O que se pode mostar numa tragédia?
O Marco Santos, na sequência da catástrofe na Madeira e das imagens que foram mostradas, escreveu um post pertinente onde se debatia se era legítimo apreciar a qualidade de uma fotografia que nos mostra uma tragédia. E sobre essa questão ele escreveu o seguinte:
O melindre é estabelecer limites para o que se pode mostrar. Este tipo de situações obriga um blogger a ter tanto cuidado no que mostra como qualquer editor de jornal. Que ninguém se desculpe com a diferença de audiências entre uma publicação e um blogue, porque a responsabilidade é igual nem que um blogue tenha meia-dúzia de visitantes (…)
O critério, neste caso, é muito simples. Sabemos que morreram pessoas. Sabemos – ao ver as fotos da lama e dos pedregulhos e do curso das ribeiras – como essas pessoas provavelmente perderam a vida. Fotos de cadáveres enlameados cuja identificação pode ser feita por quem veja a imagem não acrescentam nada ao que já sabemos (…)
Até agora, pelo que tenho visto, nenhum jornal (ou blogue) publicou essas fotos. Não precisamos delas e acho que a decência com que os jornalistas e os repórteres fotográficos estão a tratar este assunto se vai manter.
A dúvida que eu coloco é se Esta Imagem podia ser publicada – MUDSLIDE DEATH: Rescue workers removed a body from a car in Funchal, Madeira Island, Portugal, Monday. Authorities confirm flash foods killed at least 42 people; crews are searching for 32 missing people. (Gregorio Cunha/Agence France-Presse/Getty Images). Não existe nela algo que identifique a vítima, nem rosto, nem matrícula da viatura, nem é evidente o local onde foi tirada. É uma imagem chocante, sem dúvida, mas não tanto como as que foram mostradas na calamidade do Haiti. Pode também ser vista neste conjunto de fotos.
A minha dúvida é se faz sentido existir melindre em mostrar um morto na Madeira, contra os milhares de mortos foram mostrados nas imagens do Haiti, vezes sem conta, em horário nobre das televisões. Podemos aceitar ou tolerar que os mortos do Haiti sejam exibidos sem qualquer respeito pela sua dignidade, mas já não admitimos que os mortos da Madeira possam ser exibidos da mesma forma? Em nome da decência e da objectividade jornalística, seria bom que mortos no Haiti, na Madeira ou em qualquer parte do mundo, fossem sempre tratados de igual forma, com o mesmo nível de respeito.
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Algum do jornalismo feito no Haiti foi claramente exagerado. Algumas imagens eram muito chocantes. E como foi dito, muitas vezes foram exibidas em horário nobre, com todo o tipo de plateia a visualizar as mesmas.
Não é preciso mostrarem imagens chocantes para o telespectador ou leitor, chegar rapidamente à conclusão do nível catastrófico vivido no Haiti, Madeira ou outro lugar.
Claro que eu sou completamente contra a exibição “gratuita” de fotos com o único objectivo de exponenciar um drama, como aconteceu no Haiti; mas também estranho a total ausência fotográfica que documente qualquer vítima dos trágicos acontecimentos da Madeira. Porquê?
É a questão que se me põe. E perante esta foto, que é realmente um documento exacto do que se passou na Madeira, sabemos que há fotos, e que lá fora são publicadas, apesar da raiva surda de AJJ; ele esquece-se que só é ditador na Madeira e só mete medo (continuo a ignorar porquê?) a certas instituições políticas e sociais nacionais.
Porque razão esta foto, que nem considero especulativa, mas muito explícita, não mereceu uma única referência nacional?