Salada Russa Simples

2007 Outubro 10
by bluewater68

Para este texto poderia citar o Denzel Washington, no papel do advogado Joe Miller, no filme Philadelphia: “expliquem-me as confusões que andam a acontecer na Rússia, como se eu tivesse quatro anos”.

Para se entender de forma simples todas as tramas e relações que se vivem na Rússia, sugiro que se comece por olhar para a figura seguinte.

.

 

.

Do texto anterior, “Uma das profissões mais perigosas do mundo? Jornalista Russo!”, ficou evidente haver um elo comum à maioria das situações relatadas. Esse elo refere-se ao oligarca russo, Boris Berezovsky (perfil).

.

Yelena Tregubova * Boris Berezovsky * Andrei Lugovoi

Yelena Tregubova escrevia para o Kommersant e fazia parte do grupo de jornalistas com acesso ao Kremlin. Em Outubro de 2003 lançou um livro, onde criticava Putin pelo controlo dos media. A primeira consequência desse acto foi o seu despedimento do Kommersant. Em Fevereiro de 2004, escapou à explosão de uma bomba, detonada à porta do seu apartamento.

Publicou novo livro, onde narrava as pressões sofridas para evitar a publicação do livro anterior. Dessa vez, sofreu uma ameaça por parte de dois homens.

Em desespero, e sem saber a quem recorrer, solicitou ajuda a Boris Berezovsky. Este contactou Andrei Lugovoi, que providenciou protecção para Yelena Tregubova, que entretanto conseguiu asilo em Inglaterra.

.

Anna Politkovskaya * Boris Berezovsky

Na sequência de uma recente detenção de 10 suspeitos do assassinato de Anna Politkovskaya, o Procurador-geral foi questionado pelos jornalistas se acreditava que Boris Berezovsky fosse o responsável pelo crime. Este respondeu que a investigação levava a concluir que só alguém residente no estrangeiro estaria interessado na morte da jornalista, «forças interessadas em destabilizar o país, em provocar crises de mercado, em regressar ao antigo sistema onde o dinheiro e as oligarquias mandavam, em desacreditar a liderança do país, poderiam estar interessadas neste crime. Anna Politkovskaya sabia quem tinha ordenado a sua morte. Ela encontrou-se com ela mais que uma vez»

Esta acusação dissimulada começou por ser apresentada por Putin e ia precisamente contra Boris Berezovsky. Ele vive no estrangeiro, nunca escondeu o seu objectivo de derrubar Putin e Anna Politkovskaya até se encontrou com ele em Londres por diversas vezes.

.

Alexander Litvinenko * Andrei Lugovoi * Vladimir Putin

Alexander Litvinenko serviu no exército russo durante oito anos, ingressando em 1988 nos serviços soviéticos de contra-informação, especializando-se na luta contra o crime organizado. No pico da sua carreira, era um oficial do topo, num dos mais secretos departamentos do KGB, que analisava organizações relacionadas com o crime.

.

Foi envenenado com polónio-210 radioactivo, no dia 1 de Novembro de 2006.

Nesse dia, almoçou no Itsu, um restaurante de sushi na Piccadilly, em Londres, onde esteve acompanhado de Mario Scaramella, um agente italiano destacado pelo parlamento desse país para investigar o suposto envolvimento de agentes russos na morte de Politkovskaya. Acredita-se que tenha sido nesse restaurante onde tenha ocorrido o envenenamento.

Também nesse dia, Litvinenko encontrou-se com Andrei Lugovoi e Dimitri Kovtun num bar de um hotel em Londres. Mais tarde, vestígios de radiação foram encontrados em várias localizações associadas à presença dos dois empresários russos, nomeadamente, Aeroporto de Heathrow, Hotel Millennium, Escritório de Berezovsky, Restaurante Itsu, Estádio do Arsenal e Casa de Litvinenko.

Além destes locais, a polícia alemã também detectou vestígios de radiação em Hamburgo, nos locais por onde passou Dimitri Kovtun. Ele chegou a esta cidade a 28 de Outubro e voou para Londres a 1 de Novembro, dia em que se encontrou com Litvinenko.

.

Andrei Lugovoi * Boris Berezovsky * Vladimir Putin

Andrei Lugovoi começou por ser guarda-costas do ex-primeiro-ministro russo Yegor Gaidar. Mais tarde foi colaborador próximo de Boris Berezovsky, a quem chama de «demónio». Chefiou o departamento de segurança da televisão pública, quando esta era controlada por Berezovsky. Foi acusado de organizar a fuga de um sócio de Berezovsky e condenado a um ano e dois meses de prisão. Esse acontecimento não o impediu de enriquecer, através de negócios em que se envolveu com antigos companheiros do KGB, como Dimitri Kovtun.

