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Há sorrisos que não se podem perder

Outubro 24, 2009

child_soldiers_01 O olhar de uma das muitas crianças soldado. No Congo, as várias facções beligerantes usam crianças como combatentes, carregadores, cozinheiros, espiões e escravos sexuais.

A Convenção sobre os Direitos da Criança diz que «Os Estados Partes tomam todas as medidas possíveis na prática para que nenhuma criança com menos de 15 anos participe directamente nas hostilidades. Nenhuma criança com menos de 15 anos deve ser incorporada nos exércitos. Os Estados devem assegurar protecção e assistência às crianças afectadas por conflitos armados, nos termos das disposições previstas pelo direito internacional nesta matéria»

Mesmo assim, aos 15 anos todos os sonhos deveriam manter-se vivos, e não serem perdidos no meio de Guerras,

Estúpidas… Absurdas…

child_soldiers_02 O olhar de um dos muitos monstros que existem no Congo. Peter Karim, presidente da Frente Nacional e Integracionista (FNI), responsável por recrutar muitas crianças para as suas fileiras

Falei por aqui "Unknown Soldier", das Crianças Soldado do Uganda.

«Milhares delas (estimam-se em 30.000) têm sido raptadas e obrigadas a lutar pela guerrilha»

child_soldiers_04 Ex-integrantes da milícia FNI de Karim, aguardam processamento da desmobilização. Bem evidente a idade de muitos desses ex-combatentes. Eles terão a opção de retornar à vida civil ou integração no exército do Congo, precisamente contra quem tinham estado a lutar. Muitos escolhem o exército…porque ele paga

Desta vez, a situação é a mesma, muda apenas o cenário, ou o país africano. Desta vez, fala-se das Crianças Soldado da República Democrática do Congo. Nos últimos meses, o aumento dos combates entre o exército do Congo, os rebeldes Hutu do Ruanda e outras milícias, têm provocado o aumento no rapto de crianças para servirem como soldados.

A lavagem ao cérebro destes inocentes, para os transformar em máquinas para matar, começa geralmente com eles a serem obrigados a matar um membro da própria família. Fugir também não é solução, já que a sociedade acaba por discriminá-los, fazendo com que não tenham outra opção que não seja voltar para as milícias que lhes roubaram a infância e a inocência. E em muitos casos, os abusados acabam por se transformar nos abusadores.

child_soldiers_05 Uma criança soldado é despojada das suas facas. Para muitas destas crianças, transformadas em máquinas de matar, a desmobilização representa uma perda de status e identidade

"All societal norms have been broken down here. Rape and the recruitment of child soldiers has almost become a normal fact of life." (Al Jazeera)

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Porque nenhuma criança deveria perder o sorriso

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Fotos de Cédric Gerbehaye. Em 2008, a sua obra "O Congo no Limbo", ganhou três prémios: World Press Photo * Olivier Award Rebbot do Overseas Press Club of America * Amnesty International Media Award

9 Comentários leave one →
  1. Outubro 25, 2009 8:42 am

    Andamos tão preocupados com os “enormes” problemas que constituem os casos da Maitê e do Saramago, que esquecemos os verdadeiros problemas que são os dramas passados em África nos dias de hoje, com as guerras tribais e o seu cortejo de refugiados e meninos guerreiros.
    Que tristeza…
    Abraço.

    • Outubro 25, 2009 9:51 pm

      Pinguim, em Abril de 2007, eu escrevia o texto “O que têm Atocha e Sadriya em comum?”, onde comparava o terrorismo de Atocha com o do Iraque. Foram muitos dias, semanas até, onde só se ouvia falar de Atocha. Quando escrevi esse texto, o mercado de Bagdad tinha sido palco de um atentado que vitimou 140 iraquianos e feriu mais de 150. Em 3 de Março desse ano, havia sido palco de outro atentado que vitimou 130 iraquianos. E estávamos em 2007.
      Via há pouco o Jornal da SIC. Este atentado em Bagdad, que foi mais um massacre cometido por terroristas, teve direito a uns 2m de destaque. Depois disso, o Padre que estava envolvido em contrabando de armas mereceu muito mais destaque. Recorde-se uma vez mais, as várias semanas em que se andou a falar de Atocha.
      E este drama das crianças-soldado, é mais um que vai passando escondido aos olhos de todos

  2. Outubro 25, 2009 7:33 pm

    Tem, toda a razão, Pinguim.
    BW, post muito marcante!

