Faz favor…São 4 Vanguard e 128 Trident para 2024. Obrigado!
A Votação
No passado dia 14 de Março, os deputados britânicos votaram a favor de uma substituição do arsenal nuclear do Reino Unido. No total, 409 deputados votaram a favor do projecto do Governo britânico trabalhista, contra 161 que votaram contra, conseguindo uma maioria de 248 votos.
Porém, esta não foi uma votação pacífica e o Governo trabalhista encontrou uma forte oposição no interior do seu partido. A adopção do projecto só foi possível graças ao apoio do Partido Conservador, principal partido da oposição, porque 90 deputados trabalhistas terão votado contra. Esta foi a mais importante oposição vinda do partido Trabalhista desde Março de 2003, quando 139 deputados – incluindo o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Robin Cook – votaram contra a intervenção no Iraque.
Jim Devine, do ministério da Saúde e Nigel Griffiths, número dois da liderança trabalhista na Câmara dos Comuns, apresentaram a sua demissão antes desta votação.
Faixa pendurada no Parlamento britânico por activistas do Greenpeace, cuja mensagem significava:
‘Tony adora armas de destruição maciça’
A intenção é que conta
Para que não hajam dúvidas sobre a aposta na manutenção do armamento nuclear, David Cameron, um deputado Conservador que deu o seu apoio a esta moção, salientou que os Trabalhistas e os Conservadores poderiam trabalhar em conjunto para o interesse nacional e disse: “Num mundo perigoso e incerto, um desarmamento unilateral nunca foi nem nunca poderá ser a resposta correcta”. Mais aqui.
Já em Junho de 2006, o ministro das Finanças britânico, Gordon Brown, que é quase certo na sucessão a Tony Blair, afirmou que a Grã-Bretanha deve manter o nível do seu dispositivo de dissuasão nuclear – “Num mundo pouco seguro, devemos e vamos continuar a ter a força de tomar todas as decisões de longo prazo para a estabilidade e a segurança“.
Como pensar num desarmamento unilateral da Inglaterra, quando se acredita que a Coreia do Norte já tenha desenvolvido ogivas nucleares, o Irão talvez tenha esse objectivo e a Rússia pretenda gastar 183 mil milhões de dólares em armas durante a próxima década?
E porquê esta votação neste momento?
Em 1963 foi assinado um acordo entre os Estados Unidos e o Reino Unido, relativo ao sistema de mísseis Polaris, permitindo que o Reino Unido tivesse um poder nuclear independente de dissuasão. Neste acordo, os Estados Unidos forneciam os mísseis Polaris, os tubos de lançamento e os sistemas de navegação e disparo. O Reino Unido seria responsável pela construção dos submarinos para alojar os mísseis e pelo desenvolvimento das ogivas nucleares.
Posteriormente, em 1982, o governo britânico, através de Margaret Thatcher chegou a um acordo com o governo americano, representado por Ronald Reagan, para a substituição do sistema Polaris por um sistema do tipo Trident II D5.
Para o transporte e lançamento dos mísseis Trident, foram construídos submarinos da classe Vanguard, tendo o primeiro entrado ao serviço em 1992. Estes submarinos têm um prazo de utilização de trinta anos. Assim, a sua substituição deverá ter início em 2022.
Tony Blair afirmou que demoraria cerca de 17 anos a projectar, construir e equipar um novo submarino. Como tal, a decisão para a renovação do sistema Trident teria forçosamente de acontecer em 2007.
Uma questão de dinheiro
A proposta dos Trabalhistas de substituição do arsenal nuclear do Reino Unido envolve a construção de novos submarinos e a aquisição de novos mísseis intercontinentais Trident II D-5, de fabrico americano.
O custo estimado de investimento é de 20 mil milhões de libras esterlinas (cerca de 30 mil milhões de euros). Comparativamente, seria o equivalente a construir 10 aeroportos da OTA.
