Dith Pran, Randy Pausch e o Pâncreas

2008 Abril 8

Hoje, 8 de Abril, Dia Mundial da Luta contra o Cancro, decidi falar de 2 personalidades com um elo comum, o cancro do Pâncreas. Duas personalidades que são um exemplo de força, coragem e determinação.

Dith Pran

Morreu a 30 de Março de 2008, em New Jersey, USA, vítima de um cancro no pâncreas. O diagnóstico tinha ocorrido apenas em Janeiro deste ano.

O nome de Dith Pran ficará sempre ligado à luta pela sobrevivência ao governo de Pol Pot e ao seu partido, o Khmer Vermelho. Entre 1975 e 1979, cerca de 1,7 milhões de Cambojanos foram mortos pela acção directa deste governo sanguinário, quer por execuções em massa, fome ou trabalhos forçados. O número de mortos representou entre 25% a 30% da população total do Cambodja.

A história de Dith Pran tornou-se mundialmente conhecida através do livro “The Death and Life of Dith Pran” (artigo no The New York Times, 1984), escrito pelo seu grande amigo, Sydney Schanberg, vencedor em 1976 do Prémio Pulitzer, na categoria de Reportagem Internacional, pela sua cobertura jornalística dos acontecimentos que levaram o Khmer Vermelho ao poder. Depois do livro, foi a vez do cinema, com o filme “The Killing Fields”, de 1984, realizado por Roland Joffé, vencedor de 3 Óscares, incluindo o de Melhor Actor Secundário, atribuído ao actor Haing S. Ngor – também ele um refugiado do Cambodja – que representou o papel de Dith Pran.

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A sua fluência em Inglês e Francês permitiram que Dith Pran arranjasse trabalho num conhecido hotel de Angkor. Numa altura em que o Khmer Vermelho tinha o apoio da maioria dos Cambojanos e entra em Guerra Civil com o governo de Phnom Penh, a industria do turismo no Camboja desparece e Dith Pran vê-se obrigado a ir para a capital, onde oferece os seus serviços aos jornalistas estrangeiros como tradutor e guia. É nessa altura, em 1972, que ele conhece Sydney Schanberg.

Graças ao trabalho de Dith Pran, que conseguia negociar a passagem bloqueios de estrada e que também revelava um instinto nato para entender o trabalho de jornalismo, Sydney Schanberg passou a ter acesso a locais vedados à maioria dos jornalistas e dessa forma, começou a escrever artigos numa perspectiva privilegiada. Falou do problema dos refugiados, do colapso dos hospitais e numa ocasião, da morte de 150 agricultores por acção directa de um bombardeamento acidental da aviação americana. Foram estes artigos que permitiram a Sydney Schanberg ganhar em 1976 o Prémio Pulitzer.

Em 1975, era evidente que Phnom Penh iria cair nas mãos do Khmer Vermelho. Prevendo essa situação, o governo americano anuncia o fecho da sua embaixada e solicita a evacuação dos seus cidadãos. Numa decisão que só pode ser entendida por alguém que amava o jornalismo, Dith Pran consegue que a sua mulher e os 4 filhos sejam encaminhados para os EUA, e decide ficar em Phnom Penh a ajudar Sydney Schanberg a relatar os acontecimentos que estariam para acontecer, da queda de Phnom Penh.

Além do reconhecimento a nível profissional que Sydney Schanberg tinha para com Dith Pran, também lhe pode ter ficado a dever a dever a vida. Logo após a queda de Phnom Penh, Sydney Schanberg e outros dois jornalistas encontravam-se a fazer uma reportagem num hospital, quando foram capturados pelos soldados do Khmer Vermelho. Se fossem associados a um governo inimigo, seriam certamente executados, já que o Khmer Vermelho não tinha hesitações nesses casos. Dith Pran passou mais de duas horas a pedir clemência pela vida dos 3 jornalistas, alegando que os mesmos eram repórteres franceses e como tal, trabalhavam para um país neutral ao conflito. Os seus esforços tiveram sucesso e todos refugiaram-se de seguida na embaixada francesa. Era evidente que a situação estava demasiadamente perigosa para permitir o trabalho dos jornalistas.

Logo após este acontecimento, o Khmer Vermelho exigiu que todos os cidadãos cambojanos que estivessem refugiados na embaixada francesa fossem expulsos. Num acto de desespero, Sydney Schanberg e outro jornalista tentaram, sem sucesso, arranjar um passaporte falso para Dith Pran, que confirmasse a sua cidadania francesa.

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À esquerda, Dith Pran após ter escapado do Cambodja em 1979.

À direita, Haing S. Ngor no papel de Dith Pran, no filme “The Killing Fields”

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Dith Pran foi expulso da embaixada e tornou-se num dos milhões de cambojanos que diariamente lutavam para não serem mortos nas mãos do Khmer Vermelho. Os profissionais, monges budistas ou padres cristãos, e dissidentes de qualquer espécie, eram eliminados de forma sistemática. Fábricas e escolas eram fechadas. O ano de 1975 havia sido proclamado o “Ano Zero” pelo Khmer Vermelho e todos os cidadãos seriam agora camponeses. Durante 4 anos, o mundo permaneceu imóvel perante o genocídio de cerca de 1,7 milhões de seres humanos.

