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Da Terra do Ópio nada de novo

Junho 19, 2008

Vi o filme “Charlie Wilson’s War”, que por cá, infelizmente, foi traduzido para “Jogos de Poder”. Um filme que conta a história do singular e excêntrico Charles Nesbitt Wilson – interpretado por Tom Hanks - um congressista Democrata dos Estados Unidos, eleito pelo Texas. Entre banhos de jacuzzi com mulheres nuas e linhas de coca, convites à bebida às 10 da manhã ou pedidos de bebidas alcoólicas ao presidente do Paquistão, este problemático mas brilhante congressista, na década de oitenta, foi capaz de engendrar e reunir apoios para uma operação mais ou menos “clandestina” no Afeganistão, a qual acabou por mudar o panorama sócio-político mundial do século XX.

Os seus apoios financiaram a luta dos Mujahidines, no Afeganistão, contra as tropas invasoras da União Soviética, as quais acabaram por sair derrotadas do conflito. De forma directa ou indirecta, o filme mostra duas importantes sequências históricas. Por um lado, a derrota dos soviéticos, foi uma das frentes que mais contribuíram para o enfraquecimento do seu império e, consequentemente, para a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da Guerra Fria. Por outro lado, embora sem mostrar essa perspectiva de forma directa, o filme evoca a visão daqueles que consideram que a posterior exclusão do Afeganistão das prioridades políticas dos EUA abriu caminho aos talibãs e a todas as manobras que conduziram aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001.

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Os rostos dos actores e dos verdadeiros intervenientes

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Mas a cruzada deste senador na libertação do Afeganistão foi influenciada directamente por Joanne Herring – interpretada por Julia Roberts - uma empresária, activista política, acérrima anti-comunista e importante figura da sociedade Texana. Uns meses depois da invasão Soviética ao Afeganistão, em 1979, Joanne Herring foi para as montanhas afegãs filmar as atrocidades que as forças soviéticas estavam a cometer sobre as populações, através do uso de helicópteros de combate. Quando regressou aos EUA, ela mostrou as filmagens aos seus amigos Republicanos, políticos ou figuras de topo, tais como George Bush senior, o novo vice-presidente do mandato de Ronald Reagan, Henry Kissinger e o chefe da CIA, William Casey. Porém, foi através do senador democrata Charlie Wilson, seu conterrâneo e ‘amante’, que ela conseguiu levar avante os seus objectivos de libertação de um povo oprimido pelos demónios comunistas – “Never in my wildest dreams would I have thought I would have ended up in the underbelly of the world fighting the demons of communism. (Joanne Herring)”.

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Joanne Herring no Afeganistão, junto dos Mujahidines

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A completar esta dupla, estava Gust Avrakotos – interpretado por Philip Seymour Hoffman, que foi também candidato ao Óscar de Melhor Actor Secundário – um agente da CIA.

Quando Charlie Wilson conhece Gust Avrakotos, pergunta-lhe qual era a estratégia dos EUA para o Afeganistão. Gust Avrakotos responde-lhe “ainda não temos uma estratégia definida, mas nós estamos trabalhar nesse sentido”. Charlie Wilson pergunta, “mas quem são ‘nós’?”. Resposta, “Eu e mais outros três tipos”.

Viagem após viagem, eles foram reunindo apoios e conseguindo juntar israelitas, paquistaneses e sauditas na mesma causa. Internamente, e perante os resultados no terreno, Charlie Wilson conseguiu que o orçamento original da CIA contra o comunismo passasse de uns míseros 5 milhões de dólares, para uns impressionantes mil milhões de dólares. Numa das suas intervenções junto do Congresso Americano, Charlie Wilson convenceu os presentes assim «The U.S. had nothing whatsoever to do with these people’s decision to fight … but we’ll be damned by history if we let them fight with stones

Apesar do aparente ‘sucesso’ deste trio de americanos dispostos a lutar contra o monstro comunista, o fim do filme transmite uma mensagem que a história tem vindo a provar: qualquer acção humana, por mais bem planeada ou executada que seja, tem necessariamente consequências imprevistas. Ou tal como Gust Avrakotos cita o mestre Zen: «Veremos».

