Quanto custa prolongar uma ‘vida’?
Um tema delicado. Muito delicado. Chamei-lhe ‘vida’, porque na verdade, o que é a vida de um doente com um cancro em fase terminal? Será ‘vida’ um sofrimento prolongado e constante? E se o doente quiser prolongar essa ‘vida’, se ele quiser poder olhar para aqueles que mais ama durante mais tempo? Pode o Estado, por razões puramente económicas, impedir o uso de um medicamento que possa prolongar a ‘vida’ por mais dois meses? E os casos em que esse prolongamento se verifica por muitos mais meses? Deve-se perder essa hipótese?
Isto a propósito do facto da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), ter decidido chumbar o uso nos hospitais públicos de um fármaco usado contra o cancro de mama e cancro de pulmão, nos casos mais graves em que este já se encontra metastizado. Peritos do Infarmed consideraram que o bevacizumab, mais conhecido por Avastin, não demonstrou de forma inequívoca valor terapêutico acrescentado quando adicionado aos tratamentos habituais, no caso do cancro de mama já disseminado. No caso do cancro do pulmão, existiria apenas um «ligeiro benefício clínico», estimado em mais dois meses de vida, e que o seu custo é «excessivo» face a esse benefício. O Avastin custa cerca de 2500 euros por cada ciclo de tratamento. Um aspecto que leva o presidente do Infarmed, Vasco Maria, a sublinhar que esta decisão de chumbar o uso do Avastin não tem a ver com critérios economicistas, argumentando ainda que «Não vou dizer se dois meses de vida valem 50, 60, 80 mil euros. A sociedade tem que discutir se acha que se devem gastar 80 mil euros para mais dois meses de vida ou em campanhas de prevenção do tabagismo». Uma decisão que surge numa altura em que a indústria farmacêutica tem denunciado os atrasos na aprovação de medicamentos inovadores, que chegam a superar os 800 dias na oncologia.
Em Novembro de 2009, uma decisão idêntica gerou polémica em Inglaterra. o National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE), considerou que o sorafenib, usado contra as formas mais agressivas do cancro do fígado, tinha um custo muito elevado face aos efeitos que poderia ter a nível de tratamento. Uma decisão que deixaria cerca de 3000 doentes por ano, a receber apenas cuidados paliativos ou de fim de vida, roubando-lhes um aspecto muito importante: Esperança.
Por mês, o tratamento com sorafenib tinha um custo de cerca de 2500 euros, permitindo prolongar a vida dos doentes 3 ou 4 meses (44%). Por ém, houve doentes que conseguiram viver mais 19 meses desde a data em que lhes foi diagnosticado o cancro. O responsável do NICE afirmou que «O preço…é simplesmente muito elevado para justificar o uso de dinheiro do Serviço Nacional de Saúde, podendo o mesmo ser usado em tratamentos mais eficazes do cancro». Uma justificação que não é fácil de entender por quem lhe foi diagnosticado cancro, tal como sucedeu a Tony Almond. A este cidadão inglês foi-lhe diagnosticado cancro do fígado de rápido crescimento, estimando-se que apenas teria mais um mês de ‘vida’. Após um apelo para o SNS, conseguiu obter um tratamento com sorafenib, permitindo-lhe aliviar a dor desesperante que sentia e reduzir o inchaço da barriga. Tony Almond salientou que o medicamento é de facto eficaz na melhoria da qualidade de vida face a uma doença implacável, mostrando indignação pelo facto de outros doentes do SNS virem a ficar privados da sua toma, por motivos claramente economicistas
Um cidadão pode efectuar muitos descontos ao longo da sua vida, mais ou menos curta, pode nunca ter sofrido de uma doença e pode até nunca ter gasto um cêntimo do SNS. Mas sem o prever, de um momento para o outro, pode vir a sofrer de uma doença sem cura, que terminará a sua vida de forma rápida. Nesse momento, qual é o cidadão que não gostaria de poder contar com um medicamento que lhe permitisse prologar a ‘vida’ por mais tempo, dando mais qualidade e menos sofrimento? Todos os seus descontos devem ser ignorados nesse momento? Cabe à sociedade discutir se acha que se devem gastar 80 mil euros para mais dois meses de vida? Há coisas que não têm preço ou discussão possível.
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Acho que melhorar a qualidade de vida de uma pessoa a quem já pouco faltará, não tem preço monetário válido ou consensual.
Ter um final de vida no qual se possa aliviar a dor, apesar de esta estar presente nos dias em contagem decrescente acelerada, deveria ser um direito para todos.
Acho que os cuidados paliativos e todo o processo de relação do doente, familiares, psicólogos, médicos e enfermeiros é de louvar..mas com medidas destas uma pessoa só pensa em quanto vale, num sistema de saúde a mostrar que está um pouco longe de compreender ‘a vida’.
Eurodeputada alerta Comissão Europeia sobre proibição do Avastin em Portugal
«A eurodeputada social democrata Regina Bastos alertou a Comissão Europeia sobre a proibição de uso de um medicamento indicado para o cancro da mama nos hospitais portugueses, decretada pela autoridade nacional do medicamento»