Um processo de paz sob constantes desafios
Entre os muitos problemas com que se debate o povo palestino, some-se também a água, ou o direito ao acesso à mesma, em quantidade e qualidade adequadas. Faqua é uma aldeia palestiniana sem um sistema de abastecimento de água ou saneamento, e sem qualquer perspectiva de alteração dessa situação nos tempos mais próximos. Existem crianças com diarreias crónicas, em consequência da água que bebem. Os pais compram a água que chega à aldeia transportada em camiões-cisterna, sabendo que ela não estará nas melhores condições para consumo humano. A questão é que não têm alternativa.
Nessa aldeia, os mais velhos sabem que a maioria das origens subterrâneas foi tomada por Israel em 1948, quando o estado foi fundado. Em 1990, como parte dos acordos de paz de Oslo, foi criado um comité israelo-palestiniano para a gestão da água, só que, os palestinianos afirmam que Israel torna quase impossível a abertura de novos poços ou a utilização da rede de distribuição de água de Israel. De acordo com um relatório do Banco Mundial de 2009, Israel mantém 80% da água obtida nos aquíferos de montanha para os cidadãos israelitas, sendo a restante destinada aos palestinos, o que é claramente insuficiente. A água é escassa, de má qualidade e vendida a preços elevados, fazendo com que os cidadãos palestinos reservem o seu dinheiro para a adquirir, em detrimento de alimentos ou electricidade. E terrenos que antes eram verdes, estão agora secos, pois a agricultura – um dos principais meios de subsistência nas aldeias da palestina – necessita de água.
Do outro lado da fronteira, Israel argumenta que o problema está na má gestão da água por parte das entidades palestinas com responsabilidade nessa matéria. Uma versão que os grupos dos Direitos Humanos contradizem, alegando que Israel disponibiliza água em quantidade e qualidade suficiente para todos os israelitas, incluindo os colonos da Cisjordânia, sendo apenas o restante partilhado com os palestinianos.
Um relatório da Amnistia Internacional revela que o consumo de água médio diário palestino atinge os 70 litros por dia, comparado com os 300 litros dos israelitas. Mais grave ainda, em alguns casos, esse valor mal atinge os 20 litros por dia, o mínimo recomendado, mesmo em situações de emergência humanitária. Por curiosidade, no topo dos consumos, estão os americanos, que gastam em média, cerca de 3 vezes mais água que os restantes habitantes do planeta. Quando comparado com o consumo no Gana, esse valor é 70 vezes superior.
Segundo a Amnistia Internacional, enquanto os colonos israelitas na Cisjordânia usufruem de jardins e piscinas, os palestinianos estão sujeitos a um conjunto de medidas que os descriminam, nomeadamente:
- O controlo total da água no rio Jordão e a utilização de 80% da água obtida num dos principais aquíferos;
- Proibição de abrir novos poços sem autorização de Israel, a qual é muitas vezes impossível obter;
- Destruição de cisternas de armazenamento de água da chuva, as quais são algumas vezes usadas para tiro ao alvo;
- Danos causados na infra-estrutura de água, causados pela invasão de Gaza no início de 2009, os quais se estimam em 6 milhões de dólares.
Mark Regev, o porta-voz do governo israelita, rejeitou todas estas acusações e alegou
Os palestinianos têm recebido milhares de milhões de dólares em ajuda internacional durante a última década e meia. Porque não investem na sua própria infra-estrutura de água?
E se a falta de água pode ser motivo para pegar em armas, então, a atitude de desafio de Israel por anteriores resoluções ou acordos, não ajudará a acalmar os ânimos. Desta vez, foi o anúncio que Israel terá autorizado a construção de 900 fogos de habitação em Gilo, na zona ocupada de Jerusalém Oriental, anexada por Israel na guerra de 1967, ignorando-se assim um pedido do enviado dos EUA ao Médio Oriente, que junto de Binyamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, tinha solicitado a paragem desse processo. Recorde-se que sob a Lei Internacional, todas as construções nos territórios ocupados são ilegais.
Nas palavras de Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca: "No momento em que estamos a trabalhar para relançar as negociações, estas acções tornam mais difícil o sucesso dos nossos esforços". Este anúncio de Israel acaba por dar força aos argumentos dos Palestinianos de que o governo de Israel não estará empenhado em atingir uma solução de dois estados, até porque, nem sequer reconhece a zona Oriental de Jerusalém como terra ocupada.
A somar a estas posições de desafio de Israel, um documentário britânico veio alegar que qualquer futuro governo conservador em Inglaterra, será desproporcionalmente influenciado por um poderoso lobby israelita existente no país. Pelo menos metade dos membros do gabinete-sombra conservador, farão parte do Conservative Friends of Israel (CFI), um de uma série de organizações de lobbies pró-Israel, existindo a suspeita que nos últimos 8 anos, o Partido Conservador tenha recebido cerca de 17 milhões de dólares do CFI. Seria interessante saber quantos lobbies deste tipo existem nos EUA a influenciar o Congresso.
Por causa de tudo isto, é fácil perceber que a Palestina tem fracos argumentos na luta pelos seus direitos.




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