Filhos de uma Nação Calórica
O Jamie Oliver dispensa apresentações. Mas para quem eventualmente não saiba, é um cozinheiro de fama mundial, autor de diversos programas de culinária para a televisão, e sobretudo, tem tido um papel fundamental na campanha contra o uso de ‘junk food’ nas escolas, assim como na campanha para mudar maus hábitos alimentares em todo o Reino Unido. Mas uma coisa é um cozinheiro inglês, estimado pelos compatriotas, a tentar mudar as mentalidades no que toca à comida ingerida, e outra bem diferente, é um cozinheiro inglês em terras do Tio Sam a tentar que a mesma campanha tenha sucesso. Tão diferente, que Jamie Oliver acabou a chorar, sentado num pátio de uma escola, afirmando que: "Eles não me entendem porque não sabem porque estou aqui".
Jamie Oliver, talvez inebriado pelo sucesso que teve em Inglaterra, decidiu apostar num novo programa de culinária, ao estilo de um Reality Show, a ser transmitido nos EUA. Na sua campanha “Jamie Oliver’s Food Revolution”, ele apresenta a seguinte mensagem,
I believe that every child in America has the right to fresh, nutritious school meals, and that every family deserves real, honest, wholesome food. Too many people are being affected by what they eat. It’s time for a national revolution. America needs to stand up for better food!
Para cumprir este objectivo, nada melhor do que começar pela cidade de Huntington, na Virgínia Ocidental, considerada a menos saudável cidade dos EUA, onde numa escola primária são servidos pequenos-almoços aos alunos que incluem Pizzas repletas de ovos e linguiça, acompanhadas de Leite com Chocolate. Os seus objectivos podem ser louváveis, mas é muito difícil um estrangeiro de sotaque estranho, conseguir mudar as mentalidades de uma nação que vive afogada em calorias. Na estreia do programa, a audiência ficou-se por uns modestos 6,1 milhões de telespectadores. Entrevistado numa estação de rádio local, Jamie Oliver foi recebido com crispação e desconfiança, obrigado a ouvir o entrevistador dizer “Nós não queremos passar o dia todo a comer alface! Quem é que te fez Rei?” ou de outra forma “quem és tu para vires aqui armado em campeão da alimentação?”.
É muito difícil o Jamie Oliver entender que uma criança confunda tomates com batatas, mas isso aconteceu no programa. Tão difícil, como uma mãe de 4 filhos ouvir o Jamie Oliver dizer "Isto vai matar os seus filhos", apontando para uma mesa repleta de fritos e Pizzas, os quais constituíam a alimentação base daquela família. Mas quem era este british armado aos cucos, capaz de levar às lágrimas a senhora Stacie? A edição local do Herald Dispatch acusou-o de ser rude sobre Huntington, e de pouco serviram as desculpas de Jamie Oliver. O jornal atribuiu-lhe a seguinte declaração “Quando você conhece estas pessoas, vê que não são estúpidas. Elas não são ignorantes. A questão é que eles nunca fizeram um reset nas suas vidas àaos alimentos que ingerem”. Jamie Oliver defendeu-se, alegando que as palavras e observações foram retiradas do contexto. Mas isso não impediu que ficasse de rastos, talvez por não estar habituado a ver um projecto seu a sofrer um revés tão grande. Na mesma escola onde Jamie Oliver se sentou a chorar, apresentou uma ementa de almoço, constituída por frango assado e arroz selvagem, e a escola, uma alternativa à base de Pizza. Vale a pena dizer qual das ementas teve mais saída nesse dia?
Mas se mudar as mentalidades contra péssimos hábitos alimentares, é uma tarefa titânica nos EUA, mais difícil fica quando uma celebridade chamada David Lettermen debita um chorrilho de disparates. Jamie Oliver foi ao Talk Show do Lettermen, e uma vez mais, ter-se-á arrependido dessa decisão. Lettermen focou-se em salientar aquilo que na sua opinião levaria o projecto de Oliver ao fracasso, e perguntou “Você sabe quem estaeve neste programa na semana passada? A Kirstie Alley, a qual tem agora uma nova carreira na luta para perder peso” – Fica a nota que a Kirstie Alley tem também um Reality Show, onde mostra a sua luta para perder peso, e estas declarações mostram que a luta não está a correr da melhor forma “I can’t believe I f*****g got f*****g fat again. I spent my whole life thin. I curbed my appetite, but then quit smoking, then quit cocaine and ate tons and tons of food. And then I lost all that weight and loved it and had it off for two years. It comes on a lot faster than I get it off”.