  3. Vinícius Beltrão Barreto hiperligação permanente
    Outubro 27, 2009 11:11 pm

    “Nenhum ser vivo deveria conhecer os horrores da guerra. Mas enquanto houver monstros lá fora cabe a nós evitar que ao menos os inocentes a conheçam”

    Essa frase foi dita a mim várias vezes quando estava sendo formado. Sou militar do quadro de carreira, tenho 24 anos, destes 5 dedicados ao exército.

    Essas crianças com certeza não deveriam estar lá. Se um adulto não deve empunhar uma arma, que dirá um adolescente.

    Falo isso porque acho estranho, não sou de comentar tópicos. Mas faço uma pergunta a todos vocês. Como vocês querem fazer algo por essas crianças ?

    O texto realmente é muito bem escrito, mas isso realmente vai mudar a situação delas ?

    Muitos de vocês que se dizem tão intelectuais, geralmente, são os primeiros a criticar o Exército e seus métodos. Mas quando estiverem sentados vendo televisão ou mesmo escrevendo se perguntem uma coisa, o que estou fazendo realmente vai mudar algo ?

    Pois enquanto vocês nos criticam eu tenho amigos no Haiti tentando pacificar uma guerra civil, tenho amigos na fronteira com Colômbia tentando combater as FARC, tenho amigos nos países africanos (os mesmos que vocês falam) tentando por ordem nesses países. E sabe o que todos eles e eu temos em comum, lutamos por uma guerra que não é nossa. Lutamos e muitas vezes nos sujamos em busca da paz para as gerações que ainda irão nascer.

    Mas não pedimos nada demais em troca, só pedimos que se lembrem de nossos nomes como soldados e não como monstros. Mas sabemos, pois muitas vezes ouvimos, que para a maioria de vocês somos apenas trogloditas com métodos ultrapassados.

    Só lembrem de uma coisa nem tudo é do jeito que gostaríamos e tenham certeza que ninguém deseja mais a paz do que nós militares. Pois nós conhecemos como ninguém como a guerra é algo triste.

    Só que ao contrário de muitos não sentimos vergonha ou medo de nos sujarmos. Ao contrário sentimos orgulho quando estamos sujos, com fome, com sede, cansados e uma senhora ou uma criança que estava num desses locais vem nos dizer: Obrigado ou simplesmente sorriem para nós.

    Nessa hora vemos e sabemos o porque nos orgulhamos de vestir essa farda, mesmo que muitos não compreendam. Mesmo que custe muito de nossas vidas pessoais.

    “Se mil vidas tivesse, mil vidas daria para a minha INFANTARIA”

    Acho que no final isso acabou sendo um desabafo.