Também quando comparado com outros investimentos da defesa, esta renovação até apresenta um valor competitivo. Refere-se os 19 mil milhões de libras esterlinas (estimativa inicial de 9 mil milhões) que já foram gastos até à data para o desenvolvimento do novo caça Eurofighter. Mais aqui.
Refere-se que o actual programa Trident representa um custo anual de cerca de 200 milhões de libras esterlinas, num horizonte de trinta anos. Ou seja, cerca de 0.7% do orçamento anual do Reino Unida para a Defesa, que é de 29.6 mil milhões de libras esterlinas (valor relativo a 2005-2006 – Mais aqui). Para uma melhor explicação, pode-se dizer que o Reino Unido, por ano, apenas com o seu orçamento da defesa, poderia construir 14 aeroportos da OTA. E se acham que isto é um valor exorbitante então, refere-se que é um valor ‘pequeno’ quando comparado com o orçamento da Defesa dos Estados Unidos, que ascende a 400 mil milhões de dólares.
Sobre os custos estimados pelo governo britânico, a Greenpeace apresentou um relatório onde mencionava que o verdadeiro custo deste programa seria de 75 mil milhões de libras esterlinas e que através de inevitáveis custos adicionais poderia mesmo atingir os 100 mil milhões de libras esterlinas. A Greenpeace afirma que se esse montante fosse aplicado em programas de protecção do ambiente, seria possível reduzir em 12% as emissões de CO2 efectuadas pelo reino unido. Mais aqui.
Annie Lennox, Vivienne Westwood, e Bianca Jagger juntaram-se aos protestos nas imediações do Palácio de Westminster
Um ‘Vanguard’ não é um ‘Yellow Submarine’
Um Vanguard é uma poderosa máquina de guerra capaz de provocar um Armagedão. A sua única função é ter um efeito dissuasor no ‘inimigo’, ao garantir o conceito de aniquilação mútua.
Tony Blair já salientou que esta ‘arma de guerra’ é a melhor para o Reino Unido, dispensando todas as soluções que pudessem passar por aviões equipados com mísseis de cruzeiro ou sistemas fixos de mísseis em terra.
Um Vanguard é um submarino nuclear equipado com mísseis balísticos intercontinentais. Tem a designação de SSBN, que na terminologia da marinha americana significa SS – Navio submersível, B – Míssil balístico e N – Capacidade nuclear.
A Marinha do Reino Unido possui 4 submarinos da classe Vanguard (Vanguard, Victorious, Vigilant, Vengeance). Operam a partir da base naval Her Majesty’s Naval Base (HMNB) Clyde, localizada a 40km a Oeste de Glasgow.
Foram desenhados e construídos pela Vickers Shipbuilding and Engineering Limited (VSEL), agora desiganada por BAE Systems Submarines.
De acordo com a estratégia de dissuasão do Reino Unido, no mínimo, existe sempre um submarino em alto-mar, pronto a disparar os mísseis que transporta. Um submarino costuma estar a ser sujeito a operações de reparação ou manutenção. Os restantes dois estão ancorados na base naval já referida ou em alto-mar em exercícios militares.
Cada Vanguard transporta até 16 mísseis Trident II D-5 e cada míssil pode conter até 8 ogivas nucleares, ou seja, um total de 128 ogivas nucleares por submarino. Porém, em 1998, o governo Britânico anunciou que cada submarino não ia transportar mais de 48 ogivas, não indicando a sua distribuição por míssil.
O único objectivo de um submarino deste tipo é não ser detectado até ao momento em que seja necessário lançar os mísseis que transporta. São utilizados processos de engenharia altamente sofisticados, que permitam, quando submergido, passar despercebido aos meios de detecção do inimigo. Mais aqui.
Pode-se mesmo afirmar que os processos de engenharia envolvidos na construção de um submarino nuclear para o transporte de mísseis balísticos são tão complexos como os que foram necessários para colocar o homem na lua. Neste momento, aqueles que detinham o Know-how resultante da construção destes Vanguard, já não estão no activo ou desempenham funções noutros locais. Esse facto levanta sérias dúvidas no Reino Unido sobre a capacidade em termos tecnológicos para renovar Trident. Mais aqui.
