Esta Igreja mais parece um «monte de sarilhos»
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Os abusos sexuais
Num recente relatório publicado após a conferência dos bispos norte-americanos, que analisa anualmente o ponto de situação da aplicação de uma carta de protecção da infância adoptada após o conhecimento do escândalo dos padres pedófilos, ficámos a saber que a Igreja Católica dos Estados Unidos pagou 436 milhões de dólares em 2008, no âmbito dos casos de abusos sexuais praticados por membros do clero, e desse total, 374 milhões de dólares foram atribuídos como compensação às vítimas. Resta dizer que em 2007, a Igreja católica tinha despendido 526 milhões de dólares. Se a indemnização total atribuída em 2008 foi inferior face ao ano anterior, o mesmo não se poderá dizer do número de queixas, já que aumentou, atingindo os 803 novos casos, mais de metade dos quais dizem respeito a crianças e a abusos cometidos entre 1960 e 1974.
Para que se entenda, em apenas dois anos, a Igreja Católica dos EUA, pagou 962 milhões de dólares por causa de casos de abusos sexuais praticados por membros do Clero. Além de vergonhoso, fica a questão: Quais são os lucros da Igreja Católica face aos valores de indemnização que consegue suportar? Num país que está a sofrer uma enorme crise social, questiono-mo porque não se coloca esta pergunta. Aliás, o que seria se cerca de mil milhões de dólares pudessem ser aplicados para ajudar os mais desfavorecidos, em vez de andarem a pagar os pecados cometidos por alguns membros do Clero.
Em Julho de 2008, o Papa Bento XVI, numa visita à Austrália e Catedral de St Mary, fez um pedido de desculpas por todos os casos de abusos sexuais de crianças, perpetrados por padres ou membros do Clero. Mas em 2001, ainda antes de ser Papa, Ratzinger enviava uma carta a todos os Bispos católicos, onde ordenava o silêncio, sob pena de excomunhão, para todas as investigações de abusos sexuais de crianças, e que todos os casos deveriam ser reportados directamente para o seu gabinete. Nessa carta, Ratzinger afirmava que a Igreja teria jurisdição perante esses casos, permitindo-lhe efectuar todos os inquéritos à porta fechada, e que teria o direito de manter as evidências confidenciais num período de 10 anos, contado a partir do momento em que o queixoso atingisse os 18 anos de idade.
Ainda sobre os casos de abusos sexuais, o Wiki dedica esta página.
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Richard Nelson Williamson
Em 1988, o Arcebispo Marcel Lefebvre anuncia a sua intenção de consagrar Williamson e três outros padres como Bispos, apesar de não ter autorização do Papa para executar essa consagração. Mesmo assim, Lefebvre executou a cerimónia e o Papa João Paulo II ordenou a excomunhão dele, de Williamson e dos restantes 3 padres.
Esse estatuto de excomungado manteve-se até Janeiro de 2009, data em que foi anulado após intenção expressa em decreto assinado pelo Papa Bento XVI. Apesar do contentamento expresso por Williamson, o Papa teve de enfrentar diversos protestos pela decisão tomada. Afirmando-se ferido pela “veemência” dos reparos que lhe fizeram, escreveu uma carta aos bispos, a explicar a sua decisão, onde expressava «Fiquei entristecido com o facto de os próprios católicos que, melhor do que ninguém, deviam saber como são as coisas, me terem atacado com uma hostilidade pronta para o ataque».
Só que, católicos e não só, tinham expressado o seu desagrado pelo passado Williamson. Este antigo excomungado afirmava concordar com diversas Teorias da Conspiração. Entre o assassinato de Kennedy, passando pelos ataques do 11 de Setembro – onde ele dizia que nenhum avião tinha embatido nas Torres, tratando-se de um plano arquitectado pelos EUA e a Mossad (os Serviços Secretos de Israel) para influenciar a política dos EUA no Médio Oriente – tudo acabava na Negação do Holocausto. Em resumo, não acreditava na existência de Câmaras de Gás, nem na morte de 6 milhões de Judeus. Para Williamson, ‘apenas’ 200 a 300 mil judeus teriam morrido em Campos de Concentração, e nenhum deles numa Câmara de Gás. Estas declarações foram reafirmadas por Williamson numa entrevista a um canal de televisão sueco, precisamente dois dias antes do anúncio do decreto Papal para o cancelamento da sua excomunhão. Ou seja, numa época da informação global, aparentemente, o Papa Bento XVI seria o única que nunca teria tido conhecimento das convicções no Negacionista Williamson.
