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O que têm Atocha e Sadriya em comum?

Abril 20, 2007

Atentados vividos por Europeus

11 de Março de 2004 – Madrid – Atocha

}199 mortos e mais de 1460 feridos é o balanço ainda provisório do sangrento atentado terrorista que ontem espalhou a morte em três estações ferroviárias da capital espanhola: Santa Eugénia, El Pozo del Tio Raimundo e Atocha}. Mais aqui.

}O Presidente da República, Jorge Sampaio, enviou esta quinta-feira um telegrama ao Rei de Espanha, Juan Carlos I, manifestando-se “profundamente chocado” com as explosões ocorridas em Madrid e repudiando o terrorismo contra a paz e a democracia. Também o Primeiro-Ministro português, Durão Barroso, telefonou ao seu homólogo espanhol, José Maria Aznar, para lhe demonstrar a solidariedade do povo português}. Mais aqui.

}Dois anos depois dos atentados de 11 de Março de 2004, mais de 380 dos cerca de 2.000 feridos em resultado das explosões continuam a receber assistência hospitalar e psicológica nas estruturas de saúde de Madrid (…) Um dos casos mais graves, não identificado, obrigou a 11 intervenções cirúrgicas além de apoio de reabilitação e psicológico (…) As crianças, precisou, tendem a «interiorizar a dor», não chegando a exprimir o que sentem «até muito tempo depois», acabando por desenvolver «traumas psíquicos» a médio e longo prazo}. Mais aqui.

 

}Quase todos os sobreviventes e familiares das vítimas dos atentados de 11 de Março em Madrid já receberam as indemnizações do Estado (…) Segundo dados do Ministério do Interior, o governo entregou mais de 64 milhões de euros em indemnizações, faltando pagar apenas «um pequeno grupo» de compensações a vítimas cujo grau de sequelas continua ainda por determinar}. Mais aqui.

}Os reis de Espanha depositaram uma coroa de flores no novo monumento de homenagem às vítimas dos atentados de 11 de Março de 2004, numa cerimónia solene em frente à estação de Atocha, em Madrid}. Mais aqui.

Atentados vividos por Iraquianos

Sadriya é um mercado em Bagdad, uma zona da capital iraquiana de maioria xiita. Tem sido o local mais sangrento da capital Iraquiana. Ontem foi palco de um atentado que vitimou 140 iraquianos e feriu mais de 150. Em 3 de Março deste ano, havia sido palco de outro atentado que vitimou 130 iraquianos.

Uma nota: três fotografias que o SOL publicou na sua página web eram perfeitamente dispensáveis face à violência que apresentavam. Julgo não ser necessário mostrar corpos carbonizados ou decepados para que a notícia tenha mais impacto.

Resultados de uma compilação de dados nas notícias que têm vindo a público sobre atentados no Iraque. Os dados referem-se a período de apenas dois meses e meio.

Locais

Método

Feridos

Mortos

Not.

31 Jan 2007

Balad Ruz; Khanagin; Bagdad

BS, CB, MT

127

53

Ler

01 Fev 2007

Bagdad

BS, CB

19

9

Ler

03 Fev 2007

Bagdad

CB

300

135

Ler

03 Fev 2007

Kirkuk

CB

178

12

Ler

04 Fev 2007

Bagdad

BB

10

11

Ler

24 Fev 2007

Habbaniya

BB

64

35

Ler

25 Fev 2007

Bagdad

BS

35

40

Ler

10 Mar 2007

Bagdad

CB

40

18

Ler

11 Mar 2007

Bagdad; Mossul; Balad Ruz

BS, CB

48

63

Ler

24 Mar 2007

Bagdad; Tal Afar; Al-Hassua; Falujah

BS, CB, BB

95

48

Ler

27 Mar 2007

Tal Afar; Ramadi; Mossul; Kirkuk; Bagdad

CB; BB, DP

207

163

Ler

29 Mar 2007

Bagdad; Khalis

BS, CB

25

118

Ler

10 Abr 2007

Moqdadiyah

BS

32

16

Ler

14 Abr 2007

Kerbala

CB

60

34

Ler

15 Abr 2007

Bagdad

BS, CB

38

35

Ler

18 Abr 2007

Bagdad

CB

250

191

Ler

BS – Bombista Suicida; CB – Carro Bomba; MT – Morteiro; BB – Bomba; DP – Disparos

Os números são apenas aproximados. À data e hora da notícia nem sempre existem dados definitivos sobre o número de mortos e feridos. E no caso dos feridos é de admitir que os números sejam consideravelmente superiores aos apresentados. Além disso, o número de feridos graves é sempre elevado, em consequência da violência dos ataques, sendo também de admitir que o número de mortos tenha tendência a aumentar nos dias seguintes aos atentados.

 

Segundo dados do ministério do Interior iraquiano, o número de mortos civis registado em Janeiro deste ano atingiu os 1.971, estabelecendo um novo máximo face ao anterior recorde, 1.930, verificado em Dezembro do ano passado.

Estes valores ficam, no entanto, aquém dos revelados nas estatísticas realizadas pela ONU, segundo as quais o número de mortos civis registado em Dezembro de 2006 foi de 2.914, contra 3.462 contabilizados em Novembro. O governo iraquiano culpa a ONU de exagerar nestes números.

Cerca de dois milhões de iraquianos fugiram do Iraque e 1,8 estão deslocados no interior do seu próprio país, de acordo com dados do Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas (ACNUR) dirigido pelo ex primeiro-ministro português, António Guterres.