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Gust Avrakotos: Havia um rapazinho que no seu 14º aniversário recebe um cavalo…todos na aldeia dizem “Que maravilha, o rapaz recebeu um cavalo”, e o mestre Zen diz “Veremos”. Dois anos mais tarde o rapaz cai do cavalo e parte uma perna…todos na aldeia dizem “Que desgraça”, e o mestre Zen diz “Veremos”. Começa uma guerra e todos jovens e homens da aldeia têm de ir combater…excepto o rapaz por causa da sua perna…todos na aldeia dizem “Que maravilha”

Charlie Wilson: e o mestre Zen diz “Veremos”

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Em Dezembro de 2007, na sequência da morte do Pára-quedista português no Afeganistão, escrevi o texto “Morrer na terra do ópio”. Seis meses mais tarde, entre Talibãs, Droga, Situações Explosivas ou Preocupações de Compromisso, o que terá mudado num país que sempre conheceu a guerra?

Um pouco da história recente

»»»» A 1 de Janeiro de 1965, foi fundado o ‘People’s Democratic Party of Afghanistan’ (PDPA), o qual seguia uma ideologia marxista-leninista e tinha relações estreitas com a União Soviética.

»»»» Em 27 de Abril de 1978, na sequência de um golpe de estado conduzido por militares afectos ao PDPA, foi assassinado o presidente Mohammed Daoud Khan, juntamente com outros membros da sua família. Este golpe conduziu o PDPA ao poder, e a sua permanência nessa posição até 1992.

»»»» O novo governo comunista encontrou forte resistência aos seus programas e por esse facto, pediu ajuda militar à União Soviética. Mas esse apoio no terreno das tropas soviéticas foi incapaz de travar a rebelião imposta pelos Mujahideen, que eram financiados, armados e treinados pela CIA – durante as administrações de Carter e Reagan – Paquistão, Arábia Saudita, entre outros. Essa rebelião conduziu à saída das tropas soviéticas em 1989.

»»»» Entre 1989 e 1992 deu-se o colapso do governo. Uma importante figura a hierarquia militar afegã, Abdul Rashid Dostum, que lutou do lado dos soviéticos, decide mudar de posição e alia-se aos Mujahideen contra o governo. Perante esse facto, o presidente e líder do PDPA, Mohammad Najibullah, concorda em abdicar em favor de um governo de transição.

»»»» Entre 1992 e 1996, após tomarem o poder, a unidade entre os Mujahideen desaparece e começam as disputas entre os mesmos. O Afeganistão passa a ser assolado por uma Guerra Civil. Em 1994, no sul do Afeganistão, é criado o Movimento Talibã, com o apoio do Paquistão. Em dois anos, este movimento ganha posição perante as forças de Abdul Rashid Dostum, e as forças Tajik, leais a Ahmad Shah Massoud.

»»»» Entre 1996 e 2001, os Talibã tomam o poder em Kabul. Dostum e Massoud unem forças e formam a United Islamic Front for the Salvation of Afghanistan (Northern Alliance). Durante este periodo, os Talibã continuam a reforçar a sua posição e chegam a controlar 95% do Afeganistão. Dostum foi forçado a fugir do Afeganistão e Massoud foi assassinado em 2001.

»»»» Desde 2001 até hoje. Os EUA, em conjunto com as forças da ‘Northern Alliance’ tiram os Talibã do poder e estabelecem uma nova república sob a presidência de Hamid Karzai.

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Abdul Malak, um Afegão residente na vila de Bakhshikhail, província de Parwan situada a norte de Kabul, e que perdeu a sua perna por causa de uma mina. Durante o conflito entre Talibãs e Mujahideen, foram minados os campos à volta desta vila, provocando a mutilação ou morte de vários residentes.

