartão. Com arte, engenho e uns dados, fazíamos campeonatos bastante emotivos.

Haviam os clássicos, ‘Monopólio’, ‘Petróleo’, ‘Cluedo’, ‘Master Mind’, ‘Xadrez’, etc. Mas aquele que nos empolgava mais era sem dúvida o ‘Risco’.

Estes jogos de tabuleiro não podiam ser muito longos. Entre as 17:00 e as 17:30 havia a interrupção obrigatória para o lanche. Depois, não podiam passar das 19:00. A mesa usada para jogar era a da cozinha e não podíamos ficar a ocupar esse espaço. E ninguém confia em ninguém, por isso, estava fora de questão poder-se deixar as peças em cima do tabuleiro para o dia seguinte.

Um aspecto interessante. Naquela Parada, a maioria dos apartamentos eram muito pequenos. A minha casa era um T1 para três pessoas. Porém, por sermos também pequenos, aqueles espaços pareciam enormes. Menciono que na minha casa jogámos ao quarto escuro com cinco elementos. Na marquise, chegámos a fazer guerras de canudos. Quando larguei essa casa, ao olhar para os espaços vazios lembrei-me dos jogos que lá fazia. Só me ocorreu um “como era possível?”.

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As brincadeiras efémeras

IoiôsEram aquelas relacionadas com os jogos da moda. Num dia, alguém aparecia com um Ioiô. Passados poucos dias já todos tinham um Ioiô e já haviam craques que faziam várias habilidades. Ao fim de pouco tempo já ninguém podia ouvir falar em Ioiôs e partíamos para outro jogo. Houve também o Cubo de Rubik e o Skate. Mas estes jogos acabavam por vingar sempre com um periodicidade anual.

Eu devo ter contribuído para um dos jogos mais efémeros. Tinha em casa um boomerang em madeira que o meu Padrinho tinha trazido numa viagem que fez à Austrália. Era mesmo bonito. Num dia de vento, talvez para ganhar lugar num grupo dos mais velhos, decidi ir buscar o dito brinquedo. Quando mostrei o objecto ouviu-se um “Ahhh” geral. Um dos membros mais respeitados, agarrou no boomerang e deu ares de pertencer a uma qualquer tribo aborígene, sem dúvida, um expert na matéria. Arremessou o boomerang, este apanhou vento e subiu nos céus, qual ave de rapina. O grupo estava em êxtase. Passada a fase ascensional, o boomerange entrou em parafuso e caiu desamparado. Ao bater no alcatrão ouviu-se “crash”, partiu-se em três bocados e o grupo fez “Ohhh”. Agradeceram-me pelo momento emotivo e continuaram a conversar ignorando a minha presença.

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E hoje?

Eram tantas as brincadeiras que acredito ter-me esquecido de mencionar algumas.

Hoje, não se vêm crianças a brincar na Parada do Alto S. João. Todos do meu grupo vieram-se embora e a população ficou envelhecida. Os novos casais que lá vão fazendo vida ainda não tiveram filhos. Quando houver crianças nessa Parada, duvido que os pais tenham confiança em deixar os filhos andar a brincar na rua de dia. À noite é mesmo para esquecer. Bom, a realidade no meu tempo também era outra. A maioria das mães ficava em casa a cuidar dos filhos. Também eram muitas as famílias que tinham avós que podiam tomar conta da pequenada durante o dia. Assim, nós conseguíamos vir todos para a rua brincar.

Mesmo que os miúdos viessem brincar para a rua, o espaço disponível já foi todo roubado. Na imagem do GoogleEarth, a zona que eu indiquei como ‘campo’ grande, está agora totalmente ocupada com carros. Os bancos do ‘campo’ pequeno foram ocupados por um grupo de homens que passa a vida a beber vinho e a jogar às cartas, afastando quem ali queira estar à sombra das árvores.

Aqui, não é uma questão de dizer que as brincadeiras do meu tempo eram melhores que as brincadeiras actuais. As brincadeiras acompanham a evolução dos tempos e eu não faço a mínima ideia que tipo de brinquedos haverá no tempo dos meus netos.

O que importa é salientar os chamados jogos tradicionais e sempre que possível, tentar que os miúdos explorem a sua imaginação ao máximo. Para isso, não podem ficar agarrados horas a fio a consolas de jogos. Não é preciso que os miúdos tentem construir sozinhos uma consola de jogos, para que o jogo seja mais credível, porém, será que hoje se conseguem entreter apenas com uma carica?

Cada vez que vou à Parada do Alto S. João, para visitar aqueles que estão a ‘descansar em paz’, sinto uma grande tristeza pelo facto de já não ver crianças a brincar naquele jardim. A geração da imaginação não teve seguidores.

