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O Ilusionista da Catástrofe

Março 23, 2010

O Roland Emmerich tem tentado destruir a Terra. A dúvida é saber quando é que ele decide levar esse objectivo até ao fim. Até hoje, apesar de todas as mega-catástrofes que ele injecta nos seus filmes, deixa sempre um punhado de gente para proceder à reconstrução da civilização. Sim, vi o “2012”, e deixo já o aviso que nas linhas seguintes irei falar de pormenores do filme.

Emmerich é bom a destruir coisas, apostando em efeitos especiais de encher a vista, capazes de fazer esquecer as restantes lacunas, ou pelo menos, a impedir que pensemos muito nelas. Uma aposta que já foi premiada com um Óscar em 1997, na categoria “Best Effects, Visual Effects”, para o filme “Independence Day”. No seu curriculum de destruição, entre os já citados “2012” e “Independence Day”, contam-se ainda o “Godzilla” e o “The Day After Tomorrow”. Os seus filmes são bons se nos focarmos apenas na destruição e na violência. Se tentarmos ver para além disso, se quisermos dar atenção às personagens, ao fisicamente impossível de acontecer, ou às mensagens bonitas, iremos certamente ficar desiludidos. Que não hajam dúvidas, os seus filmes estão repletos de clichés ou de incongruências.

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Em “2012” temos o John Cusack no papel de Jackson Curtis, um escritor de ficção-científica, que não teve sucesso nas vendas do seu único livro publicado, um facto que o obriga a ser condutor de limusinas em part-time. Claro que ele é divorciado, claro que tem dois filhos e claro que o filho não tem admiração por ele, porque, claro está, a ex-mulher dele vive com um cirurgião plástico bem sucedido na vida. Como é óbvio, ao longo do filme, Jackson Curtis será um grande herói, com papel decisivo na salvação de um povo, o filho ganhará admiração pelo pai, o cirurgião plástico morrerá para não atrapalhar, e Jackson Curtis voltará para a ex-mulher, para que tornem a ser uma família unida e feliz. Também em “Independence Day”, o personagem de Jeff Goldblum tenta voltar para a ex-mulher (e consegue), e o personagem de Randy Quaid, um alcoólico veterano da guerra do Vietnam, decide sacrificar-se pela humanidade, num acto suicida que lhe concede de novo a admiração do filho mais velho.

No “The Day After Tomorrow”, além de se mostrar uma imagem assustadora e concentrada dos efeitos de um Aquecimento Global, também se falou de fronteiras e de emigração. Enquanto o Norte da América gelava e todos iam morrendo, a salvação encontrava-se mais a Sul, no México, onde as temperaturas não seriam tão severas. Ironia do destino, os americanos teriam de fugir para o país, do qual se protegiam com um muro para deter as vagas de emigrantes ilegais. Emmerich lá terá achado que ficaria bem uma mensagem de união entre povos, tipo “não me trates mal, pois amanhã poderás precisar de mim”. Em “2012”, Emmerich também não podia deixar de passar mais uma ‘mensagem bonita’ ao mundo. Os ricos e poderosos já estavam a salvo, dentro de arcas gigantes, e cá fora, condenados a uma morte certa, estavam os pobres, a mão-de-obra que construiu as arcas. E no meio do drama, alguém apela aos poderosos para que ajudem os ‘mais pequenos’. Ou de outra forma, um apelo ao G8, G8+5 ou G20, para que ajudem todas os povos em dificuldades, a começar por África.

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O melhor do “The Day After Tomorrow” situou-se na primeira parte, em particular, enquanto pudemos assistir a tornados e tsunamis. O resto, foi o arrastar de uma história que tanto poderia ser inserida numa tempestade inimaginável, causada pelos efeitos derivados do Aquecimento Global, como poderia ser inserida numa comum operação de salvamento, passada numa tempestade de neve algures no norte da América. Depois da adrenalina da destruição inicial, caímos num entorpecimento causado por uma longa tentativa para arranjar um medicamento. Uma acção completamente desenquadrada dos acontecimentos de dimensão gigantesca que estavam a acontecer.