Actualmente, Lugovoi detém uma empresa de segurança privada e uma produtora de bebidas alcoólicas, havendo quem afirme que esse sucesso nos negócio apenas foi possível graças a um pacto que estabeleceu com o FSB, estando obrigado a participar em determinadas operações.

.

Numa conferência de imprensa em Maio de 2007, Lugovoi afirmou que os ingleses lhe propuseram que reunisse “informações comprometedoras sobre Vladimir Putin, e sobre os membros da sua família”, proposta essa que diz ter recusado.

Quanto à acusação do seu envolvimento na morte de Litvinenko, Lugovoi contrapôs três hipóteses: Litvinenko teria sido morto, ou pelo MI6 (serviços secretos britânicos) ou a mando de Boris Berezovsky, ou pela máfia russa.

Sobre o rasto de pólinio-210 que teria sido deixado por si, afirmou que tanto ele como Dimitri Kovtun, outro ex-KGB que o acompanhou na visita a Litvinenko, teriam sido «marcados, intencionalmente, com polónio, para serem usados num escândalo político» contra Putine, de quem Litvinenko era um opositor.

.

A justiça britânica enviou um pedido ao Ministério Público russo para que Andrei Lugovoi fosse extraditado para Inglaterra. Porém, a Rússia recusou-se a efectuar esse pedido e contrapõe que Lugovoi fosse julgado em solo nacional, desde que Londres apresente provas concretas da sua culpa na morte de Litvinenko.

Em retaliação à recusa de Moscovo em extraditar Lugovoi, o ministério britânico dos Negócios Estrangeiros procede à expulsão de diplomatas russos com domicílio em Londres, alegadamente por estarem ligados ao FSB (serviços secretos russos). Cá se fazem, cá se pagam e o ministério russo dos Negócios Estrangeiros procede à expulsão de quatro diplomatas britânicos.

Esta troca de mimos só foi serenada com a intervenção pública de Vladimir Putin que apelou ao bom senso.

.

Alexander Litvinenko * Vladimir Putin * Boris Berezovsky

Litvinenko, em várias entrevistas, acusou os serviços de topo das forças armadas russas de terem organizado o ataque que foi feito em 1999 contra o parlamento Arménio e que vitimou o seu primeiro-ministro, Vazgen Sarkisian.

Ainda relativo a 1999, Litvinenko alega que foram agentes do FSB a coordenar os atentados bombistas a apartamentos em Moscovo, que provocaram mais de 300 mortos. Os comunicados oficiais atribuíram a autoria desses atentados a separatistas Chechenos e esse incidente serviu de desculpa para o assalto à capital da Chechénia, que provocou milhares de mortos.

No seu livro “Gang from Lubyanka”, Litvinenko alega que Vladimir Putin, durante o tempo em que trabalhou no FSB, esteve pessoalmente envolvido no crime organizado.

Em 1998, numa conferência de imprensa em Moscovo, Litvinenko afirmou que o KGB tinha ordenado o assassinato de Boris Berezovsky.

Em 2003, Litvinenko, numa entrevista num programa da televisão Australiana, afirmou que dois dos terroristas Chechenos, envolvidos em 2002 no sequestro de centenas de pessoas no teatro de Moscovo, trabalhavam para o FSB e que esta agência tinha manipulado os rebeldes graças eles. A tese de haver dois agentes do FSB infiltrados nesta operação e do FSB estar envolvido nesse acto terrorista, foi também partilhada por Anna Politkovskaya, que na altura do sequestro teve um papel de negociadora.

Em 2005, numa entrevista a um jornal Polaco, foi a vez de afirmar que líderes da al-Qaeda tinham estado em Dagestan, no ano de 1998, a ser treinados pelo FSB.

.

Quando Litvinenko acabou por fugir para Inglaterra, onde lhe concederam asilo, ele e a sua família passaram ser inteiramente financiados por Boris Berezovsky. Em 2002, na sequência da publicação do livro de Litvinenko, Boris Berezovsky financiou a conferência de imprensa, contratou um conhecido relações públicas e pagou a viagem a 50 jornalistas russos bem como algumas viúvas de vítimas dos atentados nos apartamentos em Moscovo, num custo que ascendeu aos 700.000€

.

