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Velhice? Wiiiiiiiiiii – Fábrica de Letras

Fevereiro 5, 2010

A notícia era curiosa e chamava a atenção. Num lar da terceira idade nos arredores de Paris, o Medica France,  a última novidade é a consola Nintendo Wii, que passou a ser usada para os idosos se exercitarem, fazendo desporto de uma forma virtual. Uma consola que permite exercitar os dedos e os braços. Boa para aumentar a destreza e treinar a memória. Duas vezes por semana, os moradores deste lar dão preferência ao Bowling. Uma iniciativa que tem produzido tão bons resultados, que vai ser alargada a mais lares de idosos em França, depois de ter sido assinado um acordo com a Nintendo para o fornecimento das consolas Wii em quase 100 lares de terceira idade. Um Vídeo RTP.

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É certo que em França, 100 será um número muito reduzido no universo de lares de terceira idade. Não sei com quem terá sido estabelecido o acordo, mas tenho dúvidas que tenha sido com uma Misericórdia. Também não conheço a realidade dos lares da terceira idade em França, mas pelas imagens, tenho a forte suspeita que o Medica France seja um espaço ao alcance de muito poucas carteiras. Quem olha para a decoração daquela sala e conhece a realidade dos nosso lares da terceira idade, irá considerar que se compara um hotel de sete estrelas no Dubai, com uma pensão de uma estrela, algures numa rua de ambiente manhoso. Mesmo assim, esta é uma iniciativa que deveria ser vista com muita atenção pela nossa Santa Casa da Misericórdia. Dinheiro? Verbas? Complicado. Mas com arte e engenho tudo se consegue.

Eu conheci de perto a realidade de ‘ficar com um idoso nas mãos’. Conheci a angustia de conseguir vaga num espaço condigno e economicamente viável para o colocar. Conheci o dia a dia de quem vive num lar, sentado num cadeirão, de olhar vazio. Um olhar que só ganhava algum brilho quando uma visita entrava na sala, mesmo que essa fosse para o vizinho do cadeirão do outro lado da sala de espera. Infelizmente, a realidade dos nosso Lares não é agradável. Um espaço com vaga imediata, que seja condigno, economicamente viável, com animação social e cultural, é praticamente impossível de encontrar. A existir, será algo tão restrito que só uma elite conseguirá ter acesso. Tomara a maioria conseguir um espaço para cuidar decentemente de um idoso, quanto mais pensar que possa existir grande animação, coisas que tirem esse idoso de um letargia doentia e que o façam sentir-se vivo.

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A realidade é negra, e as notícias provam isso. Em 2007 tinha escrito sobre o drama de ser ‘depositado’ e esquecido. Ser colocado numa espelunca, depositado a um canto, esquecido por alguém que se dispunha a pagar 750€ por idoso para manter esse inferno. Pessoas assim também são capazes de abandonar os seus familiares em hospitais, recusando-se a ir buscá-los quando têm alta. Dizem que nesse dia não podem, que não dá jeito, e já não voltam a atender o telefonema do hospital. E não se pense que é uma realidade exclusiva das classes desfavorecidas. Não é só por falta de recursos financeiros que as pessoas se recusam a ficar com o familiar idoso. São também as pessoas mais egoístas, menos solidárias. Um Vídeo RTP.

Em Janeiro de 2010, a notícia dizia haver 15.000 pessoas à espera de encontrar lugar num lar. Milhares de idosos que vivem sozinhos, sem protecção da família nem cuidados básicos, e nem sequer estão sinalizados pela rede social, não beneficiando de qualquer apoio. E para os que procuram lugar num lar, o Estado também não tem resposta. Se a situação já é dramática para um idoso que possua o mínimo das suas faculdades físicas e mentais, então, no caso de estar acamado ou de sofrer de doença que exija cuidados contínuos, é para esquecer, pois será quase impossível que se abra uma porta. Mais de 80% dos 90 mil doentes com Alzheimer estão em casa, entregues à família e sem cuidados especializados. Uma sobrecarga que quem tem de cuidar deles suporta com enormes dificuldades económicas, psicológicas e operacionais. Muitos cônjuges e filhos destas 75 mil famílias são obrigados a deixar o emprego para lhes prestar apoio permanente, pois o Estado não possui equipas de apoio domiciliário nem centros especializados. Se para um idoso normal, já é difícil encontrar vaga num lar, para estes doentes específicos não há sequer resposta. O futuro será ainda mais grave, pois se hoje há 90 mil doentes, daqui a dez anos, poderá haver 120 mil.