O mesmo sucede em “2012”, que só ganhou robustez a partir do momento em que injectaram a destruição e a adrenalina em doses industriais. Aliás, se já houve emoção com a descolagem de um avião num aeroporto, enquanto este desaparecia nas profundezas da Terra, nada melhor do que repetir essa euforia através de mais duas descolagens do mesmo género. Vemos a Califórnia a afundar-se no mar, vemos a explosão de um super-vulcão, vemos o presidente dos EUA a morrer esmagado por um porta-aviões empurrado por um megatsunami (ou terá morrido afogado?), e vemos a ‘Mãe de todas as ondas’ a submergir a Ásia, capaz de chegar rés vés ao cimo da cordilheira do Himalaia. E no meio de tanta mega emoção, depois de tanto efeito especial, a acção acaba por se centrar num conjunto de roldanas encravadas por causa de um cabo, as quais, se não funcionarem, provocarão a destruição da ‘arca’ que aloja alguns dos últimos sobreviventes da humanidade.

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Roland Emmerich é bom a destruir as coisas, fraco e oscilante a construir a história, e pior a mostrar personagens sólidos. Os seus filmes são de extremos. Parece ser capaz de gastar rios de dinheiro para simular um tufão, e capaz de passar o resto do filme com um orçamento reduzido, entretendo-se a contar a aventura dos personagens para conseguirem arranjar pilhas para uma máquina fotográfica, para poderem ficar com uma recordação daquele mega-fenómeno da natureza. Os seus filmes são para acompanhar com grandes baldes de pipocas e grandes copos de refrigerante. São para serem vistos como um mega-entretenimento, capaz de estimular a visão e a audição até ao limite. E tudo corre bem enquanto a acção estiver no máximo. O problema é mesmo quando as coisas acalmam.

Sim, vi o “2012” e acho que o Roland Emmerich poderia fazer numa próxima vez, um remake do “The Day After”. Seria mais um filme ao estilo peculiar a que já nos habituou. Um estilo, tal como escrevi aqui a propósito do “2012”, que é «um Blockbuster. Não é para concorrer aos Óscares, não é para pensar muito na história, nem é para se intrometer com o intocável cinema europeu. É sim, para ver de espírito aberto, como forma de entretenimento, que é para isso que o Cinema também existe»

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7 Comentários leave one →
  1. Março 24, 2010 11:19 am

    é só destruição, o homem tem a fixação, pronto..!
    Eu só vi o day after tomorrow…e disseram-me outro dia para só me ficar por esse, porque a única coisa de que iria gostar no 2012 seriam somente as pipocas.
    eu como adoro pipocas ainda pensei ponderar mas…não. Não arrisco.
    :)*

    • Março 24, 2010 9:05 pm

      :)) Ana, existem uns momentos de grande emoção. Temos de dar valor ao tipo, pois não é fácil simular tanta catástrofe. E é preciso recordar que ele fez o Godzilla, que foi considerado um filme muito mau. Acredita que estou mesmo curioso em ver qual será a próxima catástrofe que ele irá filmar, porque depois dete é difícil imaginar que consiga algo tão grandioso

  2. Março 25, 2010 5:23 pm

    Estes filmes catástrofes sempre existiram, mas actualmente estão mais “cheios” de consequências por assim dizer fatais…
    Eu não sou apologista destes filmes, e só o seriam se trouxessem com eles uma possibilidade real de alerta para o homem ser mais cuidadoso com o mal que tem feito e continua a fazer à humanidade; mas não, limitam-se a mostrar situações apocalípticas e pouco mais.
    Abraço.

    • Março 26, 2010 4:02 pm

      Pinguim, eu ia dizer que deste realizador, o “The Day After Tomorrow” poderia enquadrar-se nesse filme de alerta para o homem. Só que, também nesse, o aviso vem sob a forma apocalíptica

  3. Março 25, 2010 7:04 pm

    como já disse várias vezes estes filmes são sempre para despertar a feira popular que há dentro de nós, olhamos para eles como quem vai na montanha russa, dás uns berros, fica enjoado, sai e segue a vida. era importar ir na montanha russa? não, mas a vida é feita de banalidades e nós precisamos delas para dar mais brilho às coisas interessantes.

    o filme cumpre o objectivo dento do género, terá até mais acção (suspense) do que os anteriores, mas mesmo assim o dia depois de amanhã ainda é melhor.

    no outro dia escrevi uma curta (historieta) daquelas pe´rfidas sobre o homem. talvez a publique.

    • Março 26, 2010 4:05 pm

      bp63, e ainda há o pormenor de, apesar de podermos ficar enjoados com a voltinha na Montanha Russa, insistirmos em repetir a dose, seja por masoquismo, seja por termos gostado da descarga de adrenalina.

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