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Os EUA impediram que um governo comunista governasse no Afeganistão. Depois, deixaram-no à sua sorte e os fundamentalistas tomaram o poder. Voltaram lá para implementar uma democracia e antes de terem consolidado fosse o que fosse, viraram os esforços para o Iraque. Até hoje, o povo Afegão foi sempre o sacrificado e ninguém foi capaz de lhes dar um futuro promissor.

Desde o início de 2008 mais de 200 civis foram mortos em cerca de 130 ataques suicidas dos Talibã. Em 2008 e em resultado dos conflitos já morreram 1200 civis, metade dos quais em consequência de operações militares dos próprios Afegãos ou de tropas da coligação.

Tensões na fronteira

Na madrugada do passado dia 10 de Junho, um incidente junto à fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, na província de Kunar, provocou a morte de 11 soldados paquistaneses. As forças da coligação ficaram debaixo de fogo de forças “anti-Afegãs” e responderam com ataques de artilharia e aéreos, fazendo explodir tudo o que estava em redor.

Este incidente veio deteriorar ainda mais as relações entre os EUA e o Paquistão. Um porta-voz do exército afegão considerou que tinha sido “um acto de agressão”. Islamabad tem acusado o país vizinho de incapacidade para vencer os talibãs, que nos últimos anos estenderam a sua acção ao Paquistão, onde terão sido responsáveis por dezenas de atentados-suicidas. Do lado contrário, o Governo afegão e as forças da coligação acusam o Exército paquistanês de nada fazer para combater os talibãs e os membros da Al-Qaeda instalados na região tribal e de permitir a sua entrada no Afeganistão, onde nos últimos meses foram responsáveis por vários ataques contra as forças aliadas.

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No dia 15 de Junho, num discurso inflamado, o Presidente afegão, Hamid Karzai, ameaçou enviar tropas para território paquistanês, a fim de combater os extremistas que usam a região tribal como base recuada para ataques no Afeganistão. Entre várias ameaças, afirmou “Em nome da legítima defesa, o Afeganistão tem o direito de ir lá e destruir os redutos dos terroristas do outro lado da fronteira. Vamos persegui-los e vingar todo o mal que eles fizeram neste últimos anos ao Afeganistão. Trata-se da defesa do nosso solo, do nosso povo, das nossas escolas e das nossas crianças”.

A resposta não se fez esperar e o primeiro-ministro paquistanês, Yusuf Raza Gilani, avisou Cabul que não serão aceites interferências nos assuntos internos do país. Garantiu que Islamabad deseja manter “relações amigáveis” com o país vizinho, mas “Tais declarações (de Hamid Karzai) não ajudam a melhorar essas relações”. [+]

Um dos maiores Mercados Abastecedores de droga

No dia 12 de Junho, a polícia Afegã bateu o recorde mundial numa apreensão única de droga. Foram apreendidas e posteriormente destruídas, 260 toneladas de Haxixe, que corresponderiam a uns 252 milhões de euros. O recorde anterior estava na posse das forças de segurança da Colômbia, numa apreensão de 81 toneladas de coca. A apreensão foi em Kandahar, uma província com forte presença de Talibãs, os quais, utilizam o tráfico de droga para o seu financiamento.

Esta apreensão pode impressionar pelo valor que representa, mas salienta-se que o Haxixe não é o maior problema no tráfico de droga afegão, mas sim o Ópio. Em 2007, os Afegãos produziram 9000 toneladas de Ópio, suficiente para ser refinado em 880 toneladas de heroína, o que representa cerca de 93% do mercado mundial. O valor exportado equivale a uns 4 biliões de dólares, o que é mais de 1/3 do PIB Afegão. Imagine-se o que representa este valor para o financiamento dos Talibã. Uma produção de 9.000 toneladas de ópio, num país onde permanecem 43.000 soldados provenientes de 26 países sob o comando da NATO.

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Em Agosto de 2007, um jornalista da BBC publicava um artigo relativo a uma viagem a um dos mercados de ópio no Afeganistão, o mercado Shaddle Bazaar na província de Nangarhar, junto à fronteira com o Paquistão. Um mercado onde centenas de agricultores das províncias vizinhas se deslocam para vender milhares de quilos diariamente.

