Morrer na terra do ópio
«A maior experiência da minha vida está prestes a começar».
Já ouviu falar de Sérgio Pedrosa? E se eu lhe disser que foi o Pára-quedista português que morreu recentemente no Afeganistão? Sérgio Pedrosa escreveu a frase anterior na sua página do Hi5, dias antes de partir para o Afeganistão.
Na mesma página, o último registo, de 20 de Outubro, diz o seguinte «Temos feito algumas patrulhas onde as coisas tem corrido todas bem. Não tem havido problemas nenhuns e é isso que se quer. Já lá vão praticamente dois meses de missão… estou a adorar… não estou nada desiludido com esta nova experiência».
Sérgio Pedrosa morreu no Afeganistão a 24 de Novembro, durante uma patrulha nocturna, nos arredores de Cabul. A ironia é que Sérgio Pedrosa não foi vítima de fogo inimigo ou de um qualquer ataque suicida. Sérgio Pedrosa foi vítima de um acidente de viação, que ocorreu devido ao capotamento do Hummer onde seguia.
Este trágico acontecimento levou-me a falar sobre o Afeganistão e a tecer algumas considerações.
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Dramas idênticos, menções diferentes
Sérgio Pedrosa fazia parte do grupo de 162 militares portugueses que integram a missão portuguesa no Afeganistão, que está ao serviço da International Security Assistance Force (ISAF). Esta força de segurança foi estabelecida pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 20 de Dezembro de 2001, e é constituída por cerca de 35.500 militares de 37 países. Esta força foi responsável por assegurar a passagem dos destinos do país para a Administração Afegã de Transição, liderada por Hamid Karzai. Desde 2001, a ISAF tem aumentado a sua área de intervenção no Afeganistão e tem estado envolvida em operações de combate cada vez mais intensas.
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Quando se soube da morte de Sérgio Pedrosa, o Presidente da Republica foi de imediato informado desse acontecimento e pode transmitir as suas condolências em directo para as televisões. No dia seguinte, José Sócrates, no seu trajecto para Bragança onde iria tratar das concessões das auto-estradas Transmontana e do Douro Interior, fez um pequeno desvio até ao município de Gaia, com o objectivo de apresentar pessoalmente condolências à família do militar. Mais tarde, assistiu-se à chegada do corpo do militar falecido.
Os jornais e as televisões acompanharam o enterro de Sérgio Pedrosa, onde se juntaram mais de duas mil pessoas, entre as quais mais de uma centena de militares, a governadora civil do Porto e o vice-presidente da Câmara de Gaia.
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Por dia, morrem em média duas pessoas nas nossas estradas. Anualmente, o número total de mortes em acidentes de viação é idêntico ao número total de soldados mortos no Afeganistão, desde o início em 2001 da Operation Enduring Freedom. A diferença é que no Afeganistão esses soldados travam batalhas contra os Talibã ou são alvo de actos de bombistas suicidas.
Sérgio Pedrosa faleceu na sequência de um acidente de viação no Afeganistão. Se esse acidente tivesse nas nossas estradas, os portugueses nunca teriam sabido da existência deste pára-quedista e ele seria mais um número impersonalizado a manchar as trágicas estatísticas das nossas estradas.
Será que as honras atribuídas a este pára-quedista também poderiam ser estendidas às centenas de anónimos que anualmente morrem em missão de paz nas nossas estradas, seja a caminho do emprego ou de umas merecidas férias?
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Talibãs ou Droga?
No início de 2001, antes dos ataques ao WTC e do início da Operation Enduring Freedom, eram os Talibã e o seu líder, Mullah Mohammed Omar, que geriam os destinos do Afeganistão. A Ocidente pouco se ouvia falar deste país, com excepção do momento em que umas estátuas do Buda foram pulverizadas com explosivos (“A NATO no Afeganistão”).
Em 1999, o Afeganistão bateu os recordes de produção de ópio – a substância retirada da papoila, utilizada na produção de heroína – tendo produzido perto de 4000 toneladas, o que representava cerca de 75% da produção mundial. Mais do que toda a produção feita pelos países que englobam o chamado “triângulo dourado”, Tailândia, Laos e Birmânia.
