Uma das profissões mais perigosas do mundo? Jornalista Russo!

2007 Agosto 30
by bluewater68

Sabe quem é o homem que está na fotografia? Trata-se de Ivan Safronov. Um ex-coronel do exército russo, que em 1997 abandonou a carreira militar e dedicou-se ao jornalismo, sendo especialista em assuntos militares do jornal Kommersant. Morreu com 51 anos, quando no dia 2 de Março de 2007 ‘caiu’ do 5º andar do bloco de apartamentos onde vivia. O seu apartamento ficava localizado no 2º andar.

Os investigadores disseram que a tese de suicídio seria a mais provável para o sucedido. Porém, colegas e vizinhos não partilharam dessa tese

Alguns factores que podem ter influência neste acontecimento. Ivan Safronov tinha estado em Fevereiro numa das maiores feiras mundiais de armamento, a IDEX-2007 (faço o convite a contarem o número de empresas presentes, todas dedicadas ao armamento), que decorreu em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

A partir dessa feira, Safronov contactou a redacção do Kommersant afirmando ter obtido a confirmação da venda por parte da Rússia de caças Su-30 à Síria e de mísseis S-300V ao Irão, a qual seria efectuada via Bielorússia. Depois, já na Rússia, Safronov informou os seus colegas de possuir informação sobre a assinatura de contratos entre a Rússia e a Síria, desta vez para a venda de caças MiG-29, sistemas Pantsir-S1 de lançamento de mísseis e mísseis Iskander-E.

Na altura, adiantou que não podia escrever de imediato sobre esses contratos, uma vez que tinha sido avisado pelo FSB (ex-KGB) que a divulgação dessa informação provocaria um escândalo internacional e que seria acusado da exposição de segredos de estado. Essa história ficou assim por ser escrita.

Em Dezembro de 2006, Safronov já havia incomodado o exército russo, ao escrever sobre o falhanço de um teste do míssil Bulava, uma das coqueluches da tecnologia militar. Lançado a partir de submarinos, é supostamente capaz de penetrar em qualquer sistema anti-míssil existente. O exército russo tinha declarado o sucesso desse teste.

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Sistema Iskander-E 

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Anna Politkovskaya

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A 7 de Outubro de 2006, foi morta à porta de sua casa com 4 tiros disparados por uma pistola 9.9 Markarov, a arma preferida dos atiradores russos, encontrada junto ao seu corpo.

Trabalhava para o jornal, Novaya Gazeta e era conhecida pelos seus artigos polémicos que divulgavam a corrupção no exército russo e o reino de terror imposto na Tchechênia. Era também uma acérrima defensora dos direitos humanos. Actuou como negociadora no sequestro executado por guerrilheiros Chechenos num teatro de Moscovo, que acabou por ter um trágico desfecho.

Tudo indicava que fosse apenas uma questão de tempo até que o desfecho mais trágico acontecesse.

Dois anos antes do seu assassinato, após uma viagem de avião com destino a Beslam, para cobrir os trágicos incidentes nessa escola, Politkovskaya foi levada de emergência para um hospital pois tinha sido envenenada após beber um chá. Misteriosamente, a chávena desapareceu e nunca pôde ser analisada.

Noutra situação, após uma série de artigos que revelavam atrocidades cometidas em nome da Rússia, foi raptada por agentes da FSB (ex KGB) e mantida em cativeiro durante 3 dias, sempre sob a ameaça de violação e morte.

No ano anterior á sua morte, após escrever outro artigo anti-Putin, Politkovskaya recebeu um tão grande número de ameaças, que foi forçada a viajar para Viena e a permanecer lá durante vários meses.

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Heroísmo ou imprudência?

Os seus dois filhos não a impediram de continuar o seu trabalho, apesar de todas as ameaças que recebia. Numa entrevista à BBC, disse:

«…Tenho consciência que o risco faz parte do meu trabalho; trabalho de jornalista russo, e eu não o posso parar porque é o meu dever (…) penso que o dever dos médicos é dar saúde aos seus pacientes, o dever dos cantores é cantar. O dever do jornalista é escrever aquilo que o jornalista vê na realidade. É apenas um dever (…) por vezes as pessoas pagam com a própria vida por dizerem bem alto aquilo que pensam…»

A sua sentença de morte ficou talvez ditada por causa de um artigo incompleto, que acabou por ser publicado a título póstumo. Nesse artigo, ela relatava as horríveis experiências vividas por um jovem checheno, Beslan Gadaev, que após vários dias de tortura praticada por forças russas, acabou por confessar crimes que nunca tinha cometido. Estas confissões ajudavam a Rússia a disfarçar actos contínuos executados na Chechénia de assassinato, violação e desrespeito pelos direitos humanos. Leia aqui esse artigo.

