Via Algarviana
Desde 2007 que estou para falar de uma via longitudinal do Algarve, ideal para quem gosta da Natureza, e sobretudo, para quem está disposto a caminhar 30Km num só dia. Desta vez, depois do meu vizinho de Monchique ter decidido dar corda aos sapatinhos e aventurar-se numa caminhada que durou 14 dias, achei que estava na altura de divulgar uma Via que dá a conhecer um Algarve profundo.
.
.
O que é a Via Algarviana?
Trata-se de um projecto nascido em 1995, fruto da troca de ideias e da conjugação de esforços entre a Associação Almargem e os Algarve Walkers, com o objectivo de implementar uma rota pedestre entre o Baixo Guadiana e o Cabo de S. Vicente, atravessando o interior do Algarve.
O projecto é liderado pela Almargem e tem como parceiros a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento do Algarve, a Associação de Munícipios, e as Câmaras Municipais de Alcoutim, Castro Marim, Tavira, S. Brás de Alportel, Loulé, Silves e Lagos. Estão ainda envolvidas entidades como a Associação In Loco.
Os custos totais envolvidos na implementação da Via Algarviana, rondam os 350 mil euros, os quais serão fundamentalmente utilizados no equipamento, sinalização e divulgação do percurso.
.

.
“um projecto estruturante para o interior algarvio”
A Via Algarviana é um itinerário pedestre com uma extensão de 301 km que percorre o interior do Algarve, entre Alcoutim e o Cabo de S. Vicente, passando por diversos locais como Vaqueiros, Salir, Silves, Monchique e Bensafrim, atravessando um total de nove concelhos, e 21 freguesias.
O principal objectivo deste projecto é promover o desenvolvimento sustentado das regiões serranas do Algarve, através da valorização do seu património cultural e ambiental, e da consolidação de pequenas iniciativas económicas locais, assumindo-se no futuro como a espinha-dorsal de uma rede algarvia de caminhos rurais, integrando e interligando percursos já existentes (por exemplo em Cachopo, Barranco do Velho, S. Bartolomeu de Messines ou Monchique), potenciando assim a criação de projectos semelhantes noutros locais.
.

.
De igual forma, a Via Algarviana pretende fomentar e potenciar a prática do pedestrianismo na região, como componente do ecoturismo, contribuindo assim para diversificar a oferta turística da região, criando um novo produto, mas igualmente combatendo a sazonalidade do turismo. O projecto visa ainda contribuir para atenuar os efeitos do fenómeno da desertificação (humana) que afecta o interior do Algarve, promovendo a melhoria da qualidade de vida das populações serrana.
A Via Algarviana interligar-se-á com vários outros percursos, garantindo assim a possibilidade dos caminheiros seleccionarem os trajectos de acordo com os seus interesses e capacidades físicas. Ao longo deste roteiro, será possível seleccionar o troço a percorrer de acordo com o grau de dificuldade, a extensão, a paisagem, a riqueza botânica e faunística, a oferta cultural, as condições de alojamento e restauração, etc.
Futuramente pretende-se que Via Algarviana se constitua como uma Grande Rota (GR13), e simultaneamente, que venha a a fazer parte das Rotas Trans-europeias, ligando-se, em Tarifa (Espanha), ao E4 (a rota das grande montanhas que se inicia na costa do Peloponeso, na Grécia) e ao E9 (que liga São Petersburgo, na Rússia).
.

.
Etapas
01 – Alcoutim a Balurcos 24,20 Km
02 – Balurcos a Furnazinhas 14,30 Km
03 – Furnazinhas a Vaqueiros 20,30 Km
04 – Vaqueiros a Cachopo 14,88 Km
05 – Cachopo a Barranco do Velho 29,10 Km
06 – Barranco do Velho a Salir 14,90 Km
07 – Salir a Alte 16,20 Km
08 – Alte a São Bartolomeu de Messines 19,30 Km
09 – São Bartolomeu de Messines a Silves 27,60 Km
10 – Silves a Monchique 28,20 Km
11 – Monchique a Marmelete 14,70 Km
12 – Marmelete a Bensafrim 30,00 Km
13 – Bensafrim a Vila do Bispo 30,19 Km
14 – Vila do Bispo a Cabo São Vicente 17,65 Km
.

.
Os relatos de quem pôs pés a caminho
«Que semp’e fui à Via Algarviana, lá isso fui. Mái haveram de ver c’m’ é qu’ ê ch’guí cá… Vinha todo derrengado!… Olhe, os pés nã nos sentia, o bucho das pernas cudava d’ arrenbentar, as cruzes era c’m’ fogo e a espinha já quái que nã aguentava o peso da m’chila.
Más isto, c’m’ mái vale um gosto que cem menrés na alsebêra, nã há nada c’m’ um homem se jogar p’ à frente e seja o que Dés qu’ser. Foi o qu’ ê cá fiz. Abalí… e pronto. Mái que foi custoso, ‘tejam certos que foi. E munto…
(…)
Ora ê cá, que gosto de fazer as coisas à minha manêra, devagarinho e passo certo, vi-me impeçado p’ ôs dar àgu-ento logo até à pr’mêra paraja p’ à bucha. A minha sorte foi que tamém ‘tava p’a lá um, béque-me alemão, assim um coisinho p’ ô gordo, e o homem nã ‘tava lá munto ac’st’mado a andar – p’a d’zer a verdade, vi jêtes d’ ele arrèlar dum tôdo logo ô pr’mêro dia…
C’mo ele desatô a f’car p’a trás, pensí cá p’ra mim:
- Olha, esta vem a mê favor. Assim já nã sô ê cá a dar parte de fraco. Eles hã-de se ver obrigados a abrandar o passo e esperarem p’r o homem…
E assim foi.»
Todo o relato do Refoista, aqui “Punhana, qu’ a Via Algarviana ia arrebentando com-migo”
.
«Depois de 14 longos dias de caminhada, eis que chegámos ao ponto mais ocidente da Europa, o Cabo de S. Vicente. Alcançámos a vitória e cumprimos o prometido: percorremos a Via Algarviana! Os nossos companheiros e amigos vieram partilhar este último percurso e apoiar-nos nesta bela etapa. De Vila do Bispo, um grupo de 26 bem dispostos caminheiros avançaram em direcção a Sudoeste, em busca do nosso “Santo Graal”! E acreditem, valeu a pena!»
Do Blogue do recente evento da Via Algarviana, aqui.
.

.
Links a consultar
.
Via Algarviana (site oficial)
.
.
Pedestrianismo e Percursos Pedestres (um Blogue para quem gosta de caminhar)
.
14 dias em imagens captadas pelo Refoista
.
Termino a citar um artigo do Observatório do Algarve, a propósito desta Via,
“Porque por ali ainda vai havendo riachos em que a água corre cristalina e se pode beber, do interior das mãos em concha.”