Paul Joyal era um americano perito em assuntos de segurança e comentador de televisão, com abordagens frequentes a assuntos relacionados com a Rússia. Nas suas deslocações a Londres tinha estabelecido uma amizade com Litvinenko. Após a morte deste, Paul Joyal, num dos seus comentários, alegou que o governo russo e o seu presidente estariam directamente envolvidos no assassinato de Litvinenko, salientando «uma mensagem foi enviada para todos os que querem falar contra o Kremlin – ‘se o fizer, não interessa quem você é ou onde está, nós iremos encontrá-lo e silenciá-lo da maneira mais horrível possível».

Quatro dias após ter feito estas declarações, foi atingido a tiro por dois homens, quando saiu do seu carro estacionado em frente à sua casa em Adelphi, Maryland. Os seus atacantes nunca foram encontrados e a suspeita do móbil do crime incidiu sobre um roubo.

.

Alexander Litvinenko * Chantagem * Venenos

Uma das justificações para a morte de Litvinenko estaria relacionada com uma enorme operação de chantagem que este ex-agente do KGB estaria a preparar.

Litvinenko afirmava que possuía contactos junto de figuras chave no FSB que lhe poderiam fornecer dossiers com informação confidencial sobre qualquer alvo que este indicasse.

Em Maio de 2006, Litvinenko contactou Júlia Svetlichnaja, uma académica russa que estava a escrever um livro sobre a Chechénia, e perguntou-lhe se estaria interessada em envolver-se num projecto de chantagem de grande dimensão. Ele informou-a que tencionava chantagear ou vender informação sensível sobre todos os tipos de pessoas poderosas, incluindo oligarcas, oficiais corruptos e fontes do Kremlin. Foi mencionado um montante de cerca de 15.000€ por cada documento do FSB que não fosse divulgado.

Litvinenko provou a Svetlichnaja a veracidade das suas fontes ao enviar-lhe um documento confidencial relativo a um relatório do FSB. Nesse relatório eram apontadas ligações entre o crime organizado na Rússia e a Duma, o Parlamento Russo, e indicava um conjunto de nomes de políticos alegadamente envolvidos em actividades criminais ao mais alto nível.

.

O uso de veneno contra oponentes políticos tem sido uma característica do KGB. Antes de Politkovskaya ser morta com vários tiros, já tinha existido uma tentativa de assassinato com veneno.

O presidente da Ucrânia e declarado opositor do Kremlin, Viktor Yushchenko, ficou com a cara desfigurada após ingestão de uma toxina mortífera, misturada com a comida.

Antigos agentes soviéticos já mencionaram sobre a existência de uma divisão clandestina de um serviço secreto, conhecido como “Laboratório 12” ou “Kamera”, implementado em 1920, com o único propósito de desenvolver venenos que não sejam detectados em autópsias.

.

Boris Berezovsky * Outros

O nome Boris Berezovsky tem sido mencionado em muitos casos que comprometem o governo Russo. Diz-se que foi um dos financiadores da “Revolução Laranja” efectuada por Viktor Yushchenko na Ucrânia.

Em 1996, a Revista Forbes apresentou um artigo com o título “Godfather of the Kremlin?”, escrito por Paul Klebnikov, que retratava Boris Berezovsky como um chefe da máfia, capaz de assassinar os seus rivais. Berezovsky moveu um processo contra a Forbes, tendo esta revista sido obrigada a retractar-se das alegações anteriores. Mais tarde, Paul Klebnikov publicou um livro com o mesmo título com que foi publicado o artigo na Forbes.

Klebnikov mudou-se para Moscovo na qualidade de editor da edição russa da revista Forbes. Em Julho de 2004 foi morto a tiro na sequência de um assalto por dois desconhecidos (onde é que já ouvi isto?).

.

Simples, não!?

.

Livros

Terror na Rússia” – Alexander Litvinenko e Yuri Felshtinsky – Julho 2007

A Rússia de Putin” – Anna Politkovskaya – Outubro 2007

Laboratório de Venenos” – Arkadi Vaksberg – 2007

Godfather of the Kremlin” – Paul Klebnikov – 2001

.

Artigo

Livros importantes sobre a Rússia” – blog Da Rússia (José Milhazes)

Ainda sem comentários

Deixar uma Resposta

Note: You can use basic XHTML in your comments. Your email address will never be published.

Subscrever o feed deste comentário por RSS