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MAD MEN

Julho 27, 2009

Tive o prazer (mesmo) de assistir à estreia da série MAD MEN (RTP2, 6ª Feira, 22:40), uma das mais badaladas dos últimos tempos. A contribuir para o sucesso e qualidade desta série, estão as 16 nomeações para os Emmy de 2009, incluindo a de Melhor Série Dramática, e o facto de ter sido criada por Matthew Weiner, argumentista e produtor dos “Sopranos”.

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A acção decorre no início dos anos 60, em torno da fictícia agência de publicidade Sterling Cooper, situada em New York. O personagem principal é Donald Draper (John Hamm), um publicitário brilhante que vende o sonho americano, sendo um exemplo perfeito de “vícios privados, públicas virtudes”. Ele é o elo principal para mostrar os vícios e os defeitos daqueles que o rodeiam no trabalho, e as aparentes virtudes de quem segue uma vida perfeita de dona de casa num pacato bairro nos subúrbios de New York.

Esta série teve a sua estreia nos EUA em 2007, tendo sido produzidos 13 episódios. O sucesso foi enorme e a 3ª temporada, já tem estreia marcada para o próximo dia 16 de Agosto. Serão no total 39 episódios que poderemos (ou não) vir a ter o prazer de ver por cá. Fica também a curiosidade da excelência desta série não ter sido promovida pelo já previsível HBO, mas sim, pelo canal AMC.

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O primeiro choque com a série é provocado pelo tabaco e todo o fumo que é expelido pelas gargantas dos actores, ficando uma névoa a pairar em todos as salas, fazendo lembrar locais clandestinos onde se jogam maratonas de Poker, de atmosfera bastante pesada. Nós, que vivemos numa época onde o tabaco já foi banido dos locais de trabalho e dos espaços fechados, acabamos por ficar boquiabertos quando vemos três jovens publicitários a apanhar o elevador, fumando dentro deste como se estivessem a saborear um inofensivo chupa-chupa. Esta série é um verdadeiro pesadelo para quem esteja a querer deixar de fumar, ou para quem tenha deixado de fumar e tenha ficado hiper-sensível com os cheiros. Talvez esteja errado, mas fiquei com a sensação que em todas as cenas, houve sempre um actor que fumou um cigarro.

Aquela era a época em que o cigarro era Rei. Um prazer intenso que todos faziam questão de ter e abusar, nem que fosse para imitar a imagem vendida pelas estrelas de Hollywood. Aquele foi o momento em que uma tal Selecções do Readers Digest, publicou um estudo que até dava a entender que o tabaco poderia ser prejudicial para a saúde e que estaria na origem da maioria dos cancros do pulmão. Um facto que, podendo ser bastante prejudicial para as tabaqueiras, acabou por ser mais uma oportunidade para Donald Draper brilhar e fazer jus à sua fama de melhor publicitário de New York.

Ainda meio atordoados com tanto fumo, somos depois brindados com diversos copos de Whisky ao longo do dia. Que foi!? Existia alguma regra que dissesse: Se trabalhar não beba? Um copinho puxa um cigarro, um cigarro puxa um copinho, e toca a aproveitar antes que alguém se lembre de criar uma ASAE.

Cínico, subversivo, negro, amoral e machista. Se fumar dentro do elevador era um acto banal, também seria era ter uma conversa onde se dizia que as secretárias serviam, entre outras coisas, para ‘aliviar as tensões’ dos altos quadros masculinos da empresa. Não achas que ela ouviu?, dizia um dos publicitários ao sair do elevador, referindo-se a uma nova secretária que ia começar a trabalhar nesse dia É bom que oiça, para saber aquilo que a espera! Foi a resposta.

Eles estavam a referir-se a Peggy Olson, uma das personagens centrais desta série, que irá secretariar Donald Draper. No seu primeiro dia de trabalho, ela foi apresentada aos restantes por Joan Holloway, a chefe das secretárias, que terá chegado a esse posto, devido sobretudo aos seus atributos físicos e ao facto de ter ‘rodado’ com alguns dos elementos chave da agência. Nessa apresentação, Peggy Olsen ouviu as colegas dizerem que deveria usar uma saia que mostrasse mais as suas pernas, ou usar uma roupa que destacasse a sua cintura, pois isso ajudaria à sua presença na agência.

