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Hemohomofobia

Julho 30, 2009

Ainda sobre o Gabriel Olim, Presidente do Instituto Português do Sangue, acabei de ler uma entrevista publicada no I, com o título "Gays que não se assumam devem ser processados", a qual que pode ser lida aqui.

Gabriel Olim

Entre tudo o que ele disse, destaco estas duas frases,

fico estarrecido com afirmações de líderes de movimentos activistas que vêm dizer que vão passar a esconder o facto de serem homossexuais. E ninguém se revolta? Isto é deliberadamente querer introduzir no circuito sangue contaminado. Ética, moral e criminalmente pode ser processado.

A malha é muito apertada. Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação. Quem quer vir dar sangue não vem com esta atitude.

Percebeu? Eu não.

E a certa altura, é feita a pergunta que eu também já tenho colocado «Um casal homossexual com uma relação estável e sem outros parceiros tem mais risco que um casal heterossexual na mesma condição?», ou melhor, eu até tenho colocado a questão nestes termos «Ele vai ser operado, e o seu companheiro (porque a lei tarda em ser alterada) de longa data, quer ir dar sangue e não pode?». E a resposta é esta

Essa é uma pergunta difícil. A verdade é que não temos ainda, apesar das tentativas, um questionário que nos permita fazer a divisão. O comportamento de risco é analisado e avaliado, não sabemos qual é o resultado. Pode ser aceite ou não ser. Se a pessoa diz que não teve outro parceiro e o parceiro também garante que não teve outro, a decisão pode ser a de aceitar. Mas a experiência também nos diz que relações que em princípio eram totalmente monogâmicas não são tão monogâmicas assim.

Não, a pergunta não é difícil. Arranjar uma resposta que não seja absurda é que é difícil. Pode ser ou não aceite? Mas afinal, tudo dependerá da ‘sensibilidade’ do inquisidor que decide autorizar ou não o acesso à dádiva de sangue? Se a pessoa diz que não teve outro parceiro e o parceiro também garante isso? Valha-me tudo. Então o homossexual – armado em provocador – tem de ir acompanhado pelo seu parceiro para ir dar sangue, para que este confirme a sua idoneidade? E os casais monogâmicos, não o eram assim tanto…mono, mas quais?

image

Em 2006, o IPS mudou as regras.
O que fez foi retirar a palavra homossexual e substituir por comportamento de risco. Politicamente correcto. Na prática, manteve-se o mesmo.

Lembrei-me do “Dadinho” e só me apetece dizer: Discriminação é o caralho, pôrra!

 

 

14 Comentários leave one →
  1. Julho 30, 2009 12:17 pm

    Este, no fundo tem pena é de não ser…

  2. Julho 30, 2009 2:12 pm

    Inqualificável! Nojento!
    Este senhor só pode ter graves problemas de índole sexual e deformação de personalidade!
    um abraço
    otília

    • Julho 30, 2009 2:36 pm

      Otília, há dias, quando passou a notícia sobre esta questão e o senhor Gabriel Olim falou na RTP, eu ainda lhe dei o benefício da dúvida, pois cada história tem sempre duas versões e poderia estar a escapar-me algo. Mas entretanto já estive a ler algumas coisas sobre a realidade noutros países e até já tenho uma opinião sobre isto.
      Só que esta entrevista mostra bem a pessoa que este senhor é. Entre muitas respostas politicamente correctas, teve saídas que indiciam a tal «deformação de personalidade» que você bem refere. Uma pessoa assim não pode estar à frente do IPS.

  3. Julho 31, 2009 11:30 am

    Fico atordoada…
    Parece uma argumentação saída de um qualquer quadradinho de ficção…
    Há pessoas assim???
    Pide, inquisição-mor… qualquer dia adentram-nos pela alma…
    Seria mais fácil resolver as coisas à paulada, isto é, terminar com a recolha de sangue que, se calhar, tem vindo a dar prejuízo aos cofres do estado…
    Águázul, às vezes penso-me forte, mas estas pérolas tiram-me do sério.
    :-(

    • Julho 31, 2009 11:39 am

      Denise, este tema tem servido para eu ir lendo sobre a realidade noutros países, e já deu para ver que o ‘problema’ não sucede só por aqui. Só que a informação é tanta, e o tempo tão curto, que não tem dado para compilar nada. Mas através do blog “Arrastão” (creio), acabei por ir dar a um post que abordava este assunto numa perspectiva mais ciêntifica. E já que estou com a mão na massa, aproveito para transcrever uma opinião que lá deixei.