Foi morta precisamente no dia de aniversário de Vladimir Putin.

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Pistola Markarov 

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Os suspeitos do costume

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Mas quem foi o responsável pela morte de Anna Politkovskaya?

Esta semana, o Procurador-geral da Rússia, Yuri Chaika, confirmou a detenção de 10 pessoas, acusando-os de pertencer a um grupo do crime organizado da Chechénia, que se dedica a assassinatos por encomenda. Além disso, salientou que o mandante do crime seria alguém que está no estrangeiro, com vontade de destabilizar a ordem nacional.

Esta última nota vai precisamente ao encontro da insinuação já colocada por Putin, que apontava as suas suspeitas para Boris Abramovich Berezovsky, um bilionário russo, exilado em Inglaterra desde 2001, sendo um autêntico ‘espinho’ para Putin.

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Berezovsky foi simplesmente um dos responsáveis pelas duas eleições de Boris Yeltsin e pela eleição do próprio Vladimir Putin, graças ao monopólio que possuía devido à aquisição de vários canais de televisão e jornais, entre eles, o Kommersant. Fez fortuna com Yeltsin e tinha como associado um fã do futebol, conhecido agora como o patrão do Chelsea. Teve também lugar no Parlamento Russo.

As suas relações com Putin terminaram quando o submarino Kursk se afundou. Putin ficou furioso com as críticas apresentadas no canal de televisão, ORT TV, detido por Berezovsky. Temendo a prisão, Berezovsky fugiu para Londres onde lhe foi concedido asilo político. Desde então, o seu nome tem sido mencionado em muitos casos que comprometem o governo Russo.

Diz-se que foi um dos financiadores da “Revolução Laranja” efectuada por Viktor Yushchenko na Ucrânia.

Esta semana, a propósito da detenção dos 10 suspeitos, o Procurador-geral afirmou que Anna Politkovskaya sabia quem tinha ditado a sua sentença de morte e que inclusive ela se tinha encontrado por diversas vezes com essa pessoa.

Ora, Boris Berezovsky até vive no estrangeiro, nunca escondeu o seu objectivo de derrubar Putin e Anna Politkovskaya até se encontrou com ele em Londres por diversas vezes.

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Quem não partilha desta suspeita é Viacheslav Izmailov, jornalista e militar russo, que investiga a morte da sua ex-colega a pedido da Novaya Gazeta. A sua convicção é que os autores do assassinato são pessoas próximas do presidente Checheno, Ramzan Kadyrov, um protegido de Vladimir Putin. Ele era tido como um doa maiores inimigos de Anna Politkovskaya, já que ela sempre denunciou violações dos direitos humanos a que assistiu na Chechénia e preparava-se para testemunhar contra ele, num caso que envolvia o rapto e morte de dois civis.

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Tchechênia 

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Alguns nomes entre muitos

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Dimitry Zakayev, que trabalhava para um pequeno jornal russo de tiragem quinzenal, não teve qualquer dúvida em fugir da sua casa em Moscovo e dirigir-se para parte incerta, juntamente com a sua mulher e 4 filhas. Na véspera, despediu-se do seu emprego e pediu aos seus chefes que mantivessem esta saída a mais secreta possível.

Zakayev admitiu estar apavorado. Não se considerava um herói e não tinha a força de Anna Politkovskaya. Reconheceu que procurava a glória. Porém, o assassinato de Politkovskaya fê-lo lembrar-se que o mais importante seria poder acompanhar o crescimento das suas filhas.

Mas qual o pecado cometido por Zakayev? Dez dias antes, tinha escrito um editorial acusando Vladimir Putin de estar a efectuar uma limpeza étnica na Geórgia, «iremos assistir ao desaparecimento de 5000 cidadãos inocentes tal como aconteceu na Tchechênia?». Na Rússia de Putin, dizer isto é praticamente um suicídio.

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Eduard Markevich, editor do jornal Novy Reft, conhecido pelo seu criticismo aos oficiais locais, foi abatido pelas costas.

Valery Ivanov, editor-chefe do Tolyatinskoye Obozreniye, foi morto com um tiro na cabeça depois de ter revelado negócios controversos relacionados com o crime organizado e a corrupção do governo.

Alexei Sidrov, um editor, morto com vários golpes desferidos com um picador de gelo.

Paul Khlebnikov, talvez o assassinato mais mediático. Editor da edição russa da revista Forbes. A sua punição por ter exposto os negócios da elite dos empresários russos foi um tiro na nuca.

