"Unknown Soldier"

2009 Agosto 12
by bluewater68

"Unknown Soldier" é uma BD diferente das restantes. Baseada em factos reais e de uma enorme violência, retrata a Guerra Civil do Uganda, um dos conflitos mais longos no continente africano, responsável por milhares de mortos e várias centenas de milhares de deslocados. Como todas as guerras, estúpidas, o Uganda tem sido palco de enormes atrocidades e indiscriminadas violações dos direitos humanos, sendo as crianças o elo mais fraco. Milhares delas (estimam-se em 30.000) têm sido raptadas e obrigadas a lutar pela guerrilha.

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Uma guerra estúpida e perfeitamente absurda. Para que se entenda, em 1987, foi formado o LRA (Lord’s Resistance Army), um grupo de guerrilha que se revoltou contra o governo do Uganda, chefiado por Joseph Kony, um monstro que se auto-proclama "Mensageiro" de Deus. O LRA pretendia estabelecer um governo Teocrático – um sistema de governo onde as acções política, jurídica e policial são submetidas às normas de uma religião – que seguisse os ensinamentos da Bíblia, dos 10 Mandamentos e das tradições dos Acholi, um grupo étnico do norte do Uganda. Só que, o LRA tem cometido atrocidades que contrariam todos os ensinamentos que possam defender, desde assassinatos, raptos, mutilação, escravatura sexual de mulheres e crianças, e utilização de crianças como soldados, sendo os Acholi as principais vítimas de todas as barbaridades. Ironicamente, o LRA defende a luta contra as forças do governo do Uganda, por considerar que as suas políticas são prejudiciais para os Acholi.

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"Unknown Soldier" é uma BD escrita por Joshua Dysart e desenhada por Alberto Ponticelli, com publicação da responsabilidade da Vertigo. O personagem principal é Dr. Lwanga Moses, um Ugandês cuja família tinha fugido para os EUA quando ele tinha 7 anos. Muitos anos mais tarde, ele volta ao Uganda acompanhado da sua mulher, Sera, esperando que os seus conhecimentos médicos possam ajudar um povo que nos últimos 15 anos só tinha conhecido os horrores de uma guerra civil, só que, Dr. Lwanga Moses acaba por ser mais uma vítima do conflito, acabando por ficar desfigurado. Para que se entenda esse acontecimento, saído em parte da imaginação de Joshua Dysart, importa referir que ele fez uma viagem ao Uganda, onde conheceu de perto a brutalidade do conflito, regressando com milhares de fotografias que foram depois utilizadas como referência nos desenhos de Alberto Ponticelli. Entre descrições e pormenores que nunca poderiam ser publicados numa BD, Joshua Dysart ouviu um relato de uma antiga criança-soldado, que lhe contou ter sido uma vez obrigada a matar uma mulher à dentada.

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Ainda retirado do site de Joshua Dysart, destaque para o trabalho de Heather McClintock, uma fotógrafa que tem dedicado parte do seu trabalho a registar a pureza e a essência da condição humana no norte do Uganda, destacando a força de vontade, esperança e determinação daqueles que já sofreram bastante.

Retirado do seu trabalho “The Innocent: Casualities of the Civil War in Northern Uganda” (nota: contém foto bastante chocantes)

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Como todas as guerras, Estúpidas…   Absurdas…

 

"Peace still remains a distante dream for the countless victims of this long war."Resolve Uganda

9 Respostas leave one →
  1. 2009 Agosto 12

    Obrigada :)
    Nem imagina a pistas que me deu ;)
    uma braço

  2. 2009 Agosto 12

    Fantástico post! :-o
    Ao ler esta info, veio-me à memória o filme Blood Diamond (Diamante de sangue), nomeadamente a famosa punchline: T.I.A. (This is Africa)…
    De facto a BD actual está a assumir uma posição interventiva no que concerne a certas realidades sócio-políticas internacionais, tendo perante as mesmas uma atitude de denúncia.
    Obrigado pela dica. Prestaste um grande serviço público. ;)

    • 2009 Agosto 12

      Maldonado, lembraste-me bem desse filme e eu fiquei à procura de uma frase bem forte, de uma cena do início do filme, que retratava na perfeição o horror que se vivia naquela na Serra-Leoa. A tal em que o guerrilheiro, com uma catana, pergunta à vitima por onde é que queria o corte
      Soldier: [Before chopping off the hand of a man] Short sleeve or long sleeve?
      Num dos textos da Aministia Internacional, ficava uma passagem demonstrativa desse termo T.I.A. e de como África tem sido palco das maiores barbaridades, sem que alguém intervenha,
      The Revolutionary United Front (RUF) began its jewelry heist in 1991, using the support of neighboring Liberia to capture Sierra Leone’s vast wealth of diamond mines. Since then, the rebels have carried out one of the most brutal military campaigns in recent history, to enrich themselves as well as the genteel captains of the diamond industry living far removed from the killing fields. The RUF’s signature tactic was amputation of civilians: Over the course of the decade-long war, the rebels have mutilated some 20,000 people, hacking off their arms, legs, lips, and ears with machetes and axes. This campaign was the RUF’s grotesquely ironic response to Sierra Leone President Ahmad Tejan Kabbah’s 1996 plea for citizens to “join hands for peace.” Another 50,000 to 75,000 have been killed. The RUF’s goal was to terrorize the population and enjoy uncontested dominion over the diamond fields.
      Aquela BD, pelo tema que aborda, merece todo o destaque. E eu, gostaria bastante de estar na posse de uma daquelas publicações

  3. 2009 Agosto 13

    Bem a propósito, copiado do blogue da Popelina
    “Sabemos que o horror, em todas as suas manifestações, as mais cruéis, as mais atrozes e infames, varre e assombra todos os dias, como uma maldição, o nosso desgraçado planeta, mas África parece ter-se tornado no seu espaço preferido, no seu laboratório experimental, o lugar onde o horror mais à vontade se sente para cometer ofensas que julgaríamos inconcebíveis, como se as populações africanas tivessem sido assinaladas ao nascer com um destino de cobaias, sobre as quais, por definição, todas as violências seriam permitidas, todas as torturas justificadas, todos os crimes absolvidos. ”
    ler mais, ler mesmo em o Caderno de Saramago

  4. 2009 Agosto 17

    A pôr a leitura em dia, gostei mesmo muito deste. Beijinhos e boas férias.
    Ana

  5. 2009 Agosto 20

    BW,
    as fotos de Heather McClintock são brutais mas extraordinárias.
    A guerra é o maior dos absurdos!
    Bjs
    Ana T.

    • 2009 Agosto 20

      São brutais, chocantes, mas conseguem manter a dignidade daqueles que sofrerama actos de violência indiscritível. E no meio daquilo, surgem outras de enorme beleza, como aquela que eu copiei, das 3 crianças.

  6. 2009 Agosto 27

    Blue,
    ainda não tinha visto este teu post, só li o teu comentário, porque no dia a seguir fui de férias. Tens razão, é mesmo terrivel o que se passa naquele continente.
    e sim, há imensa beleza no meio da dor e da violência. e coragem. por lá ter trabalhado muitas vezes, sei que de cada viagem voltei muito mais rica.
    um grande abraço para ti…

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