“A fotografia é a arma mais poderosa que existe no mundo”

2007 Junho 25
by bluewater68

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A semana passada estive a ver o “Flags of Our Fathers”, do Clint Eastwood. Um filme que fala da batalha de Iwo Jima, ocorrida durante a Segunda Grande Guerra. Mas em particular, o filme aborda uma das imagens mais marcantes do século XX, que se tornou símbolo do heroísmo americano em tempo de guerra.

Essa imagem conseguiu dar alento a um povo que já estava saturado de uma guerra que se arrastava penosamente pela Europa e Pacífico. Graças a ela, conseguiu-se de novo a união de todos em torno de um objectivo comum: ganhar a guerra aos alemães e aos japoneses.

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Nem sempre aquilo que se vê numa imagem equivale à verdade. O que nós interpretamos sobre o que vemos pode facilmente ficar fora do contexto por não se ter uma perspectiva global do acontecimento.

Tal como disse Eddie Adams, as fotografias apenas contam meias-verdades.

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Este texto fala de fotografias que tiveram influência directa no início, fim ou manutenção de guerras.

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Iwo Jima – A bandeira da esperança

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Fotógrafo: Joe Rosenthal

Prémio Pulitzer (PHOTOGRAPHY), 1945

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A imagem mostra seis soldados americanos a içarem, no cimo do monte Suribachi, na ilha de Iwo Jima, um mastro com a bandeira dos Estados Unidos.

A ilha de Iwo Jima tinha enorme interesse estratégico para os EUA, já que poderia ser usada para lançar bombardeamentos aéreos contra o Japão. Além disso, a batalha de Iwo Jima foi a primeira a ser realizada já em solo japonês. Assim, os americanos sabiam que a ilha seria difícil de conquistar e que poderia haver lugar a uma sangrenta batalha.

Ao quinto dia da batalha de Iwo Jima, as tropas americanas conquistaram o monte Suribachi. Nesse local, um grupo de Marines içou um primeira bandeira, tendo sido tiradas várias fotos do acontecimento. Entretanto, uma figura do topo da hierarquia das tropas americanas requisitou a bandeira hasteada, para a levar como recordação para Washington. Assim, foi dada ordem para que uma segunda bandeira fosse levada para o cimo do monte, para substituir a anterior.

Foi nesse instante que o fotógrafo Joe Rosenthal teve a sorte de também estar a subir ao monte, para tirar fotografias de algo que supostamente já não faria as manchetes. Quando foi levantado o mastro com a nova bandeira, Joe Rosenthal, apenas com uma hipótese de fotografar o acontecimento, conseguiu captar uma das imagens mais famosas da história.

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Dias depois, essa imagem fazia a manchete de todos jornais nos Estados Unidos. Os americanos, ao verem os seus soldados a içar a bandeira nacional em solo japonês, acreditaram que a guerra estava próxima do fim e dispuseram-se a fazer um novo esforço para financiar a máquina de guerra no terreno.

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Quem viu esta imagem pensou que a mesma tinha sido captada no final dos combates, no entanto, isso não correspondia à verdade. A foto foi tirada ao fim do quinto dia de combates numa batalha que durou 35 dias. Dos seis soldados que ficaram imortalizados na foto, apenas três voltaram aos Estados Unidos para serem usados como ferramentas de propaganda em cerimónias de angariação de fundos para a guerra, que aconteceram por todo o país. Os outros três acabaram por morrer nos combates que se sucederam nos dias seguintes à data em que foi tirada a foto.

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Saigão – O fim de uma guerra e o arruinar de uma vida

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Fotógrafo: Eddie Adams

Prémio Pulitzer (SPOT NEWS PHOTOGRAPHY), 1969

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A fotografia mostra a execução de um prisioneiro Vietcong numa rua de Saigão, em 01/02/1968. O homem que consumou a execução era o chefe da polícia local, general Nguyen Ngoc Loan.

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Esta foto coincidiu com o início da primeira fase da ofensiva ‘Tet’, conduzida pelos norte-vietnamitas. Essa ofensiva foi responsável pelo fim da carreira política do então presidente dos EUA, Lyndon B. Johnson, já que ele não se candidatou a novo mandato. A ofensiva ‘Tet’ veio contradizer todas as afirmações da administração Johnson e de altas patentes militares, que indicavam grandes progressos na guerra do Vietname.

