O Vicente Moura e as medalhas
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À partida para os Jogos Olímpicos de Pequim, Vicente Moura tinha prometido que Portugal iria trazer 4 medalhas, ou em alternativa, iria conquistar 60 pontos. Um objectivo que não foi cumprido, já que Portugal ‘apenas’ conquistou 2 medalhas (1 de ouro e 1 de prata) obtendo a posição 46 no ranking final. O problema é que a meio da competição, Vicente Moura começou a ver que seria muito difícil que os atletas portugueses o ajudassem a cumprir a sua promessa. Naide Gomes foi eliminada, Gustavo Lima ficou pelo quarto lugar, Marco Fortes teve aquela triste frase da caminha e das provas pela manhã, e Vanessa Fernandes, que conquistou a medalha de prata, veio criticar alguns dos seus colegas, considerando que deviam ter uma outra postura:
«Acho que falta (atitude). Falta mesmo. Terem um pouco a consciência do que é um evento como estes. Isto tem de vir mesmo do coração e não sinto muita gente a vir (para os Jogos) com isso cá dentro. Vêm cá e… pronto. Olha, está feito. Aqui tens de competir a fundo, mas isso é que é difícil. Como não assumem a responsabilidade deles, começam a julgar coisas exteriores. A desculpar-se ou a criticar alguém ou alguma coisa. É patético. É a pior coisa que um atleta pode fazer»
Aquilo estava a ser um pesadelo tão grande para a comitiva nacional, que Vicente Moura, numa atitude de grande líder, de capitão que é sempre o último a abandonar o navio, decidiu anunciar que iria abandonar o cargo de presidente do Comité Olímpico de Portugal. É o que se chama ter sentido de opotunidade, tendo em conta que ainda faltavam competir vários atletas. E por acaso, um deles, chamado Nélson Évora, até conquistou uma medalha de ouro. Um feito que veio dar novo ânimo ao destroçado Vicente Moura. Tanto ânimo que ele até desistiu logo do anúncio que tinha feito sobre o abandono do cargo. É de facto um líder.
Um líder que, ao fim de 4 mandatos consecutivos à frente Comité Olímpico de Portugal, presente em 11 Jogos Olímpicos, contando com os de inverno, chega agora à conclusão que não deve fazer grandes promessas. Mais importante ainda, reconhece agora que em Pequim disse que coisas que não deveria ter dito. Pois é. São precisos muitos mandatos nesse cargo para finalmente se perceber isso. Da parte de Vicente Moura, Londres 2012 terá tudo para ser bem melhor que Pequim 2008.
Em Pequim, a comitiva nacional levou 80 atletas; para Londres, Vicente Moura espera reunir entre 70 a 80 atletas.
Para Pequim, Vicente Moura prometeu 4 medalhas; para Londres, a promessa é não haver promessa: “o programa que assumi com o governo não prevê lugares de pódio, prevê boa representação, condigna, etc… mais atletas, talvez mais modalidades, mas não mais do que isso”.
Para Pequim, a missão teve um apoio do estado de cerca de 14 milhões de euros; para Londres, o apoio do estado será de cerca de 14 milhões de euros.
Em Pequim, Vicente Moura anunciou o abandono do cargo a meio dos jogos; em Londres, já existe o reconhecimento que está na hora de dar o lugar a gente mais nova.
Em Pequim, os atletas foram sinceros e disseram aos jornalistas a primeira coisa que lhes passou pela cabeça; para Londres, Vicente Moura anunciou que vão ser agendadas reuniões para falar com os atletas, não para “proibir” os atletas de fazerem declarações, mas “lembrá-los” que o que dizem tem consequências pessoais, ao nível da modalidade e do país que representam. Esperemos que ele também se identifique naquilo que vai ser transmitido aos atletas.
Por fim, quando falta cerca de 12 meses para Londres 2012 (367 dias à data da publicação deste post), apetece-me recordar aquilo que disse em “não sei porquê tanta comoção. O Kazaquistão já tem oito medalhas e ainda prefiro – de longe – ser portuguesa”:
Felizmente que os Jogos Olímpicos só acontecem de 4 em 4 anos. A primeira noção é que eles não são bons para a economia do país, graças ao investimento que é feito – uns 14 milhões de Euros, que por sinal, nem saem do bolso dos contribuintes, mas das receitas dos jogos da Santa Casa (segundo ouvi dizer). Depois, o sentimento de desilusão que eles provocam é tão elevado, que se corre o risco do país cair numa depressão ainda mais intensa à que já se encontra.
É engraçado como se dá tanta importância aos desaires dos nossos representantes, durante a sua passagem pelos JO, para imediatamente os mesmos caírem num profundo esquecimento generalizado, durante pelo menos mais 4 anos. Num país onde o futebol é Rei e Senhor, com mais tempo de antena do que é dado à política e a outros assuntos de elevado interesse nacional, é de facto engraçado que de 4 em 4 anos os portugueses descubram que têm representantes em modalidades que não são praticadas com chuteiras contra uma bola, sem casos de jogo, sem expulsões, sem violência nas bancadas e sem picardias entre presidentes …




Este é que devia ter ficado na caminha…