      Bom dia Sofia Santos,
      nem sei bem como aqui vim parar, mas quero aproveitar para deixar um comentário. Eu saliento aquilo que disse Olga Magalhães por ser precisamente isso que está em causa «A discriminação resulta, do meu ponto de vista, da exclusão, por princípio, dos homossexuais masculinos, não cuidando de saber têm ou não comportamentos de risco.» e repare na resposta que deu «embora não fale de homossexuais, adopta a norma que exclui permanentemente os MSM de doar sangue». Repare que se estão a usar os meios aos dispor da comunidade científica para a redução máxima do risco de um acto médico, apenas e somente com base na orientação sexual. O presidente do IPS começa por afirmar que esconder a homossexualidade deveria ser criminalmente processado, para a seguir alegar que «Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação». Será que toda esta celeuma não terá razão de ser pelas afirmações do senhor Olim?
      Mas veja isto. Imagine um homossexual pretende dar sangue porque o seu companheiro de longa data vai ser operado. Admitindo que ele assume a sua homossexualidade, não por provocação, mas porque quer ser sincero com o questionário e responsável como cidadão, irá certamente ficar impedido de o fazer. Estamos a falar de um casal que não terá comportamentos de risco. Mas também nesse aspecto, o senhor Olim fez questão de frisar que «Se a pessoa diz que não teve outro parceiro e o parceiro também garante que não teve outro, a decisão pode ser a de aceitar. Mas a experiência também nos diz que relações que em princípio eram totalmente monogâmicas não são tão monogâmicas assim» (se isto não é discriminar…). Na experiência do senhor Olim, os casais masculinos não são de fiar.
      Agora veja o caso do respeitável chefe de família, que até gosta de ir gastar uns euros à casa de Alterne, onde vai tendo uns contactos mais íntimos, nem sempre de forma protegida. E mesmo com preservativo, o senhor Olim diz que «Há preservativos que se rompem, pode haver fuga de líquidos, outros contactos. Não estamos a dizer que não aceitamos homossexuais, mas que não aceitamos comportamentos de risco.». Ora, o tal chefe de família, que será pessoa idónea perante o entrevistador, porque nem ele confessa a sua vida paralela em casa e muito menos o fará perante um desconhecido, poderá ficar apto a dar sangue. O seu comportamento será reprovável, devendo ser criminalmente processado, mas muito certamente irá dar sangue, apenas porque se assumiu Heterossexual.
      Por vezes, os critérios científicos podem ser discriminatórios e podem estar a precisar de ser alterados. Por vezes, existem pessoas que não são as mais habilitadas para ocuparem determinados cargos, mesmo que possam ser excelentes técnicos. Talvez o único sangue de confiança seja o da Irmãs Carmelitas.
      Termino a agradecer a informação que disponibilizou, pois este tema tem servido para fazer várias pesquisas na Net, no sentido de perceber qual é a realidade noutros países. Já vi que este ‘problema’ não é apenas nacional.

  4. Julho 31, 2009 11:46 am

    O vizinho sotaventino é um utópico… Já leu o Trinfo dos Porcos? É que todos os animais são iguais, mas há uns mais iguais que outros.
    Mutatis mutandis, há grupos de risco e há grupos de riso, perdão, risco: de um lado, os perigosos homens homossexuais; do outro os heterossexuais promíscuos – mas hetero -, as mulheres adeptas do sexo anal (que é o que os homens homo praticam) – mas hetero -, os simpatizantes de swing – mas hetero-, sem mencionarmos sequer os restantes grupos de risco que nem raiam a sexualidade.
    Eles não podem adoptar, por que haveriam de doar sangue. Aliás, tendo em conta a força do lóbi, nem votar dever-lhes-ia ser permitido.
    No meio disto tudo, pergunto-me onde ficam os bi, os trans, os pans e as virgens reconstituídas…

    Gabriel Olim terá sido, certamente, discípulo de James Watson…

  5. Julho 31, 2009 9:19 pm

    Casar ou adoptar. Subscrevo. Só não sei se há um que venha antes e outro depois ou se não estarão em paralelo. . Não me parece que o amor escolha orientações sexuais.

  6. Agosto 4, 2009 2:09 pm

    Nunca recusaram o sangue do meu irmão e ele sempre respondeu prontamente que é gay quando vai dar sangue… E ele dá à anos…
    Mas, mesmo assim, a lei é uma vergonha. Como é suposto a lei instituir valores quando estes estão deturpados e contra a própria lei da igualdade e as normas da igualdade europeias?
    Admira-me muito a comunidade europeia não se manifestar.

    • Agosto 4, 2009 2:39 pm

      Vasco,
      se tivesse sido um acto isolado, eu diria que teve sorte com o entrevistador. Na entrevista ao Olim, é dito a certa altura
      P: Qual é a pergunta que faz com que a exclusão seja pelo comportamento e não pelo facto de serem homossexuais. É-lhes perguntado se usam ou não preservativo?
      R: Pode ser perguntado. Temos dezenas de médicos a fazer rastreios, cada um tem a sua técnica.
      , para depois ele próprio dizer que Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação. Quem quer vir dar sangue não vem com esta atitude.
      Mas como é um acto repetido ao longo do tempo, esse facto só contradiz a lamentável postura que este Gabriel Olim apresenta. Talvez alguns entrevistadores façam ouvidos moucos ao ‘chefe’.
      Quando à Europa, pelo que já li, o ‘problema’ é geral. Neste texto existem vários dados sobre a realidade europeia. Cito
      Em Março de 2008 o Conselho Europeu produziu a Resolution on Donor Responsibility and Limitations of the Right to Donate Blood or its Components – Resolution CM/Res (2008)5 – que conclui que: (…) the fundamental right of the patient to receive the safest possible blood overrides all other considerations, including individuals’ willingness to donate blood. This resolution was adopted by all Member States. (…). Nesse mesmo documento existe uma tabela com os Estados membros que seguem o critério de exclusão de homens que têm sexo com homens (MSM) e os que não seguem, quais os motivos e quais as orientações seguidas. De um total de 27 países, 9 não seguem as guidelines (este documento é de Março de 2009).

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