Mas antes da ofensiva ‘Tet’ fazer estragos na administração Johnson, houve um choque no povo americano por causa da divulgação desta imagem. Para a opinião pública, era difícil aceitar que os seus jovens soldados estivessem a perder a vida no sul do Vietname para impedir a expansão do comunismo, quando afinal, os sul-vietnamitas eram capazes de cometer actos bárbaros sem dó nem piedade. Esta imagem justificava os protestos de todos os que eram a favor da paz e contra uma guerra que se desenrolava a milhares de quilómetros da América.

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Porém, esta imagem não conta a outra parte da história. Aquele que estava a ser executado em praça pública era afinal o comandante de um esquadrão da morte, responsável pela execução de várias dezenas de civis desarmados. Apesar disso, aquele que puxou o gatilho ficou como um símbolo da selvajaria praticada em tempo de guerra.

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No final da guerra, o general Nguyen Ngoc Loan fugiu do Vietname e refugiou-se primeiro na Austrália e depois nos Estados Unidos. Porém, o seu passado e identidade eram conhecidos pela população e a sua vida tornou-se num verdadeiro inferno. Houve inclusive uma enorme campanha para que fosse deportado novamente para o Vietname.

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O fotógrafo Eddie Adams sentiu-se muito incomodado com a situação vivida por Nguyen Ngoc Loan que acabou por pedir desculpa ao antigo general por ter tirado aquela fotografia.

Numa entrevista à revista Times ele proferiu as seguintes afirmações:

O general matou o Vietcong; Eu matei o general com a minha câmara; A fotografia é a arma mais poderosa que existe no mundo; As pessoas acreditam nela; Mas as fotografias acabam por mentir, mesmo sem qualquer manipulação; Elas apenas contam meias-verdades.”

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Somália – O poder dos media

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Fotógrafo: Paul Watson

Prémio Pulitzer (SPOT NEWS PHOTOGRAPHY), 1994

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As imagens mostram o corpo de um soldado americano a ser arrastado pelas ruas de Mogadíscio por uma multidão de Somalis enfurecidos.

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Em Dezembro de 1992, cerca de um ano e meio após o final da Guerra do Golfo, num dos seus últimos actos como presidente dos EUA, George Bush propôs à ONU a liderança da força destacada para a Somália, contribuindo também com o envio de tropas. Assim, 25.000 soldados americanos foram desembarcados na costa da Somália, numa operação acompanhada de perto e em directo pelos media. Afinal, a ‘Guerra em Directo’ no Koweit tinha sido um sucesso e todos ansiavam por novas transmissões que aumentassem as audiências.

Esta missão da ONU, designada por “Restaurar a Esperança” tinha como objectivo garantir a segurança nos circuitos traçados para a distribuição de alimentos.

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Em Janeiro de 1993, Bill Clinton tomou posse como presidente dos EUA e declarou a intenção de reduzir as tropas na Somália. Em Março, a ONU passou a liderar a missão e renomeou-a para UNOSOM – II. Um dos objectivos principais era o de desarmar o povo somali e ajudar na construção de uma nação. Em Junho, o número de tropas americanas na Somália era de apenas 1200 efectivos. No entanto, esse contingente era constituído por tropas de elite, onde se incluíam a Delta Force, os Army Rangers, os Navy SEALs e a 160th Special Operations Aviation Regiment, que comandavam os helicópteros “Black Hawk”.

A 5 de Junho, 24 soldados paquistaneses, ao serviço da ONU, foram emboscados e mortos durante uma inspecção a um depósito de armas. O ‘senhor da guerra’, Mohamed Farrah Aidid, e os seus seguidores, foram identificados como sendo os responsáveis pelo ataque. A partir desse momento, o exército americano montou uma caça ao homem, oferecendo uma recompensa a quem desse uma informação que conduzisse a Aidid.

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Finalmente, a 3 de Outubro, uma denúncia conduziu uma força de assalto para o Hotel Olympic, na tentativa de capturar Aidid e os principais cabecilhas da sua milícia. Tudo correu bem até ao momento em que as milícias somalis, na posse de lança-roquetes, conseguiram abater dois “Black Hawk”. A partir desse momento, a situação no terreno transformou-se num verdadeiro pesadelo. Por um lado, as forças americanas tentavam chegar aos locais de queda dos helicópteros e isso ia contribuindo para a sua dispersão. Por outro lado, viram-se a lutar contra uma cidade inteira e fortemente armada.