Mas através dessa informação global, este tipo de coisas não passa despercebido, e em poucos dias já era falada em todo o mundo. O Vaticano terá percebido o erro cometido, e em particular, o Papa teria ficado bastante angustiado por ter assinado o decreto. Por isso, o Papa Bento XVI escreveu uma carta aos líderes da Igreja Católica, onde admitia ter cometido “erros” na gestão do caso, e afirmava que no futuro daria maior atenção à forma como as notícias se espalham pela Internet. Além disso, apelou a Williamson para que se retractasse nas suas afirmações. Só que Williamson não estava disposto a mudar de opinião, apenas porque o Papa pedia, até porque as suas afirmações estavam baseadas em estudos exaustivos que ele tinha feito «Eu estava convencido de que os meus comentários estavam correctos, com base em investigações que fiz nos anos 80. Preciso de reexaminar tudo outra vez e olhar para as provas. Se eu encontrar provas então rectificarei… mas isso levará tempo». Ou seja, para Williamson, encontrar provas da existência de Câmaras de Gás era mais difícil do que provar a sua não existência, e assim, como se diz, talvez ele se retractasse apenas no ‘Dia de São Nunca à Tarde’. Resta dizer que segundo uma fonte ao mais alto nível da hierarquia do Vaticano, este episódio é «a maior catástrofe para a Igreja Católica Romana nos tempos modernos. Não só soltou uma torrente de ressentimento judeu, comprometendo um acordo com Israel sobre o estatuto da igreja católica no país, como põe em causa o próprio papel do Papa, que foi conduzido como alguém que seria capaz de restaurar a “lei e a ordem” na igreja».
Perante esta situação bem grave, e na sequência de um encontro com líderes judeus, o Papa Bento XVI tentou pôr um ponto final na polémica sobre o Negacionismo do Holocausto, afirmando que «qualquer negação ou minimização deste terrível crime é intolerável, e mais ainda se for feita por um religioso».
Richard Williamson, que estava há cinco anos num Seminário em Buenos Aires, é entretanto expulso da Argentina e recambiado para Inglaterra. Ao chegar a terras de Sua Majestade, decide pedir desculpas pelas suas afirmações e convicções. Só que ‘Gato escaldado de água fria tem medo’, e desta vez, o Vaticano já não foi nas suas cantigas, tendo rejeitado o seu pedido de desculpas. O tal ‘perdão’ que por vezes é dado de forma tão célere, acabou desta vez por ficar fechado a sete chaves no Vaticano.
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Dom José Cardoso Sobrinho
Este foi o Arcebispo de Olinda e Recife, que excomungou, a mãe, os médicos e outros envolvidos no aborto realizado por uma menina de 9 anos, grávida de gémeos, a qual tinha sido violada pelo padrasto, tendo este confessado os abusos.
Segundo a sua interpretação linear das Escrituras «Quem cometer estupro está cometendo um pecado gravíssimo, aqueles que cometem assaltos também, estão cometendo pecados gravíssimos, e a Igreja também os condena. Mas, para estes pecados, a Igreja não prevê a excomunhão. Quem cometeu o aborto é um crime mais grave ainda, porque é tirar a vida de alguém inocente, indefeso».
Como se esta decisão fosse fácil de entender pelos próprios católicos, para não mencionar muitos outros que têm a mania de se intrometerem nos assuntos da Igreja – esqueci-me de mencionar que a menina corria perigo de vida se prosseguisse a gravidez – eis que o Vaticano, através do cardeal Giovanni Battista Re, Prefeito da Congregação para os Bispos, vem justificar as palavras de Dom Sobrinho, afirmando que os gémeos gerados pela menina «eram pessoas inocentes que tinham o direito de viver», considerando assim que a excomunhão teria sido bem aplicada. Também o chefe do departamento do Conselho Pontifício para a Família do Vaticano, Gianfranco Grieco, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, reafirmou a posição da Igreja, defendendo a excomunhão «É um assunto muito, muito delicado, mas a Igreja não pode trair sua posição, que é a de defender a vida, da concepção até seu fim natural, mesmo diante de um drama humano tão forte, como o da violência contra uma menina. Neste caso, os médicos estão totalmente em pecado porque são activos no acto do aborto, esse assassinato. São protagonistas de uma sentença de morte»
Importa dizer que a excomunhão é a penalidade máxima prevista Igreja Católica. Através dela, os penalizados ficam impedidos de participar de qualquer sacramento, como receber eucaristia ou o casamento, por exemplo. Contudo, o excomungado não está banido de participar de celebrações da Igreja, como missas.
Perante este tipo de posição inabalável e com a credibilidade da Igreja em dúvida, o mal-estar começou a instalar-se entre fiéis e não só. Por isso, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil desautorizou o arcebispo de Recife, justificando que a mãe havia agido “sob a pressão dos médicos” que lhe disseram que sua filha ia morrer se a gravidez não fosse interrompida, ficando sem efeito a excomunhão. E para não haver dúvidas, apesar das anteriores declarações, o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Monsenhor Rino Fisichell, um dos mais próximos colaboradores do Papa Bento XVI e a maior autoridade do Vaticano em bioética, vem afirmar que a excomunhão não deveria ter sido aplicada «São outros que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que lhe permitiram viver e a ajudaram a recuperar a esperança e a confiança, apesar da presença do mal e da maldade de muitos».
No fim, tratou-se apenas de uma precipitação de um fiel seguidor das Sagradas Escrituras, que considerava ser seu dever alertar o povo, para que tenham temor às leis de Deus.
