Eu e o meu Slip
Um pai faz tudo pelos filhos, seja andar de teleférico ou vestir um calção Slip para os levar à Piscina. Nesse ponto, tenho enorme dificuldade em perceber o aviso na piscina que diz não serem admitidos calções largos. Touca, tudo bem. Óculos e chinelos são acessórios, e também tudo bem. Mas calções justos, colados ao corpo? Confesso que esse pormenor me fez em tempos ponderar se deveria acompanhar a Princesa Jr. na natação. Mas lá está, um pai faz tudo pelos filhos. Investiguei as ofertas e a escolha não foi fácil.
Calções compridos colados à perna, com material daqueles fatos que imitam a pele da toninha ou algo do género, só se fosse para me armar em campeão, coisa que não sou. A malta topa logo à distância o pintas que compra tudo do bom e do melhor para começar a fazer uma actividade desportiva, tendo todo o equipamento uma função meramente decorativa.
Calções tipo boxer curtos, não são maus. Assentam bem e têm um certo estilo, desde que se tenha corpinho para os usar. Esse é o cerne da questão. Em troncos de barriga lisa, nem esqueléticos, nem tipo segurança de discoteca, ficam bem. Fora desse padrão, o melhor é esquecer.
Slip, o calção que eu nunca pensei vir a usar. Uma coisa que eu só via em reportagens sobre o Calçadão do Rio, onde tipos peludos e suados desfilavam apenas com um Slip e uns ténis. Nos nossos padrões não será uma indumentária que favoreça o sexo masculino, até porque, nas nossas praias, homem de Slip só se for o Michael Phelps ou uma estrela de cinema, onde qualquer trapinho assente sempre bem e lhe dê o ar mais cool deste mundo.
Sempre que o visto travo uma luta titânica. De início tenho a sensação que não irá conseguir tapar tudo o que deve ficar tapado. Talvez seja o receio de sair da água e poder passar uma vergonha só porque algo decidiu espreitar o mundo que o rodeia. Uma coisa é vestir algo que parece assentar como uma luva, assim tipo umas calças de ganga depois de lavar. Outra bem diferente é vestir algo que parece precisar de milhares de pequenos puxões e acertos até nos sentirmos minimamente confortáveis. Coisas do Signo fazem com eu seja perfeccionista por natureza. Se somarmos a esse aspecto uma tendência para a simetria, então, torna-se muito complicado conseguir atingir um estado em que o volume da direita seja exactamente igual ao volume da esquerda. Garantidamente, uma meia hora até que tudo fique em condições. Além de não ser algo que favoreça o corpinho do comum dos mortais, acrescente-se ainda o conflito com o bronze que sobrou da praia. O branco da pele, desde a cintura até quase aos joelhos, não poderá ser disfarçado por um pedaço minúsculo de lycra onde nos esforçamos por lá caberem duas nádegas mais as partes íntimas. Fica essa imagem, à qual se adiciona uma touca, uns óculos e uns chanatos de borracha, para se perceber que quando eu passo junto à bancada onde se sentam os visitantes – devidamente vestidos e a bufar pela humidade que se sente no ar – me possa sentir a pessoa mais desconfortável deste mundo. Tento por isso entrar rapidamente para a água, onde aplico toda a técnica de Crawl, Bruços e Costas – estou velho para a mariposa – coisa que me faz esquecer tudo o resto, inclusive os calções.
Talvez fosse tempo de voltar aos Catalinas e à moda dos anos 50. Os primeiros de baixo a contar da esquerda, são o perfeito exemplo da mistura entre uns boxer curtos e uns Slip. Tapam na perfeição o que se deve tapar, podendo também a pessoa ser eventualmente confundida com o Sean Connery. Velhos tempos…






Bluewater68, hilário o seu texto e perfeito! Saiba que não sou um daqueles tipos peludos e sarados que trotam pelos calçadões do Rio de Janeiro. Ao contrário, estou mais para o tipo fora de forma e branco feito um queijo de cabra que existe bastante aqui em SP. Embora não tenhamos grandes problemas de usar slips, o maior problema se dá quando nós, aqui de SP (digo, os que não estão em forma), vamos à praia e é aquele festival de brancura. De qualquer forma, o seu texto é perfeito. Abraço!
:)) Redneck, eu estou a imaginar o Paulista «branco feito um queijo de cabra» a chegar à praia e a contrastar com quem tem possibilidades de trabalhar o bronze com frequência. O «branco feito um queijo de cabra», se for uniforme, até se admite. O problema, como já me aconteceu, foi ir em Agosto para a praia com a marca bem evidente da T-Shirt, e o braço esquerdo bem bronzeado, de andar a conduzir :))
Meu caro, isso também já me ocorreu. Em sendo brancos, ambos, estamos os dois condenados a andar feito um Papai Noel ao contrário: o que é branco no Noel nos é vermelho, e o que é vermelho nele, nos é branco. Mais um pouco e seremos umas renas zebradas. Aqui, quando ocorre desses ‘colares’ tomarem conta de nossos corpos, costumamos dizer que estamos feito camarões. E as marcas de camisetas e de sungas evidenciam ainda mais aquilo que jamais deveria ter sido exposto. Mas, como você mesmo diz, ma ke jeto, mosso? Abraço!
:) Redneck, por aqui, numa versão mais popular, aos muito brancos na praia, dizia-se que eram os “Javisol”, que era uma marca de uma lexívia
Amiguinho, simplesmente hilariante o teu texto.
Quem te conhece ri o dobro
ADORAMOS
beijos e abraços
Este é mais um item a juntar à lista “Coisas que me fazem fernicoques” :)
É dos textos mais curiosos e interessantes que já por aqui li; e tem muito espírito…adorei aquela da “simetria”, eheheh…
Abração.
Pinguim, mas o curioso é que depois de nadar um bocado, aquilo até parece que se adapta tudo e a pessoa até se sente confortável. Pelo menos enquanto está dentro de água. O vestir é que se torna na tarefa mais complicada
Ah Blue, tenho que dizer uma tolice, tu inspiras-me… mas é a favor da Princesa Mor: olha que se tens que ter essas preocupações todas em deixar tudo tapadinho é porque não está mal, não está mal ! lol
Isto os filhos é assim mesmo, é para nos lembrarem do quanto nós temos medo do ridículo. E ultrapassá-lo, ahhh, pode ser um grande frete mas também é muito libertador.
Valha-nos o nosso sentido de humor para transformar as “cenas tristes” que fazemos em cenas alegres ! rs
beijo, Mosso
Branca, por eles somos capazes de fazer tudo aquilo que antes achávamos ridículo. E acaba mesmo por algo bastante libertador, mesmo que, neste caso, a coisa tenha que ficar um pouco oprimida :))
Sabes do que é que eu me lembrei agora ? Daquele episódio do Seinfeld em que eles vão passar um fim de semana fora com uma mulher em quem o George está interessado e depois, se não me engano a amiga dela, vê o pirilau do George… e ele entra em pânico a dizer que foi da água gelada ! lol
beijo, Mosso
:)) Lembro-me bem desse episódio