Comparativamente, refere-se que os Estados Unidos possuem 18 submarinos da classe Ohio. Destes, 14 podem ser armados de forma individual até 24 mísseis Trident II D-5, sendo cada míssil capaz de transportar até 8 ogivas nucleares. Os outros 4 podem ser armados de forma individual até 154 mísseis de cruzeiro do tipo Tomahawk, com explosivos convencionais. Só estes 14 submarinos são capazes de transportar 50% do armamento nuclear dos Estados Unidos. Mais aqui.
No caso da Rússia, existem 6 submarinos da classe Typhoon. Cada um pode ser armado até 20 mísseis do tipo SS-N-20, sendo cada míssil capaz de transportar até 10 ogivas nucleares. Mais aqui.
Um ‘Trident’ é algo muito nefasto
O Reino Unido utiliza mísseis do tipo Trident II D-5 para o lançamento das suas ogivas nucleares.
É um míssil do tipo SLBM (Submarine-launched ballistic missile), capaz de transportar até 8 ogivas nucleares do tipo W76 (com 100Kt de potência) ou W88 (com 475Kt de potência). Refere-se que a potência da bomba que destruiu Hiroshima era de 12Kt. Assim, cada ogiva transportada por este míssil tem uma potência entre 8 a 40 vezes superior à bomba que em 1945 matou 140.000 seres humanos. Um único míssil que lançasse as suas oito ogivas contra Portugal seria suficiente para nos colocar de volta à idade da pedra.
Um Trident, devido ao seu nível de precisão, está indicado para efectuar um chamado primeiro ataque.
O custo de cada míssil é cerca de 31 milhões de dólares (sem ogivas).
Actualmente, o Reino Unido detém 58 mísseis Trident II D-5, comprados aos Estados Unidos ao abrigo do acordo dos mísseis Polaris (ler ‘E porquê esta votação neste momento?’). Destes 58, alguns já foram ‘gastos’ em testes de lançamento.
Um Trident tem na sua cabeça um engenho com a designação ‘Multiple Independently targetable Re-entry Vehicle’ (MIRV), ou seja, trata-se de um engenho que entra num sub-órbita e que faz o disparo de várias ogivas nucleares através da sua reentrada na atmosfera. Desta forma um MIRV pode atacar vários alvos ou atacar poucos alvos mas de forma redundante.
Refere-se que os dispositivos MIRV foram criados como forma de contornar o estabelecido nos tratados SALT (Strategic Arms Limitation Talks) estabelecidos entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. No ‘SALT I’, havia uma limitação ao número de mísseis mas das ogivas. Assim, os MIRV permitiam reduzir os mísseis mas mantinham ou aumentavam o número de ogivas disponíveis. Por outro lado, o uso de múltiplas ogivas num único lançamento tornava muito difícil a sua intercepção e obrigava o ‘inimigo’ a possuir inúmeros sistemas anti-míssil com custos de aquisição e manutenção incomportáveis.
Trajectórias resultantes da reentrada de oito ogivas lançadas por MIRV
Refira-se que os MIRV lançados a partir de silos fixos foram considerados destabilizadores porque criavam a oportunidade de se fazer um primeiro ataque. Se cada um dos lados tivesse 100 mísseis, cada um com 5 ogivas, e cada um dos lados tivesse 95% de possibilidade de neutralizar os mísseis adversários nos seus silos, através do disparo de duas ogivas para cada silo, então, o lado que atacasse primeiro poderia reduzir a força inimiga de 100 para 5 mísseis através do disparo de 40 mísseis com 200 ogivas e ainda manteria 60 mísseis de reserva.
Quando os MIRV são instalados em mísseis transportados por submarinos, esta oportunidade de fazer um primeiro ataque deixa de fazer sentido pelo simples facto da posição do submarino ser desconhecida, não sendo assim possível neutralizar o ‘inimigo’.