Uma operação que supostamente deveria ter demorado 30m, acabou por se transformar numa sangrenta batalha que durou 18 horas.

Do lado americano houve 18 mortos e 73 feridos. Do lado dos somalis, sem haver dados concretos, estima-se que tenham havido entre 1000 a 1500 mortos e entre 3000 a 4000 feridos.

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Quando se despenhou o “Black Hawk”, com o código ‘Super Six 4’, a população já tinha os ódios exacerbados. Os corpos dos três membros da tripulação e de dois soldados da Delta Force foram despidos e arrastados pelas ruas de Mogadíscio. Foi então que o fotógrafo Paul Watson, do jornal Toronto Star, captou uma imagem que foi publicada em muitos jornais nos EUA.

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A 7 de Outubro, três dias após o falhanço da operação, o presidente Clinton anuncia a retirada das tropas americanas da Somália e são abandonadas as tentativas de captura de Aidid.

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Se no Iraque as imagens tinham sido positivas, ao mostrar os efeitos dos ataques cirúrgicos efectuados, no caso da Somália, demonstraram que podiam ter um efeito avassalador. A opinião pública americana não poderia aceitar que os seus soldados, enviados numa missão humanitária, fossem mortos e os seus corpos arrastados e expostos como se tratassem de um troféu de caça.

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Com este exemplo, Washington e o Pentágono aprenderam uma grande lição. Para que uma guerra tenha apoios, os media não podem mostrar imagens de soldados mortos.

Veja-se o caso da intervenção no Iraque. Em já cerca de 3600 soldados americanos mortos, quantas imagens foram publicadas nos jornais relativas a corpos de soldados amputados, queimados ou feridos com gravidade?

Mas no caso do Iraque são os próprios media a fazerem a censura. No link que eu coloco em anexo, Gabriel Rotello menciona que não se trata de uma questão actual de maior sensibilidade ou pudor dos media, já que não houve qualquer problema em mostrar os corpos das vítimas do Tsunami ou os corpos a boiar nas ruas de New Orleans. Os editores não querem é ser acusados de serem negativos em relação à guerra do Iraque ou de poderem causar um desfecho indeterminado. Por isso, a administração Bush deveria dar um prémio a cada editor que tenha arquivado uma imagem capaz de gerar mil palavras.

Até aqui no SOL, em relação ao atentado no mercado de Sadryia, em 18 de Abril, foram publicadas um conjunto de imagens onde se viam alguns corpos carbonizados (aqui). Será que os 3600 soldados mortos não despertam o mesmo interesse para uma publicação?

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Nova Iorque – O dia em que o mundo mudou

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Fotógrafo: Steve Ludlum

Prémio Pulitzer (BREAKING NEWS PHOTOGRAPHY), 2002

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Fotógrafo: Thomas E. Franklin

(c) 2001 The Record, (Bergen County, NJ)

Ground Zero Spirit

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A primeira imagem faz parte de um conjunto de vinte fotografias tiradas por repórteres do New York Times e que ganharam o prémio Pulitzer em 2002 (aqui).

Essas imagens representam o dia em que foi declarada a guerra ao terrorismo, a uma escala global.

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A segunda imagem foi captada às 5 da tarde, do dia 11 de Setembro de 2001, no Ground Zero, onde pela manhã tinham desabado as torres gémeas. A esta imagem foi dado o título “Ground Zero Spirit” e foi usada na capa de muitos jornais por todo o mundo. Posteriormente, foi convertida num postal, com o título “Heroes 2001”, tendo sido vendidos mais de 128 milhões de cópias.

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Cinquenta e seis anos depois de Iwo Jima, em tempo de paz, os americanos olharam de novo para uma imagem que lhes fez renascer a esperança, o espírito patriótico e a certeza de que um golpe cobarde não seria capaz de os derrubar.

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Aqui no SOL

Reflexões IV – Afinal… quantas palavras vale uma imagem? (pessoalíssimo)

Os mortos invisíveis da guerra do Iraque (meiadeleite)

Outros Links

The Media and Iraq: What’s Wrong With This Picture? (Gabriel Rotello)

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