Abdullah Jan, um rapaz de 18 anos, saiu de casa às 4 da manhã e caminhou durante 4 horas até chegar ao mercado. Levava consigo 10Kg de ópio. Após um duro regateio, vendeu esse produto por cerca de 1400 dólares, um valor bastante superior ao que poderia ganhar com a venda de uma qualquer outra cultura.

Nesta altura, o governo dos EUA tinha financiado o governo Afegão em mais de 10 biliões de dólares. Porém, a maior parte desse dinheiro foi gasto para manter medidas de segurança, em vez de ser aplicado em medidas encorajadoras para criar alternativas à produção de ópio.

Nas palavras de um negociante de Ópio “se tivéssemos estradas, clínicas, fábricas e se existissem oportunidades de emprego, eu não estaria a fazer o que faço agora

Maus investimentos, desperdícios e mais pedidos de ajuda

Em Março, um relatório da Agency Coordinating Body for Afghan Relief (ACBAR), que representa uma aliança entre 94 agências internacionais de ajuda humanitária, denunciava que avultados montantes de apoios financeiros ao Afeganistão eram gastos em salários elevados dos consultores deslocados ou em segurança. Desde 2001, 40% da ajuda Ocidental, no valor de 15 biliões de dólares, foi gasta em projectos que retornaram dinheiro para as próprias nações dadoras, através de contratos celebrados com empresas desses próprios países. O estudo indica que o maior dador, United States Agency for International Development (USAID), alocou metade dos seus fundos para cinco grandes empresas americanas a operar no Afeganistão.

Um consultor no Afeganistão pode ganhar 250.000 dólares por ano. Compare-se esse valor com o salário anual de um servente afegão, que nem chega a 1000 dólares.

Mohammed Hashim Mayer, um director da ACBAR, afirmou que as áreas rurais ou relativamente seguras estão a ser esquecidas “Eles estão a gastar em áreas onde a segurança não é boa, esperando que a mesma melhore por causa disso. Mas está a acontecer o oposto. Nós temos visto que a segurança não melhorou nessas áreas, acabando mesmo por piorar. Em áreas onde existem fortes possibilidades de implementar projectos, nenhum trabalho está a ser feito”.

A Oxfam, salientou que os gastos no desenvolvimento eram minorados em relação ao gastos directamente ligados à luta contra os Talibã, onde a máquina militar dos EUA consome um valor de 65.000 dólares por minuto. Desde 2001, apesar dos 15 biliões de dólares de ajuda, a maioria dos Afegãos vive em casas com paredes de terra, sem quais condições sanitárias, e 80% não têm electricidade.

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No dia 12 de Junho, em Paris, decorreu a Conferência Internacional de Apoio ao Afeganistão. O Presidente afegão, Hamid Karzai, chegou à conferência com um ambicioso plano de desenvolvimento para o seu país, o qual, teria um valor de investimento de 50 biliões de dólares. O plano dá prioridade ao desenvolvimento das infra-estruturas, à melhoria dos serviços de saúde e educação, à formação e equipamento das forças de segurança e aos apoios à agricultura. Este último ponto foi sublinhado por Karzai, argumentando que o mesmo é crucial para o futuro do país criar um regime de incentivos que levem os agricultores a abandonar a cultura da papoila usada no fabrico de ópio.

A comunidade internacional ouviu os argumentos e comprometeu-se a canalizar mais de 21 biliões de dólares para a reconstrução do Afeganistão, insistindo que Cabul tem de fazer mais para combater a corrupção e consolidar as instituições do Estado, que permanecem frágeis sete anos após o derrube do regime talibã. A maior contribuição será feita pelos EUA, com 10.2 biliões de dólares ao longo de dois anos. [+]

A Transparency Internacional, uma organização que analisa a corrupção ao nível mundial, coloca o Afeganistão em nono lugar entre 180 países analisados. A Integrity Watch, uma organização independente não-governamental, afirmou que 70% dos fundos internacionais de ajuda ao Afeganistão não estavam a ser canalizados através do governo, e que em cada 100 dólares, apenas 20 chegavam às pessoas a quem tinham sido destinados.