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Num mundo perfeito, velhice deveria ser sinónimo de descanso e paz. Não deveria ser sinónimo de drama e preocupação para os familiares, e muito menos, ninguém deveria sentir-se um fardo pesado que todos parecem não querer carregar. Nesse mundo, arranjar vaga num lar da terceira idade seria imediato. As mensalidades desse lar, seriam economicamente viáveis de suportar, e ele teria todas as condições que dessem dignidade a quem lá está. Viver nesse lar seria uma aventura social enriquecedora, onde todos gostariam de estar presentes no dia seguinte. Mas esse mundo, como se sabe, não existe. Velhice? Wiiiiiiiiiiii.

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9 Comentários leave one →
  1. Fevereiro 5, 2010 9:24 pm

    Acho excelente aproveitar este tema da “Velhice” da “Fábrica de Letras” para falar um pouco mais detalhadamente da triste realidade dos lares da terceira idade no nosso país; também eu acompanhei a estadia, infelizmente não muito prolongada de uma pessoa amiga num desses lares( e não era mau o Lar, embora nada luxuoso), mas era triste ver ali pessoas que nunca recebiam uma visita e depois, de repente estranhava-se não ver alguém e á nos diziam que tinha partido.
    Eu já tenho defendido que iguais medidas devem ser tomadas em qualquer estado, quanto à velhice, como as que se tomam com as crianças, mas não é isso que se vê.

  2. Fevereiro 8, 2010 5:45 pm

    Dura realidade a desta crónica. Mas verdadeira. Parabéns

  3. Fevereiro 8, 2010 6:12 pm

    Num mundo perfeito, velhice deveria ser sinónimo de descanso, paz, e de respeito e dignidade. Por muito que nos seja inconfortável, a realidade é esta que trazes, a das notícias de que os jornais falam, e aquela que nem se fala, a realidade do abandono, negligência, e desresponsabilização por parte de familiares… a realidade é que as famílias são diferentes, nos laços de afectos que estabeleceram, na responsabilidade familiar que passaram, nos recursos económicos à disposição, na localização geográfica, no tempo disponível… e o Estado desresponsabiliza-se constantemente do dever para com os anciãos do seu país, outrora força trabalhador e motriz… embora ainda eleitores, são relegados para as instituições privadas precárias e oportunistas e considerados cidadãos de segunda… Num mundo perfeito, chegar à velhice seria visto como o objectivo último, esperado com entusiasmo, para usufruír de cuidados e mimos merecidos… Num mundo perfeito…também não haveria uma série de outras coisas… mas como sabemos, a Utopia apenas existe nos livros… porque a natureza humana é o que é…imperfeita… e os fracos, humildes, e vulneráveis, são sempre sacrificados…

    • Fevereiro 8, 2010 7:26 pm

      Eva, é verdade que esse mundo perfeito não existe, mas como Pinguim bem disse no seu comentário «iguais medidas devem ser tomadas em qualquer estado, quanto à velhice, como as que se tomam com as crianças, mas não é isso que se vê». Eu não posso deixar de concordar com essa afirmação. Tal como grande parte do problema está também bem referido nessa frase «o Estado desresponsabiliza-se constantemente do dever para com os anciãos do seu país». Depois de uma vida de descontos, cada idoso deveria ter acesso a um lugar condigno e acessível onde pudesse passar os últimos dias da sua vida. Senão, acontecem situações escabrosas como a da senhora de 82 anos, que morava sozinha, com Alzheimer, tendo falecido num incêndio em sua casa

  4. Fevereiro 8, 2010 6:59 pm

    A ideia que tenho dos sistemas de apoio social franceses é de que são muito bons. Daí a saber se são todos assim, não posso dizer, mas posso partilhar a insatisfação com o que se vai fazendo por Portugal, apesar de haver uns e umas quantas que tentam contrariar a tendência. Faremos nós melhor? Quero acreditar que sim, quero acreditar que, pelo menos, vou tentar.

    • Fevereiro 8, 2010 7:31 pm

      João, eu até me esqueci de referir no texto um ponto importante. Por cá, em alguns casos, existem listas de espera de anos, o que é para esquecer, pois quando se precisa é quase sempre de um dia para o outro. Existem outros casos, onde apesar de supostamente o custo ser feito com base nos rendimentos, existir um ‘meio facilitador’ baseado na proposta mais alta. Quem der mais, passa à frente.

  5. Fevereiro 9, 2010 8:12 pm

    Infelizmente os lares são os novos negócios ilegais. Dão muito dinheiro e pouca despesa porque muitos dos velhos são incapazes de contar o que se passa, a maneira como são tratados. Os filhos estão de mãos atadas, não podem deixar de ganhar para tratar de quem lhes deu a vida. Espero que os velhos comecem a ter o que merecem e morram dignamente, como merecem. Abordaste um tema actual e preocupante.

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