Dith Pran inventou uma profissão de motorista de taxi iletrado e isso permitiu-lhe ser encaminhado para uma remota aldeia, onde durante mais de dois anos, 14 horas por dias, trabalhou na agricultura de forma forçada. A comida era escassa e a determinada altura, a dieta de Pran incluía ratos, lagartixas e insectos. Nas suas palavras, o governo de Pol Pot distribuía comida de forma escassa, para garantir que o povo ficasse fraco e incapaz de se revoltar contra ele.

Mais tarde, Dith Pran conseguiu regressar à aldeia natal, onde descobriu que o seu pai tinha morrido à fome e que 3 dos seus irmãos e uma irmã tinham sido assassinados pelo Khmer Vermelho. A sua mãe morreu depois de subnutrição. Quando as autoridades descobriram que ele tinha trabalhado para o The New York Times, Dith Pran fugiu para a Tailândia. Dois outros cambojanos que o acompanharam nessa fuga, morreram vítimas de minas terrestres.

Durante 4 anos anos, Sydney Schanberg tudo fez para tentar descobrir o seu amigo ou para saber notícias dele. Em 1979, quando soube que Dith Pran se encontrava num campo de refugiados na Tailândia, foi de imediato ao seu encontro. Essa é a cena final do filme “The Killing Fields”,

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Sydney Schanberg: “You forgive me?

Dith Pran: “Nothing to forgive Sydney. Nothing.”

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Ficou a viver nos EUA, trabalhando como fotojornalista do The New York Times. Em 1986 obteve cidadania americana. Durante a sua vida, deu a conhecer ao mundo o genocídio que ocorreu no Cambodja e participou em vários projectos humanitários.

Nas suas palavras: «I must speak for those who did not survive and for those who still suffer… Like one of my heroes, Elie Wiesel, who alerts the world to the horrors of the Jewish holocaust, I try to awaken the world to the holocaust of Cambodia, for all tragedies have universal implications

Randy Pausch

É um Americano de 47 anos que sabe que vai morrer, não dentro de décadas, quando for velho e tiver netos, mas dentro de semanas, ou meses, na melhor das hipóteses.

Randy Pausch é um professor de informática da Universidade de Carnegie-Mellon, em Pittsburg, Pensilvânia, casado e pai de 3 crianças pequenas, que sofre de um cancro terminal do pâncreas.

Nesta universidade existe uma tradição na qual os professores podiam «fingir» que estavam a morrer e efectuarem uma “última palestra”, durante a qual tinham a oportunidade de transmitir aos seus alunos e à posteridade as lições de vida que achavam mais relevantes. A 18 de Setembro de 2007, Randy Pausch realizou essa ‘última palestra’, na condição de quem efectivamente estava a morrer.

Nessa palestra começou por dizer que se sentia fantasticamente bem, e para o provar, perante uma assistência de 400 pessoas, efectuou uma série de flexões ao mais alto nível. Durante a hora seguinte, Pausch não falou da sua doença nem da dor que sente ao saber que não irá acompanhar o crescimento dos seus filhos. Falou da segunda coisa mais importante do seu ponto de vista (logo a seguir à sua esposa e filhos). Daquilo que significa “realmente realizar os seus sonhos de infância”.

O vídeo desta palestra percorreu o mundo, emocionando milhões de pessoas perante a energia, vontade de viver e de lutar, sobretudo, a atitude perante a vida e a morte deste professor.

No fim da sua palestra, perguntou: “Já perceberam qual foi o verdadeiro objecto da minha palestra? Foi como viver a vossa vida. Se a viverem de forma certa (…) os sonhos virão.” Por fim, à beira das lágrimas: “Já perceberam qual foi o segundo objecto da minha palestra? É que ela não é para vocês, é para os meus filhos. Obrigado a todos e boa noite.”

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O cancro do pâncreas vitima, por ano, dezenas de milhares de pessoas nos EUA e na Europa. Não há método de diagnóstico precoce e uma vez declarado, as hipóteses de sobreviver para além de uns meses são escassas. Este cancro costuma-se designar por “doença órfã”. Basicamente, é uma doença que não interessa aos cientistas e para a qual não tem havido, grandes avanços terapêuticos. É precisamente esta situação que enfurece Randy Pausch. Ele tornou-se um activista da causa e começou a trabalhar para sensibilizar os políticos norte-americanos. Foi nesse enquadramento, apesar do seu estado debilitado das últimas semanas, que Pausch foi a Washington a 13 de Março, para falar da sua doença perante uma comissão do Congresso.

Segundo Pausch, ninguém fala deste cancro porque as suas vítimas “morrem demasiado depressa”. E os cientistas mais jovens e inovadores não estão interessados porque não há dinheiro para a investigação nesta área.

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O vídeo do seu discurso no Congresso e outros vídeos, disponíveis na sua Página Pessoal na Net, aqui.

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Qual a mensagem transmitida por Randy Pausch?

«Os muros não existem para nos deixar de fora. Existem para nos dar a oportunidade de mostrar quanto desejamos uma coisa. Estão lá para parar as outras pessoas

One Response leave one →
  1. 2008 Dezembro 3
    CÁTIA permalink

    Simplesmente um grande exemplo para todos nós…

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