Foi neste contexto que em 2001, um grupo de 12 membros do Programa de Controlo de Drogas das Nações Unidas, passou duas semanas no Afeganistão para fazer um relatório sobre a produção de ópio. Aquilo que viram deixou-os perplexos. Mullah Mohammed Omar tinha banido o cultivo de papoilas, considerando que o mesmo era contra os ensinamentos do Islão. Para garantir esta decisão, os Talibã destruíram os laboratórios de produção de heroína e prenderam os agricultores rebeldes até que os mesmos aceitassem destruir todos os seus campos de cultivo de papoilas. Segundo esses membros da ONU, na província de Nangarhar, o cultivo que antes era feito em 5100 hectares estava agora reduzido a uns insignificantes 7 hectares.
A questão é que esta proibição tinha prejudicado os agricultores cujo único sustento era a produção de ópio. Os agricultores afegãos conseguem apenas 1% dos proveitos do tráfico mundial de ópio, mas esse valor é bastante significativo para quem vive com reduzidos recursos. A produção em um hectare de terreno rendia a um agricultor cerca de 1100 dólares. O mesmo terreno, com produtos agrícolas, poderia com muita sorte render 300 dólares. Porém, nenhum agricultor se atrevia a desafiar a decisão Mullah Omar.
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Os Talibãs foram empurrados para Tora Bora, foi eleito um governo de transição e a produção de ópio voltou a instalar-se em grande escala, apesar desse governo ter definido que essa produção seria ilegal.
No entanto, actualmente tem emergido uma nova cultura que se está a sobrepor à das papoilas, constituindo mais um problema na luta contra o tráfico de droga a nível mundial. Os agricultores descobriram que a cultura de Cannabis – usada na produção de Marijuana e Haxixe – poderia ser tão rentável como a produção de ópio, sem estar sujeita às leis e controlos para a eliminação do cultivo de papoilas.
Para um hectare de terreno, a produção de Cannabis é cerca do dobro da obtida em ópio e requer um investimento muito menor. Segundo as Nações Unidas, por hectare de cultivo, os produtores de Cannabis podem ter tanto lucro como os produtores de ópio.
Citando um agricultor da província de Balkh: «Nós sabemos que a cultura de Cannabis é ilegal, porém nós somos bastante pobres e temos de cultivá-la para ajudar as nossas famílias a sobreviver (…) Eu não gosto de cultivar Papoilas ou Cannabis. Eu não quero que as pessoas se viciem nestas coisas, mas a questão é que eu tenho de alimentar os meus filhos e não tenho outra forma de o fazer». Quem será capaz de arranjar alternativas para estas justificações?
O tráfico de droga faz a fortuna de muitos e traz a desgraça a muitos mais. Será que as patrulhas no terreno, sejam do exército afegão ou da ISAF, identificam e destroem os transportes de droga ou será que existem rotas seguras, onde ninguém é incomodado, tudo graças a subornos e a participações no tráfico de droga?
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Quantos Afegãos tiveram que morrer?
A 7 de Outubro de 2001 tiveram início os bombardeamentos aéreos a posições dos Talibãs e da al-Qaeda. Até ao final da batalha de Tora Bora, em Dezembro de 2001, os bombardeamentos foram aumentando de intensidade, até serem usadas as mais potentes bombas convencionais que existem, numa resposta completamente desproporcionada para tentar capturar os líderes que orquestraram o 11 de Setembro. No início foram usadas bombas de precisão. Passou-se de mísseis de tamanho médio para mísseis Tomahawk. Seguiram-se as bombas anti-bunker com enorme poder destrutivo. Depois vieram os tapetes de bombas Cluster (CBU-87) lançados a partir dos B-52, e por fim, foram lançadas algumas Daisy Cutter (BLU-82). Acima desta bomba só mesmo uma arma nuclear.
Refere-se que as bombas Cluster são constituídas por várias dezenas de pequenas bombas, que se espalham no ar, criando explosões vastas áreas. O ‘problema’ é que têm uma taxa de insucesso de 5%, ou seja, em 220 pequenas bombas espalhadas, cerca de 10 não explodem e transformam-se em verdadeiras minas.
