As votações da Vanity Fair – Fotografia Jornalística

2008 Outubro 19
by bluewater68

Para comemorar o seu 25º aniversário, a Vanity Fair irá lançar um conjunto de votações para determinar os melhores 25 em diversas categorias, desde capas de livros, documentários, festas ou analistas políticos. Neste momento, está aberta a votação para a escolha da melhor das 25 fotografias do jornalismo. Pode deixar o seu voto, aqui.

Nesse conjunto de 25 fotografias submetidas a votação, estão duas sobre as quais eu já tinha falado, em “A fotografia é a arma mais poderosa que existe no mundo”, caso da fotografia da colocação da bandeira americana no monte, Suribachi, na ilha de Iwo Jima, a 23 de Fevereiro de 1945, e da fotografia do tiro na cabeça de um Viet Cong por parte do chefe da polícia sul vietnamita, a 1 de Fevereiro de 1968.

Neste conjunto de 25 fotografias, confesso ter dificuldade em escolher a melhor. Talvez acabe por escolher a fotografia do homem em queda livre, que para mim simboliza todo o horror do 11 de Setembro, um acontecimento que alterou a forma como víamos o mundo até à data.

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Mas do conjunto de 25 fotografias, por razões diferentes, vou destacar duas.

A primeira foi ‘Foto do Ano da World Press Photo’, na edição de 1957, e diz respeito a Dorothy Counts, uma menina de 15 anos que tentou quebrar a barreira do racismo, que era imposta por um conjunto de pessoas que infelizmente, julgavam que a cor da pele lhes conferia superioridade face aos restantes.

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A 4 de Setembro de 1957, Dorothy Counts, acompanhada pelo seu pai, entrou na Harry Harding High School. O seu acto de enorme coragem e desafio perante uma mentalidade mesquinha e atrasada de muitos habitantes da Carolina do Norte, libertou todo o ódio da mulher de John Z. Warlickthe, o líder do Conselho de Cidadãos Brancos. Essa mulher gritou para os rapazes: “Mantenham-na fora da escola!” e pediu às raparigas que cuspissem em Dorothy Counts. Durante 4 dias, esta menina lutou contra formas brutais de racismo. Por fim, os seus pais consideraram que a sua vida poderia ficar em risco e decidiram tirá-la dessa escola.

It is with compassion for our native land and love for our daughter Dorothy that we withdraw her as a student at Harding High School. As long as we felt she could be protected from bodily injury and insults within the school’s walls and upon the school premises, we were willing to grant her desire to study at Harding

Situações destas, já foram banidas do país que se intitula ‘Defensor supremo da Liberdade’. Mas este tipo de ódio, tem raízes profundas e ainda é alimentado por alguns americanos. Existem vestígios que são difíceis de apagar, os quais, acabam por vir ao cimo mais tarde ou mais cedo. Veja-se por exemplo o caso do Rodney King.

Dentro de dias, Barak Obama será eleito Presidente dos EUA. É a minha convicção. Depois de dois mandatos atribuídos a um mentecapto, não acredito que os americanos não queiram a mudança para melhor. Mas acima de tudo, gostava que Obama não fosse referido como ‘o primeiro’, mas apenas, como ‘outro candidato democrata’. É que Dorothy Counts foi designada ‘a primeira’ a frequentar uma determinada escola, apenas pela cor da sua pele. Cinquenta e um anos passaram desde esse dia e ainda existem cargos onde alguém é indicado como ‘o primeiro’, apenas e somente por causa da cor da sua pele. Quantos anos vão ainda ter de passar, até que esse facto deixe de ser digno de nota?

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A segunda foto diz respeito a Roman Polanski. Uma imagem captada a 9 de Agosto de 1969, junto à entrada da sua casa. Polanski está sentado, de olhar perdido, tentando perceber o que terá motivado um dos mais brutais assassinatos cometidos nos EUA. Junto à porta ainda se observam vestígios de sangue, que faziam prever o horror que estaria encerrado dentro daquela casa.

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Em Agosto de 1969, Roman Polanski celebrava um ano de casamento com Sharon Tate. Esta actriz americana estava grávida de 8 meses, e ambos esperavam o seu primeiro filho para muito breve.

A 8 de Agosto de 1969, Roman Polanski encontrava-se em Londres por motivos profissionais. Na casa do casal Polanski estava um grupo de 4 amigos (Abigail Folger, Jay Sebring, Wojciech Frykowski, e Steven Parent) que lá se tinham deslocado para fazer companhia a Sharon Tate.

Nessa noite, um grupo de seguidores de um culto liderado por Charles Manson, entra na casa localizada em 10050 Cielo Drive, situada nas encostas de Hollywood, e sem dó nem piedade, matam todos os seus 5 ocupantes. A ordem para cometerem essa barbárie tinha sido dada pelo Charles Manson. Na absurda razão deste acto, terá estado uma discussão entre Terry Melcher, o primeiro dono daquela casa, e Charles Manson. Melcher ter-se-á recusado a gravar músicas da autoria de Manson. Mais tarde, esse facto terá feito com que Manson ordenasse aos seus seguidores, que matassem todos os ocupantes da casa.

Mais tarde, nos inquéritos que levaram à prisão de todos os membros do culto, soube-se que Sharon Tate terá implorado pela vida do seu filho. Susan Atkins disse não sentir qualquer pena dela, e esfaqueou-a por 16 vezes. Como se não bastasse, ainda molhou uma toalha no seu sangue e escreveu a palavra “PIG” na porta da casa.

As penas de Charles Manson e Susan Atkins foram comutadas da “Pena de Morte” para “Prisão Perpétua”. Em Julho do corrente ano, Susan Atkins viu recusada pela 17ª vez a possibilidade de adquirir Liberdade Condicional. Terá sido o seu último apelo, já que se encontra doente em fase terminal, com um cancro na cabeça. No caso de Charles Manson, tem actualmente 73 anos, e apenas em 2012 poderá apresentar apelo à Liberdade Condicional.

Durante a sua infância, Roman Polanski viu a sua mãe ser levada para Auschwitz-Birkenau, onde foi morta numa Câmara de Gás. Conseguiu fugir do Gueto de Varsóvia, onde terá escapado a uma morte certa. Em 1978, foi acusado de “relação sexual ilícita com uma menor de 14 anos”. Antes de saber a sentença, fugiu para França, onde tem vivido até à data actual. Continua a ser um fugitivo da justiça americana. Esse facto não o impediu de ganhar o Óscar de melhor Realizador, com a obra-prima “O Pianista”.

Aquela foto mostra um homem de olhar perdido, que assistiu a actos reveladores de toda a maldade e loucura que o ser humano é capaz de cometer.

3 Respostas leave one →
  1. 2008 Outubro 20

    “A fotografia é a arma mais poderosa que existe no mundo”

    Sem dúvida que sim. Excelente artigo.

  2. 2008 Outubro 20

    Boa tarde Casper,
    agradeço o comentário. Uma única fotografia já foi capaz de fazer mais estragos que muitos protestos juntos.
    E até somos capazes de acreditar nas palavras que nos são ditas, mas quando vemos a imagem é que acabamos por ter a certeza do acontecimento

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