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Assédio Sexual? Isso é um termo muito forte que só surgiu muito depois daquela época. A mulher tinha um papel absolutamente secundário no sucesso da empresa, e era constantemente assediada, vulgarizada profissionalmente e usada sexualmente pelos homens de negócios, os quais, mantinham a sua fachada dos valores morais e familiares para essa época, junto das suas fiéis e dedicadas esposas, que passavam os dias a cuidar dos filhos e das casas, em pacatos bairros longe do rebuliço do centro das grandes metrópoles.

Nesta cena, Peggy Olson mostra-se bastante revoltada junto de Joan Holloway, e comenta Porque é que sempre que um colega daqui te convida para almoçar, acha que tu serás a…Sobremesa?

Veja-se o exemplo de Roger Sterling, um dos sócios gerentes da agência, que tem este ‘poético’ discurso para Joan Holloway

Roger Sterling: Look, I want to tell you something because your very dear to me and I hope you understand it comes from the bottom of my damaged, damaged heart. You are the finest piece of ass I ever had and I don’t care who knows it. I am so glad I got to roam those hillsides.
Joan: Stop it.

Ou esta resposta à pergunta de Donald Draper

Don Draper: Let me ask you something, what do woman want?
Roger Sterling: Who cares?

Don Draper é o homem de sucesso que todos ambicionam ser. Ele é capaz de garantir um importante contrato publicitário com uma grande tabaqueira, ou capaz de arruinar um negócio de milhões de dólares, apenas porque tem sentada à sua frente uma mulher com ideias próprias, inteligente, bem sucedida e ingénua ao ponto de pensar que ele é capaz de dar razão à máxima «O cliente tem sempre razão». Perante essa afronta, a sua resposta foi I’m not going to let a woman talk to me like that!

Mais tarde, a pedido de Roger Sterling, Don Draper combina um encontro com o tal intimidatório ser feminino que nessa tarde lhe tinha tido a ousadia de questionar as suas sempre brilhantes ideias, e que ele não teve problemas em enxovalhar com a sua prepotência e orgulho machista, mesmo tratando-se de uma importante cliente. Todas as possibilidades de reparar o erro desapareceram quando ele lhe disse a propósito dessa ‘coisa do amor’ The reason you haven’t felt it is because it doesn’t exist. What you call love was invented by guys like me, to sell nylons. You’re born alone and you die alone and this world just drops a bunch of rules on top of you to make you forget those facts. But I never forget. I’m living like there’s no tomorrow, because there isn’t one.

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Don Draper é o tipo de boa pinta, que vemos na cama com uma mulher que não será a sua esposa. Aliás, ao longo de todo o episódio não existe qualquer menção ao seu estado civil. Mas no fim, Don Draper apanha um comboio que o levará a um distante e pacato bairro do subúrbio, onde numa típica casa americana estará à sua espera uma linda e dedicada esposa, que aparentemente cumprirá à risca o papel que lhe está reservado na sociedade americana do início dos anos 60: uma exímia dona de casa que abdicará de qualquer carreira profissional, esposa fiel, mãe de dois lindos filhos, que garantirá o cumprimento dos valores morais e familiares. Só que, por baixo dessa capa…

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Uma série onde os pormenores de reconstituição de época são exemplares. Por curiosidade, refere-se que é uma série com elevados custos de produção, onde cada episódio custa cerca de 1,7 milhões de euros.

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Uma série que nos mostra uma sociedade que valorizava os bons costumes, mas onde os homens eram livres para satisfazer os seus vícios

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Casamentos de fachada onde um homem ia para clubes de strip, não para ver quem se despia, mas porque eram locais onde ele podia ver (e apreciar) outros homens.

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Casamentos de fachada, onde a secretária e amante acabava por conhecer a ‘outra’nas festas do escritório: a esposa dedicada que passava os dias a coscuvilhar com as vizinhas em reuniões do Tupperware.

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Mas em muitos aspectos, seria essa sociedade de há 50 anos atrás, muito diferente da actual? E já me esquecia de referir a cena em que Peggy Olson vai ao ginecologista para que este lhe receitasse a pílula. O ar com que o médico lhe diz para não ser marota, enquanto vai fumando um cigarro e lhe pede para abrir as pernas para a observar, é algo delirante.