Por fim, a Daisy Cutter é uma bomba convencional mas com um poder de destruição idêntico ao de uma bomba nuclear, capaz de desintegrar tudo o que esteja num raio de 550m. Dizem que foram lançadas 4 destas bombas, apenas com o propósito de enervar as tropas inimigas.
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O intensificar das campanhas de bombardeamento tinha como objectivo prevenir a perda de tropas no terreno e prevenir a perda de meios aéreos bastante sofisticados e dispendiosos. Para garantir este objectivo, os bombardeamentos passaram a ser feitos a grande altitude, com consequente acréscimo na probabilidade de haver baixas civis.
As instalações militares dos Talibã tinham sido na sua maioria herdadas da presença Soviética no Afeganistão nos anos 80. Estas instalações estavam concentradas em cidades de forma a serem melhor defendidas de ataques dos Mujahadeen. Os bombardeamentos intensos a estas instalações apenas poderiam ter como resultado um número elevado de baixas civis. O ‘custo’ de um afegão morto seria nulo, desde que essa morte de um civil pudesse ser escondida da vista dos americanos. O fundamental seria garantir a integridade das futuras tropas no terreno, e evitar a todo o custo a imagem de soldados a regressarem dentro de sacos para cadáveres.
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“Os mortos invisíveis da guerra do Iraque” tinham existido bem mais cedo na guerra do Afeganistão. A decisão do Pentágono em esconder danos colaterais tinha sido tomada a 11 de Outubro, após os bombardeamentos ocorridos na noite anterior sobre Darunta, perto de Jalalabad, onde alguns relatórios mencionavam pesadas baixas civis.
Duncan Campbell, um jornalista de investigação que denunciou o sistema ECHELON (“Cuidadinho com as conversas!”), alertou para o facto do Pentágono estar a gastar milhões de dólares para impedir que os media pudessem comprar imagens provenientes de satélites civis que mostrassem os efeitos dos bombardeamentos americanos no Afeganistão.
O poder das imagens na era da informação global era temido por Bush e o Pentágono. Logo, era fundamental prevenir que imagens de sofrimento humano, causado pelos bombardeamentos, fossem vistas pelas audiências nos Estados Unidos. O objectivo seria fazer uma guerra sem testemunhas.
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Desde o dia 7 de Outubro a 10 de Dezembro de 2001, estima-se que tenham morrido entre 2700 a 3000 civis afegãos, em consequência dos bombardeamentos americanos.
A aparente derrota dos Talibã terá sido uma vitória dos americanos e dos seus aliados. O número elevado de danos colaterais foi sem dúvida uma derrota. Mas os desaparecimentos de Mullah Mohammed Omar e de Usama Bin Laden foram um verdadeiro fracasso nos objectivos desta guerra.
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Uma situação explosiva
2007 foi o ano mais sangrento desde a queda do regime Talibã em 2001. De acordo com um porta-voz do Ministério da Defesa afegão, o aumento dos ataques contra forças afegãs e da ISAF já provocaram a morte de quase 6000 pessoas, na sua maior parte talibãs. Dessas mortes, 1000 dizem referem-se a militares e polícias afegãos e 200 a soldados estrangeiros.
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Num relatório publicado pela “The Senlis Council”, uma organização internacional que recentemente veio defender o licenciamento de ópio no Afeganistão para fins farmacêuticos, é mencionado que os Talibãs estão a controlar vastas áreas no Afeganistão e estão a ganhar legitimidade política perante o povo afegão. Estimava-se que já controlassem cerca de 54% do território. Para contrariar essa situação, o relatório indicava que as forças da NATO deveriam ser duplicadas para cerca de 80.000 soldados, com capacidade para perseguir rebeldes já em território Paquistanês.
Nesse mesmo relatório era ainda indicado de forma preocupante que a questão actual não seria saber se os Talibã poderiam alguma vez regressar a Kabul mas sim saber quando isso iria acontecer e de que forma.