As mulheres continuam a ser ‘coisas’

«Jamila foi obrigada a casar quando tinha 7 anos. Durante nove anos sujeitou-se a brutais espancamentos pelo marido. Desesperada, pediu ajuda ao sogro. Por causa dessa “humilhação” um membro da família deu-lhe um tiro na perna. Durante uma das raras visitas a casa dos pais, ela procurou que a ajudassem no divórcio. Uma Jirga ou Assembleia de Anciãos locais, rejeitou o seu pedido e enviou-a de volta para o marido. Foi novamente punida, desta vez pelo sogro, que a espancou, cortou-lhe uma narina, rapou-lhe a cabeça e atou-a com uma corda antes de a atirar para fora da casa.»

Andre Huber, o Director da Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação no Afeganistão, disse que os maus-tratos e abusos de mulheres persistiam porque casos como o de Jamila raramente eram reportados. Nas suas palavras «o problema aqui no Afeganistão é que a maioria dos casos permanece oculta devido a severas restrições no acesso à justiça por parte das mulheres.»

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Mesmo que as mulheres sejam capazes de reportar os actos de violência, pelo facto de o terem feito, poderão fazer aumentar os abusos ou a violência contra elas, seja por parte da própria família, seja por parte dos próprios oficiais do sistema de Justiça Criminal. Em muitos casos, mulheres que denunciam incidentes de violência à polícia acabam elas próprias por ser presas. A United Nations Development Fund for Women (Unifem) tem casos documentados de mulheres que foram mortas ao chegar a casa, depois de terem ido apresentar uma queixa.

Nas palavras de Suzana Paklar, da Medica Mondiale, uma ONG que providencia apoio a mulheres em zonas de crise ou de guerra, “Existe uma opressão sistemática às mulheres com base na crença que a mulher tem menor valor. A mulher é vista como uma ‘coisa’ em vez de ‘ela’. O problema no Afeganistão é que nós não temos opções válidas para lhes oferecer.”

A enorme vergonha associada ao facto de uma mulher sair de sua casa, mesmo que seja vitima de abuso, faz com que a sua reintegração na sociedade ou na família seja praticamente impossível.

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Num editorial publicado no Kabul Times, detido pelo governo, salientavam-se algumas razões que justificavam a violência sobre as mulheres. Este editorial foi publicado 4 dias depois do Dia da Mulher

«We always condemn men who beat their wives or sisters … but overlook what some women do to invoke men’s ire. To begin with, there are numerous obstinate, groggy, nagging, quarrelsome, stingy and arguing women in this country who disturb the peace in their families. When they get charged they go on and on till they provoke their husbands to beat them black and blue

Saliente-se ainda que o Afeganistão detém uma das mais elevadas taxas de mortalidade de mulheres que dão à luz – a cada 29 minutos morre uma mulher em trabalho de parto – e a taxa de educação mantém-se nos 15.8%, cerca de metade da dos homens.

Os Talibãs foram retirados do poder e empurrados para as montanhas. No entanto, os abusos, espancamentos e mortes continuam na mesma.

O processo arrasta-se e aumentam os sacrifícios

Em Fevereiro, os ministros da Defesa da NATO reuniram-se em Vilnius e discutiram a partilha de sacrifícios nas operações no Afeganistão. De um lado, estavam os países com restrições ao uso das respectivas tropas na força internacional sob comando da NATO ( ISAF); do outro lado, estavam membros da Aliança cujos contingentes enfrentam os talibãs no sul de maioria pastune.