Em 1986, os Estados Unidos deram início ao projecto de míssil Peacekeeper. Tratava-se de um míssil intercontinental, lançado a partir de silo fixo em terra e que transportava um dispositivo MIRV. Até 1998, este projecto teve um custo de 20 mil milhões de dólares, tendo sido produzidos 114 mísseis. Através do tratado START II, estes mísseis foram abandonados, tendo o último sido removido do estado de alerta em Setembro de 2005.
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Lançamento de míssil Trident II
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Ogivas para dar e vender
Actualmente, o Reino Unido possui 200 ogivas nucleares. Por curiosidade, é um número idêntico ao número de ogivas que se estima existir no arsenal de Israel, apesar deste país sempre ter negado possuir armas nucleares.
Porém, este número não se compara às 7.000 ogivas dos Estados Unidos, prontas a serem usadas (3.000 de reserva) e às 8.500 ogivas em posse da Rússia e prontas a serem usadas (11.000 de reserva). Estima-se que em todo o mundo existam 16.000 ogivas prontas a serem usadas e 14.000 em reserva. Mais aqui.
Em Dezembro de 2006, Tony Blair afirmou que a renovação do arsenal nuclear do Reino Unido poderia conduzir a uma redução de 200 para 160 ogivas e de 4 para três submarinos Vanguard. Da leitura do segundo ponto deste texto, constata-se que a eliminação total deste arsenal nunca foi uma opção.
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Excerto do filme ‘The Day After’ de 1983. No início da cena, o actor, ao olhar para o lançamento dos mísseis Americanos afirma que estes demoravam 30m para atingir o seu alvo. Alguém responde que isso seria igual para os mísseis Soviéticos. É um exemplo do chamado conceito de aniquilação mútua.
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Apontamentos
Por cá, andamos preocupados de forma pertinente com a construção de um aeroporto da OTA. Mesmo que este avance num local de difícil construção e que não permita uma ampliação ao fim de 30 anos, bem ou mal ainda poderá gerar alguma riqueza e terá uma utilidade para os cidadãos de todo o mundo.
No Reino Unido, os cidadãos revoltam-se contra um investimento equivalente à construção de 10 aeroportos da OTA (tudo valores dados por políticos que como se sabe, pecam sempre por serem deficitários) e cuja única utilidade é ‘meter medo ao inimigo’, ou em linguagem de guerra-fria, ‘garantir o poder de dissuasão’. Após a votação de 14 de Março, esses cidadãos apenas poderão imaginar o que seria se esse dinheiro fosse empregue na saúde, na edução, em causas sociais, na redução das emissões de CO2, etc.
Esta aprovação para a renovação do arsenal nuclear do Reino Unido significa algo muito simples: ninguém tenha a ilusão de poder vir a viver num mundo sem a ameaça nuclear. Pode até não haver proliferação de armas nucleares, porém, o seu número actual é mais que suficiente para arrasar por completo este planeta. E se o número de armas nucleares pode diminuir, o número de países que as querem ter tem vindo a aumentar.
A questão não é saber se este planeta apenas ficará habitado por baratas. A questão é apenas saber quando isso irá acontecer. Leia aqui: “20 erros que podiam ter começado uma guerra nuclear de forma acidental”.
Dizem que o petróleo é a causa de muitas guerras. Será? Vejam os valores anuais que são gastos em orçamentos para a Defesa e tentem imaginar os lucros das empresas de armamento. Tentem imaginar os lucros de traficantes de armas. Por fim, que melhor palco do que um conflito para testar e confirmar a eficiência das armas adquiridas ou justificar a aquisição de armas defensivas?
Algo fantástico. Li aqui no SOL que educar uma criança durante um ano inteiro custa 175€ (conheça o projecto “Um Pequeno Gesto, Uma Grande Ajuda“). Ora bem, 30 mil milhões de euros dava para educar…lá dizia o outro: “É fazer as contas!”