    • Outubro 28, 2009 2:22 pm

      Vinícius Barreto, dou-lhe as boas-vindas a este espaço. Li que não costuma comentar em blogues. Por isso, se este texto o moveu a escrever, então é algo que me deixa bastante satisfeito, já que recebi um contributo bastante pertinente e importante para este assunto.
      Peço no entanto que não me coloque na figura de intelectualóide que gosta de falar da paz, que tudo quer mudar sem mexer uma palha e que está contra todos aqueles que andam a combater ou apenas a prestar serviço militar. Não faça isso porque não corresponde de forma alguma à minha posição sobre este assunto. Repito «não serem perdidos no meio de Guerras, Estúpidas… Absurdas…», porque o são. Mas isso não significa que não tenham de existir, e sobretudo, que muitos soldados não tenham de ir para o meio delas, para que outros, entre outras coisas, possam ficar ao longe a escrever utopias, gozando do esforço feito por quem se arrisca a perder a vida com uma bala ou bomba na estrada.
      Aquilo que se pode fazer por estas crianças? Uns podem estar na linha da frente, a tentar manter a paz em locais onde a guerra parece ser a única forma de resolver as coisas, e outros, podem escrever coisas como este texto, a tentar alertar os restantes para este tipo de dramas os quais acabam por passar despercebidos no meio de outras guerras, para onde estão apontadas todas as câmaras de televisão. Podemos contribuir financeiramente para a UNICEF, esperando que tenham meios no terreno que consigam lidar de forma eficaz com este drama, ajudando indirectamente a que crianças possam alguma vez recuperar o sorriso que lhes roubaram, que olhem para o futuro num mundo em paz e que esqueçam a guerra.
      Haverá quem não compreenda ou aceite o vosso papel, porque há, mas quem pensa assim talvez julgue que muitas situações se consigam resolver apenas com um estalar dos dedos. Os locais que indicou são exemplos onde a paz vai sendo mantida por soldados enviados em missões da ONU, da mesma forma que soldados portugueses estão na Bósnia. E são esses soldados que são verdadeiros heróis, arriscando-se a perder a vida num país londe da sua terra naltal, para que os povos locais possam ter um futuro com a paz no horizonte. São também esses mesmos soldados que acabam por ser muitas vezes esquecidos. Se puder, espreite este link Russell Lee Klika – O Iraque visto pelos olhos de um soldado americano, mais do que um conjunto bonito de fotografias, existe um lado humano que é retratado de forma exemplar, salientando que os povos locais são capazes de sorrir por quem está no terreno a garantir-lhes a paz «O sorriso aberto daquele soldado, talvez para uma criança que assistia ao passar da patrulha, poderia desaparecer no momento seguinte, devido a uma emboscada ou a uma mina. Numa fracção de um segundo, um atirador furtivo poderá acabar com aquela imagem de descontracção, fazendo com que os restantes ficassem a chorar a perda de um irmão de armas, alguém por quem cada um está disposto a dar vida se for necessário.».
      Existirão injustiças e esquecimentos, mas garantidamente que esse «Obrigado ou simplesmente sorriem para nós» será uma das melhores recompensas que podem ter.
      «trogloditas com métodos ultrapassados»? Aqui pode ter a certeza que não se estará a cruzar com quem tenha essa opinião.
      Termino agradecendo uma vez mais o seu comentário, que você o classificou com um desabafo. Para mim foi um grande contributo para este tema. Que vocês consigam garantir que muitas crianças voltem a recuperar os sorrisos que lhes roubaram.

  4. Vinícius Beltrão Barreto hiperligação permanente
    Outubro 28, 2009 10:19 pm

    Antes de tudo quando perguntei o texto mudaria a situação delas não pensei que todos deveriam pegar sua identidade e se alistarem, a unica coisa em que pensei é que às vezes é preciso mais do que textos. Mas não disse que eles não eram importantes, só que muitos dos que escrevem (não todos, mas infelizmente a maioria) falam muito mas pouco fazem.

    Quando escrevi nem percebi muito o que estava escrevendo, como disse apenas deixei o que me vinha a cabeça sair. Por isso algumas vezes pode até parecer que falava para você, mas não estava apenas falando para aqueles que tantas vezes me criticam.

    E são justamente esses que não conhecem o sabor da fome, ou cara da miséria. Falam dentro do carro de como os políticos estão errados em não fazerem nada pela a parte da população mais pobre, mas quando chega uma pessoa para entregar um planfleto fecha o vidro e diz: Deviam proibir isso, só fica atrapalhando o trânsito.

    Sabe eu realmente acredito naquilo que faço, se não acreditasse nada adiantaria. E como você disse quando uma senhora do interior do amazonas nos diz obrigado porque levamos o remédio até ela ou uma criança sorri para nós quando entregamos parte de nossa ração operacional para ela no Haiti, realmente não existe sensação melhor.

    Como disse tenho 24 anos, aos 16 entrei para uma faculdade federal (UNB), aos 17 fui convocado para o serviço militar obrigatório onde permaneci até meus 21, com 21 fui para a escola militar onde fiquei 2 anos sendo formado. Para isso tive de largar a Federal e um futuro emprego de 7 mil reais, para ser hoje 3º SGT e ganhar 2,7 mil reais.

    Se me arrependo ? Não, como disse no final se mil vidas tivesse, mil vidas daria a INFANTARIA.

    Sou um idealista ? Sim, mas Luther King também era.

    Não sei se vou continuar a responder, mas só queria lhe pedir uma coisa.

    Nunca desista de mudar algo, por mais insignificante que esse ato pareça.

  5. Novembro 7, 2009 2:21 pm

    Também na Somália
    “Youth lured to fight in Somalia”
    «Somalis living in northern Kenya have accused the government in Nairobi of secretly recruiting and training youths from the region as soldiers to go to fight for the transitional Somali government against al-Shabaab fighters.»

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