Para os alemães, defender e reconstruir o norte é tão vital como combater. Mas a questão é sobretudo política: os alemães estão sujeitos a um mandato parlamentar que lhes interdita o sul. Mas as limitações são inaceitáveis para outros parceiros. O Canadá diz que não poderá manter, após 2009, o seu contingente de 2500 soldados no sul sem um reforço de mil soldados. O Governo conservador está sob pressão e pode cair por causa deste tema. Em seis anos de acção no Afeganistão, o Canadá já perdeu 78 soldados, enquanto a Alemanha, com uma força 30% maior, teve 25 mortos.

Os Talibãs foram expulsos dos núcleos principais, mas nunca poderão ser totalmente derrotados enquanto continuarem a operar a partir de refúgios no Paquistão; nunca até que os próprios Afegãos os rejeitem e os forcem a abandonar o seu país. E nunca até que exista um governo afegão viável e forças de segurança que convençam a população a depositar a total confiança neles.

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Após o exército britânico ter registado a 100ª morte, foi dito que a maior ameaça à sua missão no Afeganistão não seriam os Talibã, os traficantes de droga, os políticos afegãos corruptos ou a influência maligna de outras potências regionais, mas simplesmente a vontade e a opinião dos povos ocidentais em continuar a manter uma guerra longínqua.

No passado dia 13 de Junho, um ataque suicida rebentou com os portões da prisão de Kandahar. Seguiu-se um ataque com as forças de segurança e deu-se a libertação dos cerca de 1150 prisioneiros, entre os quais estavam 400 Talibãs. Este acontecimento conduziu a uma grande ofensiva sobre Kandahar, conduzida por forças Afegãs e apoiados por centenas de soldados canadianos

Lições Iraquianas

Num recente artigo do Telegraph, era denunciado que o Irão teria um fundo secreto, no valor de 2.5 biliões de dólares, para suportar grupos terroristas que têm atacado as tropas britânicas no Iraque ou no Afeganistão. O Irão tem fornecido treino e armas a milícias Shiitas com bases no seu país. Munições de fabrico iraniano têm sido encontradas no Afeganistão. E sofisticados engenhos explosivos colocados em estradas, responsáveis pela morte de centenas de soldados, têm sido construídos exclusivamente por engenheiros iranianos. [+]

Ontem, uma explosão de uma bomba numa estrada provocou a morte a 4 soldados britânicos e elevou para 106 o número total de mortos do contingente do Reino Unido desde 2001. Cerca de 7.800 soldados britânicos estão em serviço no Afeganistão, efectivo que será aumentado para mais de 8.000, segundo anúncio do primeiro-ministro, Gordon Brown.

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Métodos terroristas usados no Iraque estão agora a ser usados no Afeganistão. Os Talibã começaram a atacar alvos mais fáceis e expostos, tais como veículos sem blindagem do exército Afegão, esquadras da polícia ou edifícios governamentais.

Crianças entre 13 e 15 anos estão a ser recrutadas nas Madrassas do Paquistão e enviadas para o Paquistão para cometerem ataques suicidas. Os rapazes nessas idades acabam por ser alvos fáceis dos extremistas, sendo convencidos do Afeganistão estar cheio de infiéis e de se tornarem mártires com entrada directa no céu, onde poderão ter tudo o que desejarem. Saiba mais sobre aqueles que já são conhecidos como “Terror Kids”. [Vídeo RTP]

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Do Afeganistão? Nada de novo

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 “How Joanne Herring won Charlie Wilson’s War”

«We did not make al-Qaeda. But we abandoned the Afghans and we’ve betrayed the Palestinians, and some extremists have exploited that[+]

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Os rostos das baixas no Afeganistão [+]

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8 Comentários leave one →
  1. Junho 19, 2008 3:15 pm

