A (In)justiça americana em tempo de guerra
do filme “Battle for Haditha”
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Como se pode desejar a paz se não houver justiça? Esta é a pergunta que o povo iraquiano já terá repetido vezes sem conta. O povo iraquiano, além de sofrer com os atos injustos da al-Qaeda – que espalha o seu terrorismo sem se importar com os inocentes, sejam mulheres ou crianças – ainda tem de lidar com a justiça americana em tempo de guerra, a qual, até hoje, foi incapaz de enviar um dos seus para a prisão por ter praticado assassinato, violência ou humilhação sobre inocentes.
Falei aqui do massacre na Praça Nisoor, no centro de Bagdad, a 16 de Setembro de 2007. Os guardas da Blackwater que dispararam de forma indiscriminada e mataram 17 civis iraquianos, foram posteriormente acusados de homicídio e levados a tribunal. No final do julgamento, foram retiradas todas as acusações. Nesse mesmo post falei do filme Battle for Haditha”, que se baseia em factos verídicos ocorridos em Haditha, no Iraque, a 19 de Novembro de 2005, num incidente classificado de massacre. Nesse dia, um «dispositivo explosivo improvisado» explodiu à passagem de uma patrulha de Marines, que seguiam em veículos. Nessa explosão morreu um soldado americano. Em retaliação, foram chamados reforços e inspecionaram-se todas as casas nas imediações, sucedendo-se disparos que mataram 24 iraquianos, sobretudo mulheres e crianças. Em 2006 houve uma acusação formal contra 8 Marines que estiveram envolvidos no incidente. Em Junho de 2008, foram retiradas todas as acusações contra 7 dos Marines. De fora ficou o Sargento Frank Wuterich, acusado de ‘Homicídio por Negligência’ de 2 mulheres e 5 crianças.
Só 6 anos depois deste massacre é que o Sargento Frank Wuterich foi presente a um tribunal militar. Apesar de terem sido executados – o termo mais correto – 24 inocentes, Wuterich enfrentava uma pena máxima de apenas 3 meses de prisão. Ele que reconheceu ter dito aos seus homens que “disparassem primeiro e fizessem perguntas depois”. Mas no fim do julgamento nem 1 dia acabou por passar na prisão, já que conseguiu um acordo com a acusação, admitindo ter responsabilidade numa única acusação de negligência de dever. Perante isto, o juiz militar responsável pelo veredicto disse estar manietado pelo acordo, recomendou que a patente do sargento fosse reduzida para soldado e mandou-o em liberdade.
Em resumo, nas palavras de um residente em Haditha e familiar de uma das vítimas, tudo isto é
"an insult to all Iraqis and a solid proof that the Americans don’t respect human rights"




É mais que justo. Então não se esforçam os anjinhos americanos por salvar todo aquela gente, perdão todo aquele petróleo e tem ainda que prestar contas se lhes apetece por instantes massacrar uns quantos? Ser santo é stressante, e eles precisam de se livrar do stress acumulado não?
Precisam sim. E quando o fazem, p.e., usam prisioneiros para dar asas as seus fetiches ou urinam para cima de cadáveres de terroristas ou combatentes, consoante o ponto de vista. Bem podem andar a investir muitos milhões na construção de escolas e infra-estruturas, para ganhar a simpatia do povo, que o resultado de um pseudo-julgamento destes é o suficiente para deitar tudo a perder.
Pois, eu compreendo a tua indignação, mas já falando a sério a verdade é sempre muito mais complicada do que fazer o bem e o que é “correcto”. Sabes, eu posso não apoiar e desejar tais acções mas “compreendo” que elas possam acontecer por vezes. Os soldados querem-se instrumentos de guerra cegos por alguém por acima deles mas não deixam de ser seres humanos que sofrem e vivem mas também provocam os horrores da guerra, que estão ausentes da família meses, a lutar por vezes por causas que não lhes interessam, que veem os colegas e amigos morrer ao seu lado. E depois “estalam”, chega a um momento que é olho por olho, dente por dente e fazem as parvoices e as vinganças que o coração lhes mandam.
Francamente dá graças que as coisas ao menos estejam já ao menos assim. Porque tenta lembrar-te como eram as guerras selvagens do antigamente, com mortes parvas, fúteis e inúteis, violações, pilhagens e genocídios. A guerra é sempre inumana mas ao menos a de hoje sempre vai tendo alguns princípios de humanidade. Não é à toa que o ditado “na guerra e no amor vale tudo” continua a ser o mais dos mais fieis à realidade através dos tempos.
Calimero, (passo para aqui a resposta, por causa do efeito de escada), o filme, que mesmo assim não será a cópia fiel dos acontecimentos, dá uma boa ideia sobre o stress e os nervos à flor da pele daqueles soldados que foram vítimas de mais uma bomba que explodiu à sua passagem. É verdade, chega-se a um ponto em que por vezes “estalam”, sendo difícil que no meio de tanta descarga de adrenalina, o bom-senso e a humanidade tenham controlo sobre as emoções. Tenho estado a ler este “Guerra” do Sebastian Junger. Muito, muito bom.
Obrigado pela sugestão do filme, vou tentar vê-lo. Mas de verdade cada vez mais me custa a crer que consiga haver algum filme, livro ou foto que consiga realmente fazer sentir o que acontece em momentos como aquele. A guerra é dequelas situações demasiado intensas e extremas que para haja algo realmente fiel, que provoque ou explique as emoções que ali se vivem. E olha desculpa lá as minhas calinadas linguísticas no post anterior. Isto de querer ser rápido sem rever lixa sempre tudo.