E Lettermen continuou a argumentação “Depois de cinco ou seis, dez ou 20 anos de tentativas para perder peso, não há nada nesta cultura que contrarie essa evidência, com excepção dos comprimidos. Vá a um médico e ele ficará contente por lhe poder receitar todas as pílulas que você necessitar. Enquanto tivermos de alimentar todas as pessoas, nós iremos continuar a comer péssima comida. E você acha que o McDonald’s vai fechar? Não, eles não vão encerrar”. E deu vários exemplos de como os americanos não gostam da mudança “No final dos anos 60 nós estivemos para mudar o Sistema Métrico…mas isso não deu resultado, você sabe porquê? Porque era muito complicado para os americanos pensarem em metros. Futebol, pense no Futebol. Isso também não resultou”.
Jamie Oliver lembrou-se de mencionar a proibição de fumar em muitos locais de Nova Iorque ou noutras cidades americanas, uma medida que teria sido bem sucedida apesar da indignação inicial dos fumadores. Mas Lettermen respondeu que “Era o povo a tomar essa decisão. Mas a alimentação não é uma decisão. As pessoas são obrigadas a comer”.
Pobre Jamie Oliver, God Bless America!
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Engraçado que já comecei a “escrevenhar” umas coisas sobre este rapaz e depois desisiti. Não era propriamente para o elogiar. Aliás era mais para bater na nossa mania de adorar tudo o que vem de fora. Se o tipo em Inglaterra faz sucesso, até compreendo, a comida deles é uma porcaria em termos de combinação de sabores e de calorias, em terra de cegos quem tem olho é rei.
Agora que em Portugal já tenha culto pelo rapaz, ele é livros, programas de televisão e crónicas nos jornais, é que não se compreende. A base da cozinha dele é um pouco fritadeira, com ligações de gorduras péssimas, ainda é dos que fritar bem os bancon, as cebolas e tal é que dá beom sabor, depois o regar com natas e tal e coisa está sofisticada.
Leio no expresso o que vai publicando e na maior parte das vezes aquilo é de uma pobreza franciscana armada em gourmet.
Nós temos umas das culinárias mais ricas e saborosas do mundo (e olha que eu já senti na pele muito do que come por esse mundo fora), com grande equilbrio qualitativo (estou a falar da cozinha básica e não da super elaborada que é igual em qualquer parte do mundo) e, no entanto, estamos sempre de cócaras perante os outros.
bem acho que descreveste bem a situação. no outro dia, já não sei em que canal, vi um bocado desse programa dele nos estados unidos mas a parte que vi não me deu a entender que era isto que aqui descreves. parecia-me mais que ele queria conhecer os costumes culinários de lá (vá se la saber quais costumes é que eles lá têm para além dos hot dogs e burgers =P)
se já em Inglaterra (bem me lembro de ver na sic mulher) foi difícil no início ele mudar os comportamentos alimentares da escola onde ele começou esta revolução e mesmo sabemos nós que é algo muito pontual. imaginar isto num país com o cerca de 5 vezes mais população com uma mentalidade muito mais fechada (para as pessoas da base da pirâmide, atenção!). muitos deles pensam que USA=world, eles sabem lá quem este caramelo armado em super heroi.
não que raio de ideia teve ele para se lançar nos estados unidos, que foi uma coisa bem pensada certamente que foi, mas … se calhar ele já não lhe apetece cozinhar mais e agora dedica-se a isto.
A cultura americana cultiva e incentiva a alimentação calórica e fast-food, não há como mudar uma alimentação para quem não quer. Se não quer nem 1%, não há como mudar é mesma coisa que querer fazer uma pedra andar. That’s just impossible to do.
Jamie Oliver está a tentar fazer na América o que não conseguiu fazer na Grã-Bretanha, pôr toda a gente a comer comida saudável. Hoje em dia é complicado, quase ninguém cozinha, quase ninguém tem tempo nem pachorra para cozinhar. Eses programas funcionam bem para a televisão, as pessoas se propõem a seguir as regras e fazer mudanças substanciais nas suas vidas, mas quando as camaras se desligam, também se desliga a disponibilidade. Mas faz um óptimo programa de televisão. :)