Se esta série é uma imagem fiel da sociedade americana do início dos anos 60, então, não admira que os anos seguintes tenham sido de absoluta loucura, libertinagem, ou que tenham surgido muitos dos movimentos feministas.

A mulher tinha um papel secundário na sociedade, e os homens, eram na sua maioria uns sacanas.

Excelente e imperdível. Restam ainda 38 episódios para saborear um grande momento televisivo. Se puder, não perca, 6ª Feira, RTP2, 22:40.

MAD MEN

12 Comentários leave one →
  1. Julho 27, 2009 4:05 pm

    Não vi, mas…
    Algumas fotos parecem mesmo fotos da época, os tons que se usavam também.
    Fez-me lembrar o “Casei com uma feiticeira”, em que o marido também era publicitário e apareciam várias cenas na agência, lembras-te disso ?
    Pois, se as nossas mãezinhas foram educadas assim (a pílula, o movimento feminista e o Paz e Amor chegaram cá bem mais tarde), entende-se, por um lado, a educação e os espartilhos que tentaram nos impingir. A nós filhas.
    E que os filhos fossem tratados de berço como uns reis.
    (Por um lado… porque por outro é lamentável que nos desejassem o mesmo calvário… rs)

    Também me lembrei que haverá quem veja nessa série os bons velhos tempos.
    Hoje, em que há “mulheres tipo Sexo e a Cidade”, é que o mundo está perdido ! lol

    beijo, Mosso

  2. Setembro 9, 2009 11:38 pm

    Bem, agora voltei para falar com conhecimento de causa.
    E já estou apanhadinha.
    É o que disse acima, transporta-me mesmo para as séries que se viam dessa época, a reconstituição está fantástica, os objectos de cena totalmente fiéis, is figurinos, as cores, as cores são tão típicas da época !
    E depois o que disseste, cigarros e mais fumo e mais whisky e mais machismmo… é uma viagem, estou mesmo a gostar, é credível e envolvente em todos os aspectos. É o mundo modelo dos meus papás… rs
    E o enredo… aquele truque refinado das ostras e do vinho, do elevador “avariado”, a culminar no vômito ! E nas formalidades a aceitar aquilo muito bem, muito natural ! rs

    Love it !

    • Setembro 10, 2009 11:05 am

      Branca,
      estou completamente viciado naquilo, se bem que este último episódio não foi assim grande coisa. Divinal o truque das ostras e do vinho, mas importa referir o que deu origem a isso. “Ai atiraste-te à minha mulher e pensas que tudo se resolve com a desculpa da bebedeira e oferta de uma garrafa de vinho? Espera pela resposta” :)
      Neste último, o tipo asqueroso queria que a sua escrita fosse publicada numa revista ou jornal, e insiste para que a mulher vá fazer o pedido a um ex-namorado. Ela recusa-se a ir para a cama com esse tipo e lá lhe consegue a publicação, mas numa revista de divulgação fraca. Apesar disso, o asqueroso ainda lhe disse que ela deveria ter tentado que ele ficasse melhor. Tem pormenores divinais. Machismo que nunca mais acaba. É para ver e rever

  3. Setembro 29, 2009 9:37 pm

    O último episódio foi tão sumarento !!!
    Depois, quando tiver tempo venho aqui comentá-lo contigo…

    • Setembro 30, 2009 9:30 am

      Branca, sumarento? Eu já me estava a benzer com tanto sumo :)
      Quase 50 anos depois desse tempo, existirão muitas situações idênticas em muitos espaços relacionados com a Publicidade, Moda e Cinema, garantidamente.