Quer contar-me quais eram as suas brincadeiras?

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Aqui no SOL

Divagações pela infância… (MssN)

Os contos ainda são de fadas? (meiadeleite)

11 comentários leave one →
  1. Paulo Santos permalink
    Abril 27, 2009 10:35 am

    Bom dia Sr. Bluewater68,

    Daqui é o seu ex vizinho do seu prédio ( o nº13 do Alto S. João; claro!!), o do 2º Dtº.( O filho da Dª Gita)
    Só agora passado este tempo todo depois de ter relatado a sua infância, é que tive conhecimento deste blog.

    Além de confirmar tudo aquilo que escreveu, um dia com calma acrescento mais umas “aventuras” desses Amigos, umas festas de anos, as primeiras saídas do Alto s. João (ao Musical no Alto do Pina) os ferozes combates do Risco na varanda a ouvir o Som da Frente do António Sérgio, as primeiras experiências com alcool, enfim uma espécie de “conta-me como foi” no Alto S. João.

    Um grande Bem Haja para ti Amigo,

    E aquele abraço!

    P.S. – Diz qualquer coisa sff

  2. Abril 27, 2009 10:52 am

    ÉH Paulo! sejas bem aparecido. E deixa lá isso do senhor :)
    Tudo bem contigo?
    Bem :) houve pormenores que ficaram omissos para que o pessoal não ficasse escandalizado connosco. Mas a verdade é esta, acho que gozámos bem a nossa juventude. Tudo o que fizémos naquele sítio, foi único.
    Triste é voltar lá e ver os passeios do jardim cheios de carros e ninguém a brincar na rua.
    Um grande abraço e vai aparecendo.

  3. betonogueira permalink
    Agosto 19, 2009 12:24 am

    Caríssimo
    Estava a ler o Bitaites e vim parar aqui, e li devagar, como se eu o tivesse escrito. E gostei! É que tudo isso se passou comigo, igualmente na Parada do A.S.João! Talvez uns anitos antes. Curioso não é? Eu morava no 9 da Morais Soares. As bolas eram improvisadas com meias de senhora “de vidro” cheias de papel bem calcado e depois de muitas voltas eram cosidas com mestria. Os “Estádios” eram os mesmos. Jogar à bola na relva dava direito a fugir à polícia. A grande árvore sob a qual os geadas jogam às cartas era o meu trapézio. Hoje quando lá passo não deixo de olhar para ela e ver que o galho atravessado onde eu fazia malabarismos para impressionar as miúdas, já mora muitos metros acima. Eu era um pendura expert nos eléctricos do A.S.João, mas na minha estreia dei a volta à Parada a arrastar os joelhos no alcatrão agarrado ao eléctrico.
    Sabias que, antes dos prédios altos eram terras em ribanceira até à Mouzinho de Albuquerque? Nós desciamos a escorregar em tábuas enceradas com uma travessa para os pés, e tínhamos um ódio de estimação aos putos da Mouzinho com quem mantínhamos púrrias ferozes. Enfim, tanta coisa!!
    Abraço

    • Agosto 19, 2009 2:34 pm

      betonogueira, que bela descrição de mais umas brincadeiras que se faziam naquela Parada.
      Nunca me dei bem a apanhar boleias nos eléctricos. A prova de coragem era saltar em andamento, aí perto do 13 da Parada, quando o eléctrico ganhava mais velocidade.
      «Nós desciamos a escorregar em tábuas enceradas com uma travessa para os pés» :) Esse tipo de provas era feito nas descidas do supermercado, fosse em carrinhos de rolamentos, ou mais tarde, em Skate.
      Nesta matéria, sou muito saudosista, e é sempre com um enorme nó na garganta que eu passo naquela Parada.
      E essa frase diz muito «Enfim, tanta coisa!!», porque a imaginação para inventar brincadeiras tinha asas

      • Outubro 23, 2012 12:06 am

        Tantas recordações bonitas! Gostei muito de ler este texto. Apesar de ser um pouco mais nova, ainda fui da geração de “brincar na rua” e realmente as brincadeiras eram muito mais inventivas e originais. Também brincávamos aos Jogos sem Fronteiras! :) O iô-iô também esteve na moda durante uns tempos. Depois havia as brincadeiras mais de meninas, como o jogo do elástico, e a Bota Botilde (eu tive uma imitação que era um limão), por ex.
        O meu irmão, 9 anos mais novo, tirando os ocasionais jogos de futebol, já não brincou na rua…

        Posto isto: aquela subida é dos infernos mesmo! :)

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