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O Preservativo (uma vez mais)
O Papa Bento XVI sai do Vaticano para fazer uma visita de uma semana a África. Ao chegar a esse continente, onde se estima existirem 22 milhões de infectados com o HIV, tem esta declaração «o problema da seropositividade não se pode resolver com a distribuição de preservativos, pelo contrário, isso só irá complicar a situação».
Para o Vaticano, a abstinência é a única forma de combater a propagação da doença, devendo-se promover a responsabilidade e atitude moral perante o sexo «A solução passa pela humanização da sexualidade, uma renovação espiritual que promova a amizade, especialmente para os que estão em sofrimento, uma vontade de fazer sacrifícios pessoais».
Sem nunca antes se ter pronunciado sobre a ‘questão’ do preservativo, e num dos continentes mais afectados pelo HIV, como é óbvio, aquilo que o Papa pretende transmitir, é a segurança obtida através da abstinência, face a métodos que não são totalmente seguros, certo? Ou seja, sexo, só se a pessoa for casada e não estiver infectada. Caso contrário, resigna-se à abstinência até ao fim dos seus dias.
Talvez os esforços de inúmeras Organizações, que lutam há vários anos para sensibilizar as populações no uso do preservativo, quer em África, quer no resto do mundo, tenham sido fortemente abalados por estas declarações. Ou talvez, sejam muitos os católicos que já optaram por ignorar essas orientações. Não sei.
Aquilo que eu sei, é que além de protestos em todo o mundo, Paris e Bruxelas, reagiram oficialmente «A França exprime a sua viva preocupação quanto às consequências das declarações de Bento XVI. O nosso papel não é o de emitir julgamentos sobre as doutrinas da Igreja, mas consideramos que estas observações põem em risco políticas públicas de saúde e os imperativos quanto à protecção da vida humana». Em Bruxelas, a ministra belga da Saúde, Laurette Onkelinx disse que a posição de Bento XVI «reflecte uma visão doutrinária perigosa (…) estas podem demolir anos de prevenção e educação e colocar em risco muitas vidas humanas».
Algumas organizações não governamentais aproveitaram para colocar a seguinte pergunta “O Papa vive no século XXI?”.
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Este é sem dúvida um período negro na imagem da Igreja, que se supostamente deveria ter evoluído para estar enquadrada no séc. XXI. Não me parece que o tenha feito. E em todos as recentes polémicas, aquilo que eu tenho mais dificuldade em entender é o conceito de perdão para determinadas coisas e a falta de compaixão que seria espectável para outras.
Tenho extrema dificuldade em entender que se gaste mais de mil milhões de dólares (ao longo dos anos anteriores) para proteger aqueles que são pedófilos nojentos. Mais difícil é entender o perdão que possa ter existido, que permitiu que esses pedófilos fossem sendo transferidos de paróquia em paróquia, mantendo a possibilidade de contacto junto de crianças, sem que fossem banidos de uma vez por todas.
É difícil entender que um perdão possa ter sido dado com tanta falta de informação. Bastava uma simples pesquisa no Google para se ter acesso a todas as suas ideias, no mínimo polémicas, daquele a quem se ia dar o perdão num gesto de boa vontade e união. E quando se perdoa com tanta facilidade, custa entender que depois não se perdoe quando o arrependido pede desculpas.
É difícil entender que o gesto de compaixão só tenha sido anunciado vários dias após o mundo ter ficado chocado com tanta injustiça, e depois de alguns representantes terem dado o seu apoio ao fiel seguidor da Escrituras.
É também difícil entender que com uma simples frase se possa arrasar o trabalho feito ao longo de muitos anos por várias organizações não governamentais, que apenas tentam salvar vidas.
Quando da Figueira da Foz soam as Trombetas e se lançam avisos sobre casamentos que podem causar um «monte de sarilhos», ou se mostra preocupação pelas diligências em torno do casamento homossexual, quando existem outras questões fundamentais para resolver, eu só tenho vontade de pedir para olharem para os recentes acontecimentos no seio da Igreja que representam, e para expressarem algumas considerações construtivas a esse respeito.
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Excelente trabalho Blue!!
Também me preocupa muito esta Igreja e mais concretamente as consequ~encias na vida das pessoas 8estou a pensar em África). beijos.
aiii, tantas gralhas, desculpa, é a pressa.
Popelina, deixa lá isso que o texto também tem as suas gralhas. É o problema de escrever muito. Quando se chega ao fim, só se quer publicar e nem se olha para o que foi escrito. O preservativo foi mais uma saída infeliz. Mas digo-te, para mim, os milhões gastos pela Igreja para limpar os estragos dos pedófilos que tem nas suas fileiras, é mais assustador.
Tens toda a razão. lamento pela alergia, lá em cima, hihi. mas tens a sorte de estar no Algarve!!sortudo…
Já agora aproveito para te colocar uma questão técnica, desculpa lá. porque é que nem no referrer, nem no technocrati aparecem os links (blogroll) que alguns blogs têm com o de-grau (por exemplo)? o teu aparece, mas há uma série deles que não, porque será?
Obrigada e beijinhos!