    Há dias que andava a estranhar não haver posts pelos lados do Makejeto… esperar valeu a pena, és tu e o Expresso. Não vi o filme porque achei que me ia irritar e li a primeira parte do teu texto. Para mim, a grande maior parte dos males do mundo foram resultado da longa guerra fria e do facto de as duas grandes potências rivais andarem a “brincar” às guerras e às armas no quintais dos outros. Um desses outros, então e ainda hoje, foram o Afeganistão. Não sei o que seria este país sem a interferência de um ou de outro, podia até ser pior, quem sabe. Mas a luta contra o comunismo, quanto a mim, era uma falácia, o comunismo caiu por ele próprio, como estava destinado que caisse. Nenhum sistema como aquele poderia subsistir economicamente. Os Estados Unidos que arvoram em defensores disto e daquilo são o contrário em política externa. A interferência deles deu no que vivemos hoje, os heróis americanos no Afeganistão deram no atentado das torres. Tudo continua na mesma, só que agora o outro lado é outro e fala chinês. São maiores, mais poderosos e as táticas bem mais maquiavélicas do que os russos alguma vez tiveram. Vamos ver no que vai dar…
    Um beijinho, bom fim-de-semana, boa sorte para o jogo e bom post!! :)
    meiadeleite

  2. Junho 19, 2008 7:48 pm

    :) um silêncio prolongado poderá ser significativo de lençol a caminho.
    O filme trata os soviéticos como uns bárbaros assassinos nas suas máquinas voadoras. E só com a ajuda dos benfeitores americanos é que passou a haver justiça. Não sei se ainda verás o filme, mas o final representa bem a forma como os americanos gerem os conflictos onde entram. O importante seria derrotar os soviéticos. Depois…depois já não interessa.
    Admitindo que os extremistas dos Talibãs não tinham avançado por acção indirecta das más políticas dos EUA, sem uns ou sem outros, o resultado também não foi dos melhores. Entre eles também andaram numa guerra civil, que em nada ajudou para o progresso do país ou para o bem estar das populações.
    A China é de facto uma ‘maré vermelha’ que vai avançando lentamente e despercebida entre as intervenções dos EUA. África, está nas suas mãos. Esta semana ouvia um economista a falar da compra de vários bancos em África por parte da China

  3. Junho 20, 2008 10:06 am

    Sim, é verdade. Esses povos andam sempre em conflito, matavam-se talvez em menor número…
    Notícia da semana: o Honda a hidrogénio. Isso sim, fiquei satisfeita e quero um! Sobre ontem, nem digo nada…
    Agora é que é, bom fim-de-semana.

  4. Junho 20, 2008 2:20 pm

    :) Vi a notícia e também fiquei bastante contente. Porém, o ‘Público’ apresenta informação importante a esse respeito.
    «Um carro que consome hidrogénio e um escape do qual sai apenas vapor de água, em vez de gases nocivos para o ambiente, parece uma ideia maravilhosa para qualquer ecologista principiante. Mas há que contar com as emissões de dióxido de carbono (CO2) necessárias para produzir o hidrogénio.
    Além disso, muitos acusam os construtores de automóveis de conluio com as petrolíferas por não proporem veículos eléctricos em que bastasse recarregar a bateria ao fim do dia, como se de um telemóvel se tratasse. A maior parte da electricidade é porém produzida a partir de centrais térmicas que funcionam com combustíveis fósseis.»
    «O preço do hidrogénio é que é, para já, assustador: oito euros o quilo nos três postos de combustível de que a petrolífera Total dispõe em Munique, Frankfurt e Berlim. Percorrer 200 quilómetros a bordo de um BMW série 7 a gastar hidrogénio implica gastar 64 euros. »
    A ler,
    http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain2%2Easp%3Fdt%3D20080620%26page%3D6%26c%3DC

  5. Junho 25, 2008 2:09 pm

    pois é
    não há, a curto prazo, alternativa credivel para o mercado energético.
    o processo de fabrico e armazenagem do hidrogénio é extremamente dispendioso, logo economicamente inviável, embora juntar moléculas de hidrogénio e água, as mais abundantes na natureza, nos possa conduzir à ilusão que as que as coisas são fáceis de fazer.

    ps, e parabéns pelo blogue, que não conhecia

  6. Dezembro 10, 2010 9:11 pm

    Parabéns por este grandioso espaço.

    abraços

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