A Al-Qaeda, tem efectuado uma insurreição brutal contra o governo iraquiano e as forças norte-americanas. No Sul, as milícias xiitas rivalizam pelo controlo das regiões e dos recursos petrolíferos. A capital Bagdad e a província de Diyala têm sido os locais mais atingidos pelos ataques. Em Fevereiro foi lançado o plano de segurança de Bagdad, concertado entre o governo iraquiano e os EUA o qual, de forma tímida, parecia demonstrar resultados positivos. Ontem, com o novo ataque ao mercado de Sadriya, pode-se considerar que este plano de segurança teve uma existência efémera.

Sabe qual o número de mortos civis no Iraque?

Faço-lhe o convite a visitar a página Iraq Body Count, aqui.

Nessa página, num quadro que indica o número mínimo e máximo de mortos prováveis no Iraque, faça clique em [View Database…] para ter acesso à lista de acontecimentos. A última entrada era relativa a 2 de Abril.

 

O Site ‘Iraq Body Count’ mantém e actualiza uma base de dados independente com indicação do número de mortos civis desde a intervenção dos EUA no Iraque em 20 de Março de2003. A contagem inclui mortes de civis causadas pró acções militares da coligação e por respostas militares ou paramilitares à presença da coligação (p.e. actos de guerrilha ou actos terroristas). Também são contabilizadas mortes atribuídas ao decréscimo da ordem e da lei que resultou da invasão da coligação.

O número de mortos civis está estimado entre os 62.000 e os 68.000

Qual o elo comum?

O elo comum é o terrorismo. Porém, esse elo conduz a situações perfeitamente díspares.

No Iraque não há tempo para chorar os mortos. As vítimas seguintes fazem esquecer de imediato as vítimas anteriores. Neste cenário, não há lugar para memoriais ou para cerimónias condignas.

O Iraque não recebe mensagens de solidariedade de governantes mundiais sempre que ocorre um atentado.

Se as vítimas espanholas continuam a receber tratamentos e apoio psicológico dois anos após os atentados, podemos admitir que o mesmo irá ocorrer no Iraque? O número incontável de feridos vai ter acesso a todos os tratamentos necessários, incluindo reabilitações? O número incontável de familiares e amigos das vítimas vai ter algum apoio psicológico?

No Iraque haverá entrega por parte do governo, de indemnizações às vítimas e seus familiares?

 

E as crianças iraquianas? tendem também a «interiorizar a dor», não chegando a exprimir o que sentem «até muito tempo depois» e vão acabar por desenvolver «traumas psíquicos» a médio e longo prazo? Será que esses problemas só acontecem às crianças espanholas?

Estes números de mortos e feridos, apesar de serem assustadores, não representam uma realidade ainda mais dura. Estes números não indicam as crianças que ficaram órfãs. Não indicam os feridos que ficaram estropiados. Não indicam as mulheres que ficaram viúvas e sem qualquer meio de subsistência. Não indicam aqueles que não têm qualquer apoio para libertar ou compreender a dor que os assola.

Estamos a falar de um país que não está em guerra. Estamos a falar de um país, onde existiu uma invasão de uma coligação liderada pelos EUA, concebida para desarmar as forças então vigentes e criar um enclave democrático pró-ocidental no Médio Oriente. Quatro anos após essa invasão, o Iraque é um país fechado numa espiral de violência sectária devastadora que ninguém consegue controlar. Estamos a falar de um país onde constantemente existem actos terroristas executados por seguidores da Al-Qaeda ou por grupos fundamentalistas apoiados pelo Irão. Um país onde a maioria dos actos terroristas não são destinados às forças da coligação mas sim aos cidadãos inocentes, que todos os dias tentam sobreviver num país a passar por várias dificuldades.

O iraquiano que morre junto a um mercado é tão inocente como o espanhol que na manhã de 11 de Março de 2004 apanhou um comboio para ir trabalhar. Porém, a explosão de um acto terrorista que mata dezenas de inocentes, parece afectar-nos de forma diferente. Os actos terroristas que assolam o Iraque, que nos são mostrados no Telejornal com uma frequência assustadora, parecem já fazer parte de um acontecimento comum ou banal a que assistimos com indiferença.

 

Não foram encontradas armas de destruição maciça, mas a Casa Branca reforça a sua presença no país, enviando mais 25 mil soldados para atingir os 160 mil em Junho e assim tentar travar as violências confessionais que explodiram em 2006 depois do atentado de Samarra.

Os iraquianos dizem-se cada vez mais pessimistas sobre o seu futuro, segundo uma sondagem encomendada pelas cadeias de televisão BBC, ABC News, ARD e do diário USA Today e efectuada nas 18 províncias entre final de Fevereiro e início de Março. Só 39 por cento pensa que a sua vida melhorou e 26 por cento declara sentir-se em segurança no seu próprio bairro.

Se os EUA já não estivessem no Iraque, o governo teria capacidade para sozinho conseguir destruir todas as células terroristas? De que servem os 160 mil soldados americanos se são absolutamente ineficazes contra estes ataques. Aliás, nem conseguem impedir ataques na chamada ‘zona verde’, que supostamente é das zonas mais seguras no Iraque. De quem é a culpa para esta inoperância?

O Iraque está longe e os acontecimentos locais parecem não nos afectar. Porém, o pesadelo associado ao terrorismo é tão grande como o que aconteceu em Nova Iorque, Londres ou Madrid. A diferença é que no Iraque esse pesadelo ocorre quase diariamente e o povo não tem esperança que os culpados possam ser capturados e julgados. Aliás, ninguém se atreve a fazer esse tipo de promessa.

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