Os cortes da TVI
Hoje, por ser Domingo, lembrei-me de uma cena caricata que em tempos assisti na TVI. A maioria de vocês já deve estar a dizer que só podia ter sucedido na TVI, mas eu já conto esse episódio.
Tenho acesso a dezenas de canais, mas a opção de escolha incide apenas entre meia dúzia dos que estão disponíveis. Nessa escolha, a TVI é um dos canais que fica de fora. Não digo que eventualmente não possa ver algo que esteja a passar na TVI, mas regra geral até me esqueço que esse canal existe.
Poderia falar aqui sobre a televisão em geral, que tinha tema para um texto, como também podia falar sobre a TVI em particular, onde arranjava tema para muitos textos. Porém, posso referir de forma genérica aquilo que me leva a evitar a TVI.
É sobretudo o aspecto sensacionalista que impera na informação. Já lá vai o tempo em que me enganavam com um destaque nas notícias. Às 20:00 começavam a anunciar: “Já a seguir, veja aqui a reportagem de….”. Às 20:15 e 20:30 a lenga-lenga repetia-se, mas imagens nada. Por fim, lá para as 21:00 davam aquilo por que todos esperavam. Depois, além da espera, ainda descobria que afinal o exclusivo da reportagem da TVI, pelo conteúdo, não compensava o tempo perdido.
Como sou uma pessoa que prima pela pontualidade e por isso, tenho sempre uma certa dificuldade em relacionar-me com quem ignora horários ou que possa considerar que uma tolerância de trinta minutos é aceitável. Essa característica impede-me de assistir à TVI. Nesse canal, apenas existe o cumprimento religioso no horário de dois programas, o Jornal das 13:00 e o Jornal das 20:00. Mas esse cumprimento apenas incide no início do programa, porque o fim tanto pode ser à hora anunciada como quinze ou trinta minutos depois. E nem vale a pena tentar acertar na hora de início dos programas nocturnos, porque o atraso entre programas é sempre galopante.
Por fim, a questão comercial e dos intervalos para exibição de anúncios. É inconcebível que se esteja a ver um filme, venha um intervalo e este possa demorar vinte minutos, sempre a exibir anúncios, alguns por três ou quatro vezes no mesmo período. Nestes intervalos, dá para mudar de canal e assistir as calmas a outro programa.
Podia continuar a mencionar aspectos que me levam a evitar a TVI, mas deixo isso para outro texto. Vou então falar do tal episódio.
Numa tarde de Domingo, estava eu a fazer um zapping, quando me deparo com o início do filme Ronin da TVI. É um filme de 1998, realizado pelo já falecido John Frankenheimer, com o Robert De Niro e o Jean Reno. Além de ser um filme com dois actores que eu aprecio bastante, é também um filme onde existem cenas de acção muito bem conseguidas, sobretudo à custa de perseguições de automóveis.
Nesse dia, diria que era a terceira vez que via esse filme. Pacientemente, suportei dois intervalos. Fui fazendo zapping e ainda assisti a uma boa parte de um filme que passava na SIC.
Perto das 19:30 deu-se a situação caricata. Algo que eu julgava impensável tinha acabado de ocorrer num filme a que eu assistia. Por ser a terceira vez que via esse filme, conhecia muito bem as cenas e a sequência com que iriam acontecer – acreditem que esse aspecto não me retira a emoção de rever um filme que gostei.
Mas vou fazer um pouco de ficção para entenderem a questão.
Nesse dia, o departamento Comercial da TVI deve ter reparado que tinha um excesso de anúncios para exibir. Assim, contactou o departamento de Programas e informou-os que seria necessário acrescentar mais trinta anúncios num dos intervalos. Sem hesitarem, executaram em conformidade. Porém, um ‘iluminado’ qualquer deve ter agarrado no DVD do Ronin e ao ver a duração do filme e ao olhar para o relógio, somou dois mais dois e gelou ao aperceber-se que existia um grave problema. Imediatamente foi falar o Director de Programas:
- Chefe! Ao termos apresentado mais trinta anúncios no segundo intervalo do filme, neste momento verifica-se que o filme ‘não cabe’. A não ser que o Jornal das 20:00 passe a chamar-se Jornal das 20:10.
- O quê !? – disse o Director de Programas.
Pensou, pensou e decidiu.
- Não tem problema. Corta-se uns minutos do filme que ninguém dá por isso.
Bem dito bem feito.
Neste filme, as cenas de perseguição entre carros assumiam um papel principal na acção. Estava eu entretido a ver, sem dúvida, a melhor cena de perseguição do filme, passada nas ruas de Paris, quando de repente: Puffff! A cena de perseguição desaparece e os intervenientes aparecem sentados num café!?
Estou a falar de uma cena que tem uma duração total de cerca de oito minutos.
Como isto foi feito? Ao fim de 1m45s de perseguição, os intervenientes estão dentro de um túnel na cidade de Paris. Nisto, aparece um carro da polícia que, ao ver a perseguição, liga a sirene e vai no encalço deles. Nesse preciso instante, a cena é cortada e as personagens interpretadas pelo Robert De Niro e o Jean Reno, aparecem calmamente a falar num café, discutindo sobre o possível destino que terá tido o vilão que eles entretanto estavam a perseguir. Faz sentido, não faz?
Eu já tinha visto o filme e escusado será dizer que este corte não passou despercebido (era mesmo impossível de disfarçar). Mas, o que terão pensado aqueles que viam o filme pela primeira vez? No mínimo diriam: “Mas, o que aconteceu? Adormeci?”. Qualquer pessoa teria reparado que algo não batia certo, pois passar de uma cena dentro de um túnel para um café seria algo que não faria sentido.
O importante é que a TVI nesse dia conseguiu exibir toda a publicidade necessária para ter viabilidade financeira. Exibir um filme em condições, de forma a satisfazer aqueles que apreciam cinema ou aqueles que gostam de ficar em casa num Domingo a descansar e a ver televisão, é talvez a questão menos importante para a TVI.
E já nem menciono os créditos finais de um filme, algo que por exemplo fornece informação sobre os nomes dos actores. A regra é os filmes terminarem às 19:59:55 sem qualquer espaço para os créditos finais.
O que eu não gosto é de ser enganado. Por isso, evito a TVI.
O Youtube é deveras fantástico. Fiz uma pesquisa e maravilha das maravilhas, descobri na sua totalidade a cena que mencionei. No contador do tempo, prestem atenção ao momento relativo aos 1m45s, pois foi nesse instante que a cena foi cortada. Também refiro que no filme ainda existe um minuto de acção que não está representada no fim do vídeo. Só depois disso tudo é que efectivamente a acção passa a decorrer na mesa do café.




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