Uma Cacetada da Crise
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CHARGING FORWARD: A police officer charged at demonstrators Tuesday in Lisbon during a demonstration against wage cuts. (Patricia de Melo Moreira/Agence France-Presse/Getty Images)
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Há algum tempo atrás, ainda sem se ter noção do cenário de crise para 2011, ouvia-se falar das famílias que estavam com a corda no pescoço por causa da subida das taxas de juro, a famosa Euribor. Famílias que se endividaram no tempo das ‘vacas gordas’ dos bancos. Pedem 200.000€ pela casa? Não há problema. O avaliador vai lá e ainda lhe deve conseguir uns 250.000€. Não quer aproveitar e incluir a aquisição de um carro com o empréstimo? Era fácil. Demasiado fácil. Se os bancos permitiam comprar até 200, para quê ficar numa de 150 ou mesmo 100? Era esticar ao máximo, sem pensar que um dia as taxas podiam subir. E ainda não se ouvia falar da crise.
Imagine-se agora essas mesmas famílias a apanharem com todos os cortes previstos para 2011. Se forem funcionários públicos, funcionários de empresas públicas de capital exclusiva ou maioritariamente público, ou funcionários de entidades públicas empresariais, vão sofrer um corte médio de 243€. Prémios, promoções e subsídios, tudo cancelado ou congelado, ou seja, bye bye rendimentos extra que sempre iam servindo para equilibrar as contas. Taxas de IRS mais elevadas e menores deduções nos benefícios fiscais, ou seja, menos uns pozinhos de perlim-pim-pim para pagar umas contas ou amortizar uns empréstimos. Por fim, subida do IVA, a afectar quase tudo o que nos rodeia, possível de ser comprado. E por causa disso, contar também com outros aumentos não previstos no plano de austeridade, como é o caso do indispensável combustível. No início de Janeiro de 2011, gasolina a 1,533€ por Litro, um valor superior ao anterior máximo, atingido em Julho de 2008. E com tendência para continuar a aumentar.
Ora, neste cenário sufocante, uma da hipóteses seria vender aquilo que mais contribui para a desgraça do orçamento familiar, regra geral, a casa. Em vez de se viver numa de 200 mil, o melhor seria procurar uma de 100 mil, amortizando a dívida ao banco e ficando com uma prestação bastante menor. Fosse isso assim tão fácil. A casa será sempre a última coisa a transacionar. Pode-se deixar de comer, de pagar todas as contas, pode-se tirar os miúdos do colégio, pode-se eliminar muitas superficialidades, mas a casa é que não.
Todos tiveram conhecimento da crise e sabiam que ela chegava com a entrada em 2011, no entanto, os actos praticados nos últimos meses de 2010, pareciam querer dizer que a maioria se recusava a aceitar essa realidade que se aproximava. Gastou-se como se estivesse a fazer uma última farra. Como se explica que no Natal de 2010, com cortes à porta, as famílias portugueses tenham gasto quase 10% a mais, que em relação ao mesmo período festivo de 2009? Como se explica que em 2010, Portugal teve o segundo maior aumento da União Europeia em vendas de carros? Porque se queriam antecipar à subida do IVA? Isto é linear, novo carro, novo empréstimo.
Enquanto houver crédito nos bancos, tudo é possível. E por isso, em Novembro de 2010, os particulares deviam aos bancos quase 4,3 mil milhões de euros. Nesse ano, o crédito de cobrança duvidosa, aumentou no consumo e caíu nos segmentos outros fins e habitação. E o dinheiro que é depositado pelos particulares, é cada vez menos. Maior consumo, menor poupança. Ainda vai havendo dinheiro para empréstimos pessoais, seja para pagar outros empréstimos, comprar carro novo, televisão nova ou ir de férias. Mas quando se trata de emprestar para comprar casa, alto, que essa torneira vai ficando cada vez mais fechada. Agora, se é preciso 200 mil, o avaliador só dá 180 mil ou menos. O resto? Desenrasque-se.
Por isso, voltando à tal família desesperada, cuja última solução seria tentar vender a casa e comprar uma mais barata, fica a dúvida de se conseguir realizar tal operação. Primeiro porque a casa que foi comprada por 200 mil, é provável que valha agora apenas uns 150 mil – já lá vai o tempo em que uma casa estava sempre a valorizar. Depois, é preciso arranjar alguém com capacidade financeira para a comprar. É verdade que as casas ainda se vão vendendo, mas também é verdade que no meu prédio, há mais de 2 anos, ainda estão 4 apartamentos para venda.
Estamos afogados na crise e o futuro próximo não será risonho.




Dizem os livros que enfrentamos a Mudança através de 5 fases: Negação; Raiva; Negociação; Depressão e Aceitação.
Parece-me que estamos agora a entrar na Raiva. A seguir virão as outras…
Kurioso, a raiva devia ser vir para a rua assim como fizeram na Tunísia. Esta fase, com a entrega de providências cautelares, ainda as enquadro na Negação. Até receberem o primeiro ordenado de 2011, ainda acham que tudo isto pode não passar de um pesadelo. Depois é que vão ser elas, quando se vir que o ordenado já não estica mais