“sem justiça, não haverá paz”
O massacre sucedeu na Praça Nisoor, no centro de Bagdad, e remonta a 16 de Setembro de 2007. Os guardas da Blackwater escoltavam um grupo de veículos americanos do Departamento de Estado. Sem razão aparente, diversos guardas da Blackwater dispararam de forma indiscriminada e mataram 17 civis iraquianos. Mohammed Kinani foi uma das testemunhas. O carro onde seguia com a sua irmã e os seus 3 filhos, foi atingido por diversas rajadas de metralhadora, e o seu filho de 9 anos acabou por morrer. Nas suas palavras, tudo estava ser devastado à sua frente, como se fosse um acto de vingança.
(um polícia iraquiano analisa os destroços de uma viatura, na sequência do massacre na Praça Nisoor)
No dia seguinte, a licença da Blackwater Worldwide para operar no Iraque, foi revogada. O Departamento de Estado dos EUA reconheceu que se perderam vidas de inocentes. Relatórios militares dos EUA indicaram que os guardas da Blackwater abriram fogo sem provocação e usaram de força excessiva. O governo do Iraque, depois de uma investigação interna, concluiu que os guardas da Blackwater não foram alvo de qualquer ataque e prometeu que estes seriam punidos. Foram feitas pelo menos, 5 investigações, e todas confirmam que o tiroteio foi injustificado e violador das regras de força letal em vigor para as firmas de segurança a operar no Iraque. Na sequência deste incidente e da revogação da sua licença, a Blackwater Worldwide mudou de nome, para Xe Services.
(Erik Prince, o homem que construiu a Blackwater)
Desde a invasão e ocupação em 2003, mais de 100 empresas de segurança privada operam no Iraque. A todas tem sido concedida imunidade do governo Iraquiano, sob um acordo assinado por Paul Bremer, chefe da Autoridade Provisória da Coligação, e do Conselho de Governo iraquiano, um corpo político provisório estabelecido depois da queda de Bagdad, em 2004. Apesar da entrega da soberania aos iraquianos, em 30 de Junho de 2004, esta imunidade tem permanecido em vigor. Uma imunidade aplicada a um número indeterminado de seguranças privadas, mas que alguns estimam que possa atingir os 100.000. Entre 2005 e 2007, a Blackwater esteve envolvida em 195 incidentes com disparos, e em 163 deles, os seus operacionais dispararam primeiro.
O papel destas empresas de segurança tem sido fundamental para libertar as forças militares de determinadas tarefas que iriam roubar efectivos e que poderiam causar mais ‘baixas incómodas’ para o governo dos EUA. Os efectivos destas firmas permitiriam que as forças militares permanecessem nos quartéis, longe dos odiados e eficazes «dispositivos explosivos improvisados» (IEDs) e sem o risco de caírem em emboscadas. Um trabalho que é pago a peso de ouro. Em 2003, a Blackwater conseguiu o primeiro contrato importante, relacionado com a protecção do Embaixador L. Paul Bremer no Iraque, num valor de 21 milhões de dólares em 11 meses. Em Novembro de 2007, a Blackwater já havia ganho mais de 485 milhões de dólares em contratos do governo.
(Nicholas Slatten à chegada ao Tribunal, acompanhados dos seus advogados)
Na sequência do massacre na Praça Nisoor, 5 seguranças da Blackwater foram acusados de homicídio e levados a tribunal. No final do julgamento, foram retiradas todas as acusações contra Paul Slough, Evan Liberty, Dustin Heard, Donald Ball e Nicholas Slatten. O juiz federal Ricardo Urbina, de Washington D.C, considerou que existiam irregularidades na elaboração do processo “No seu zelo em formular a acusação, o Ministério Público e os investigadores – do Departamento de Estado – procuraram agressivamente obter declarações logo a seguir ao tiroteio. Ao fazê-lo, a equipa de acusação do Governo ignorou avisos de conselheiros com experiência que tinham sido nomeados especificamente para os aconselhar neste caso”.
As reacções dos iraquianos a esta decisão alternaram entre a descrença, a raiva ou a resignação.
"O que somos nós – não humanos? Porque têm eles o direito de matar pessoas? É o nossa sangue assim tão barato? Para a América, a terra da justiça e do direito, o que significar libertar estes criminosos?"
(Abdul Wahab Adul Khader, um dos 20 feridos no tiroteio da Praça Nissor)
"Há mais de 1,3 milhão de iraquianos mortos que merecem justiça. Há mais de 5 milhões de iraquianos deslocados que têm direito de retornar a um país seguro e que merecem justiça. O que os Estados Unidos têm que entender é que sem justiça, não haverá paz”
(Dahlia Wasfi está a escrever um livro sobre a "ocupação ilegal do Iraque", e diz que muitos iraquianos já desistiram de esperar pela justiça ou pela democracia vinda de Washington)
Há uns meses atrás vi o filme “Battle for Haditha”, que se baseia em factos verídicos ocorridos em Haditha, no Iraque, a 19 de Novembro de 2005, num incidente classificado de massacre. Nesse dia, um «dispositivo explosivo improvisado» explodiu à passagem de uma patrulha de Marines, que seguiam em veículos. Nessa explosão morreu um soldado americano. Em retaliação, foram chamados reforços e inspeccionaram-se todas as casas nas imediações, sucedendo-se disparos que mataram 24 iraquianos, sobretudo mulheres e crianças. Numa primeiro comunicado dos Marines, foi dito que 15 civis teriam morrido na sequência da explosão do dispositivo colocado à beira da estrada, e que os restantes mortos seriam de insurgentes que teriam disparado contra os soldados. Mais tarde, um jornalista da Times Magazine colocou questões à hierarquia militar, que obrigaram à abertura de um processo de investigação, onde surgiram evidências que suportavam as acusações de que os Marines teriam morto civis de forma deliberada, incluindo mulheres e crianças. Em Dezembro de 2006, houve uma acusação formal contra 8 Marines que estiveram envolvidos no incidente. Em Junho de 2008, foram retiradas todas as acusações contra 7 dos Marines. De fora ficou o Sargento Frank Wuterich, acusado de ‘Homicídio por Negligência’ de 2 mulheres e 5 crianças, cujo julgamento continua sem data marcada.
O ódio resultante da falta de justiça será suficiente para continuar a chamar apoiantes para as fileiras da Al-Qaeda. De que servem os biliões de dólares investidos na luta global contra o terrorismo, se actos deste tipo deitam a perder todo o esforço de quem procura a paz, ou tornam ainda mais absurdas todas as mortes de civis e soldados. Em 2009 morreram 150 soldados americanos. Um número inferior aos 314 mortos em 2008, ou aos 904 mortos em 2007. Nada que se compare ao número de civis mortos desde que os EUA invadiram o Iraque, o qual se estima que possa ultrapassar os 100.000, tantos quanto o número estimado de seguranças privados a operar nesse país. Os americanos em particular, deveriam questionar se os seus impostos têm sido aplicados da melhor forma, quer a alimentar a sua máquina de guerra, quer a enriquecer empresas de segurança privada. Quem seria capaz de tolerar que os invasores do seu país, que lá entraram para derrubar um Ditador e procurar armas de destruição maciça, fossem depois capazes de actos de selvajaria, sem qualquer punição dos intervenientes? Até que ponto estes homens são diferentes dos terroristas que não hesitam em matar inocentes, com o objectivo de causar o caos e o medo? Sem justiça é impossível haver paz.
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