Yevgenia Albats, uma amiga de Anna Politkovskaya e repórter de investigação em matérias de segurança, abandonou a sua profissão e dedicou-se ao ensino. Segundo ela «O jornalismo russo está morto (…) actualmente é impossível investigar algo que se relacione com o estado ou com negócios relacionados com o estado. Não se consegue obter informação. E mesmo que se consiga, quem irá publicar essas matérias

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Jornalistas Mortos

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Anna Politkovskaya foi o 13º jornalista russo a ser assassinado por se atrever a criticar Vladimir Putin e a sua política, desde que este subiu ao poder em 2000.

Após o seu assassinato, o Comité de Defesa dos Jornalistas, revelou que a Rússia se tinha tornado no terceiro local do mundo mais perigoso para se trabalhar. Só no Iraque e na Argélia existem mais jornalistas a serem assassinados. O mais assustador é que nenhuns desses treze assassinatos foram até hoje resolvidos.

Segundo a Glasnost Defense Foundation, só no ano de 2006, foram mortos 9 jornalistas e presos 75. Mais aqui.

De acordo com a mesma fonte, desde que em 1993 a Rússia instituiu a liberdade de expressão como um direito constitucional, já foram assassinados 152 jornalistas.

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O jornalismo é minha única arma

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Yelena Tregubova fazia parte dos jornalistas com entrada no Kremlin e escrevia para o Kommersant. Em Outubro de 2003 lançou um livro, já best-seller, com o título “Tales of a Kremlin Digger”, onde descreve as suas experiências como correspondente do Kremlin, criticando os costumes da elite da política russa e criticando Putin pelo controlo dos media. Foi despedida logo após a saída do livro.

Em Fevereiro de 2004, foi por muito pouco que não morreu na explosão de uma bomba, detonada à porta do seu apartamento. A polícia considerou esse incidente como um “acto de hooliganismo”.

Publicou novo livro, “Farewell of the Kremlin Digger”, onde narrava as pressões sofridas para evitar a publicação do livro anterior. Dessa vez, sofreu uma ameaça por parte de dois homens.

Em desespero, e sem saber a quem recorrer, solicitou ajuda a Boris Berezovsky, o bilionário exilado em Londres e antigo dono do Kommersant.

Boris Berezovsky, contactou Andrei Lugovoi (agora acusado de ser o responsável pela morte de Litvinenko) que providenciou protecção para Yelena Tregubova.

Em Abril de 2007, Tregubova pediu asilo político a Londres, alegando que a sua vida estava em perigo.

Boris Berezovsky foi entrevistado em Londres, a propósito da morte de Litvinenko, por um representante do Procurador-geral Russo. Nessa entrevista, Boris Berezovsky foi questionado sobre a morada de Yelena Tregubova em Londres.

Segundo Yelena Tregubova, para todos aqueles que vivem fora da Rússia, Putin está a dizer: “se pensam que são livres de criticar a Rússia à custa da segurança obtida na Europa, não são. Nós podemos atacá-los onde quer que estejam, de uma forma que vocês são incapazes de se defenderem.”

Tregubova acrescenta: “eu não vou manter o meu silêncio, porque se o fizer, eles matam-me de forma silenciosa (…) eu não tenho armas nucleares, eu não tenho uma organização como o KGB a apoiar-me. O jornalismo é a minha única arma.”

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A visão jornalística de Vladimir Putin

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Quando Putin subiu ao poder, declarou: “A nossa imprensa é livre e manter-se-á sempre assim”.

Esta simpatia pelo jornalismo nacional desapareceu no momento em que o submarino Kursk se afundou. Era inaceitável que os jornais afirmassem existir incompetência nas operações de resgate.

As represálias de Putin começaram por incluir o despedimento de todos os jornalistas que não seguissem as linhas de opinião por ele traçadas.

Leonid Parfyonov foi despedido quando efectuou no seu programa de televisão, uma entrevista a uma viúva Chechena que afirmava que o seu marido tinha sido assassinado por agentes russos.

Raf Shakirov, editor do Izvestia, o mais antigo jornal diário russo, foi despedido por ter publicado fotos das vítimas do massacre na escola de Beslan.

Por fim, Putin trouxe de volta a maioria das estações de televisão e jornais, para o controlo do Kremlin ou para o controlo de empresas dominadas pelo estado, caso da Gazprom, uma empresa do estado que detém o monopólio do gás e que serve como arma de propaganda do Kremlin.

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Esta é a Rússia onde alguns chefes de estado europeus fazem jogging junto à Praça Vermelha. Afinal, o que interessa mesmo é estreitar laços de cooperação e aumentar as trocas comerciais. Direitos Humanos, Censura, Represálias e Assassinatos de Jornalistas não passam de questões de menor importância que devem ser resolvidas pelo próprio, quando lhe der mais jeito.

Hoje, 30 de Agosto, Anna Politkovskaya faria 49 anos.

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