  4. Outubro 2, 2009 7:14 pm

    Foi mesmo hardcore ! rs
    Sabes o que eu ‘tava a pensar ?
    No fundo, o que se passou no último episódio naquele casting e o que se passou com o Polanski,é a mesma coisa.
    E é claro que continua a acontecer ! (também vi o documentário de que falaste no outro lado) Como sabes, vivi e trabalhei nesse meio e sei do que falo…
    Aliás, é justamente porque sempre me deu asco esse tipo de situações, que eu hoje não sou muito muito famosa -e toda a gente saber disso ! lol

    • Outubro 2, 2009 8:12 pm

      Branca, pouco famosa mas sem arrependimentos ou fantasmas que tenham marcado um passado e ficado para o resto da vida. Ser famoso para ter de lidar com esses fantasmas? Mas quantas raparigas de 14 anos não são lançadas às feras, sujeitando-se a fazer o que não querem, a ficarem marcadas para o resto da vida, e tudo para seguirem o sonho de terem uma carreira e não lhes verem fechar as portas?

  5. Outubro 2, 2009 9:08 pm

    Que Krido, Blue… rs
    Bem, primeiro que tudo não é a minha natureza e pronto, nem todos nasceram para ser Madonna, certo ? rs
    Depois, é claro que não foi só por isso, mas quando dizes que as portas se fecham… estás coberto de razão.
    E eu gosto muito da minha reserva, ainda bem que nos meus tempos de loucura não haviam telemóveis com câmeras nem paparazzis ! lol
    E por último, eu sou famosa ! Só que, como eu disse lá do outro, outro lado… pouca gente sabe disso ! lol
    Ainda bem ! rs

    ps- hoje é a final do American Idol, devo chegar atrasada aos MadMen… rs

  6. Outubro 7, 2009 10:39 am

    «Even more than eating disorders, the fashion industry’s real dirty secret is the sexual abuse of models, male and female, and last week when I spoke to models and editors about the Alexander case, the only surprise they expressed was not at what he had done, but that the models had come forward at all (…) “I know a model who, when she was 16, went to Paris on a photoshoot with a very famous photographer and he sexually assaulted her. She was stunned but didn’t say anything”»
    Sexual abuse of models is fashion’s dirty secret

  7. Outubro 7, 2009 7:47 pm

    Estive a ler, Blue.
    É isso mesmo, continua a acontecer.
    Porque depois há muitas agências a lutar para conseguir infiltrar as/os suas/seus modelos nas melhores campanhas, nas melhores revistas, serem fotografados pelos mais famosos fotógrafos…
    E quem não tem escrúpulos faz mesmo o papel de chulo, ou então encaminha a modelo para a situação, pressiona-a sobre o quanto ela está mesmo determinada a conseguir um lugar ao sol… e fecha os olhos ao resto enquanto factura.
    Lembro-me de uma dona de agência em particular, sempre a apresentar os seus (velhos) “clientes”, a pedir às modelos para os entreteram… uma autêntica “madame”.
    E os directores, com os seus pequenos poderes a darem-se um ar muito enfatuado a fazerem os castings, a passearem-se pelos camarins onde as vestíamos e maquilhavamos, com brincadeirinhas muito “naughty”, para ver quais é que se mostravam mais atrevidas…
    (Ah ! Modelos acompanhadas de mães geralmente eram mal vistas. Porque as mães costumam estar sempre a meter-se, atrapalham o trabalho de toda a gente, desconcentram as filhas, etc)
    Pelo link que te deixei, poder-se-ía concluir que o Polanski sabia bem o que estava a fazer, porque lembrou-se de salvar a própria pele de uma gravidez.
    Uma pessoa vê cada comentário por aí… até mulheres a dizer que o que elas -mãe e filha- queriam desde o princípio era dinheiro (triste é a virtude de quem nunca teve a oportunidade de pecar)…
    Ficam chocados porque a mãe deixou a filha lá sózinha com ele.
    Olha, eu fico chocada é por uma mãe não poder deixar uma filha a fazer um trabalho com um profissional de renome e reputação a defender… ainda mais um que sofreu uma perda arrebatadora e portanto deveria ser mais humano.
    …e quem anda por aí a criticar é bem capaz de deixar os filhos sózinhos em casa (supostamente) ou nas ruas ou com explicadores… se vissem uma oportunidade de facturar em cima deles, aí eram capazes de estar mais atentos !
    .
    Este último MADMEN foi uma delícia, aquelas piadas em cima do cinto massageador ! rs
    O asqueroso a vir ao de cima… cada vez mais perigoso.
    E como eu gosto de ver a secretária a conquistar pela inteligência ! rs

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