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Esta foi uma semana sangrenta em Kabul. Ocorreram três ataques com bombistas suicidas, tendo o último deles provocado 13 mortos entre soldados afegãos e civis. A escalada de violência tem sido evidente e a probabilidade de haverem baixas nas forças da ISAF tem vindo a aumentar de dia para dia.
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Fugimos aos compromissos?
No passado dia 31 de Outubro, o ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, anunciou no Parlamento a redução do contingente militar português na força da NATO no Afeganistão, actualmente de 162 militares, para uma equipa de 15 militares e um avião C-130. Essa redução sucederia em Agosto de 2008.
A primeira reacção a este anúncio foi feita pelo embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Alfred Hoffman, que afirmou ter ficado “profundamente preocupado quando soube dos planos de Portugal para reduzir os seus esforços em prol da jovem democracia afegã”. No entanto, a surpresa sobre esta decisão não foi total, já que segundo as suas palavras «os líderes europeus parecem mais intimidados pelas sondagens do que determinados a convencer as suas opiniões públicas de que combate contra os Talibã devem prosseguir».
Em paralelo, houve uma decisão recente do governo holandês de prolongar até ao fim de 2010 a sua missão militar no âmbito da força da ISAF, num total de 1665 militares.
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É deveras espantoso que este embaixador venha falar sobre os receios dos líderes europeus em relação a sondagens que estejam relacionadas com tomadas de decisão sobre o Afeganistão ou o Iraque. Este embaixador representa o país que tomou as seguintes decisões ou executou os seguintes actos:
- Tomou medidas para banir ou censurar todas as imagens negativas sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque, em particular, as que mostrassem civis ou soldados americanos mortos. Em 2003, a cerimónia da chegada de um triste “carregamento” de caixões à base aérea de Dover, no Delaware, foi banida das televisões.
- Forjou provas sobre armas de destruição maciça no Iraque, para garantir o consentimento mundial para uma invasão desse país e para convencer os líderes europeus a acompanhá-lo, os tais que só se preocupam com sondagens.
- Matou milhares de civis no Afeganistão devido a bombardeamentos maciços, nada cirúrgicos e totalmente desproporcionados face ao meios do inimigo, apenas para evitar que pudessem haver baixas no seu exército no terreno. Todos foram bombardeados da mesma forma, fossem Talibã, al-Qaeda, complexos militares, agricultores ou aldeias com casas de barro.
- Criou a prisão de Guantanamo para onde levou supostos membros da al-Qaeda ligados ao terrorismo e ao 11 de Setembro, mantendo-os encarcerados longe dos olhares indiscretos. Hoje ainda existem cerca de 355 detidos, os quais, muito provavelmente, ainda desconhecem os motivos da sua detenção.
- Criou a prisão de Abu Ghraib, no Iraque, onde foram praticados actos bárbaros contra a dignidade humana. Hoje, segundo o jornal New York Times, ficámos a saber que a CIA terá destruído vídeos com interrogatórios realizados nesta prisão a membros da al-Qaeda, que mostravam o uso de «técnicas duras» para obter informações.
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Espero que a preocupação deste embaixador não queira dizer que a redução do contingente português no Afeganistão seja uma fuga às nossas responsabilidades perante a NATO ou a ONU. Actualmente, Portugal participa em missões de paz ou humanitárias nos seguintes países: Kosovo, Afeganistão, Líbano, Bósnia-Herzegovina, Iraque, Timor-Leste, Rep. Dem. Congo e Sudão. As forças portuguesas têm cumprido as suas missões com enorme distinção e reconhecimento pelas populações locais. O embaixador americano deveria antes preocupar-se em identificar o que está mal no Afeganistão e em explicar se as forças da ISAF vão ter de combater os Talibã às portas de Kabul. E no que toca a preocupações com sondagens, só mesmo nos Estados Unidos para um presidente ser reeleito, tendo tido responsabilidade directa nas situações antes mencionadas.
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Feitas estas considerações, termino com dois desejos.
Que todos os soldados no Afeganistão terminem as suas missões e regressem a casa sãos e salvos.
Que o povo afegão consiga uma merecida Paz com carácter duradouro.




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