O mundo apenas gira em torno dos Homens?
Andava eu a preparar-me para o natal, quando no dia 22 de Dezembro assisto à seguinte notícia na Sic Notícias.
A revista FHM decidiu por em prática nas ruas de Lisboa uma campanha rodoviária com origens na Dinamarca. A campanha consistia em colocar nas artérias principais, membros do sexo feminino com muito pouca roupa, a agarrar sinais de proibição de circulação a mais de 50 km/h, com o objectivo de lembrar aos automobilistas a necessidade de moderar a velocidade. Aqui, o ‘pouca roupa’, em pleno Inverno (cerca de 10º na rua), significava usar uns mini-calções e a parte de cima de um bikini. Na Dinamarca, as meninas da campanha vão para a rua em topless.
Transcrevo os seguintes excertos da reportagem
«“As pessoas reagiram muito bem. Ficavam muito surpreendidas, mas aderiam logo à campanha”, disse uma das voluntárias, Liliana Queiroz. Para a modelo, a iniciativa da FHM foi uma boa maneira de dar eficácia imediata a uma importante mensagem de prevenção rodoviária, através de uma acção invulgar que ficará na memória dos condutores.»
«O que é certo é que, ao contrário de outras campanhas de sensibilização rodoviária, esta iniciativa teve eficácia imediata, já que a presença das mulheres assegurou que os automobilistas abrandassem à passagem pelos pontos-chave da campanha.»
Façam clique aqui para verem o vídeo da reportagem. Vale a pena.
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Eu não queria acreditar. Mas esta campanha poderia fazer algum sentido?
«…já que a presença das mulheres assegurou que os automobilistas abrandassem à passagem pelos pontos-chave da campanha…», porque seria?
Em primeiro lugar há que salientar que tudo correu pelo melhor e que as meninas não provocaram nenhum acidente. Sim, um acidente. Todos os homens devem ter ido a olhar pelo espelho retrovisor durante uns bons metros, para tentar ver tudo o que lhes tenha escapado na abordagem frontal que fizeram às meninas. Por isso, foi mesmo uma sorte não terem batido em algum carro que estivesse parado mais à frente.
Mas esta prevenção só se destina aos homens condutores? E as mulheres? Não têm direito a uma campanha só para elas?
Esta campanha da FHM, decididamente não era destinada às mulheres. Acho que não faz sentido colocar meninas ‘descascadas’ para chamara atenção das mulheres condutoras. Ao olhar para as voluntárias, possivelmente iriam começar a analisar o maior ou menor índice de celulite, iriam pensar nas lojas que poderiam vender as mini-roupas que as voluntárias usavam, iriam olhar para os sapatos, iriam olhar para as madeixas, etc. De qualquer forma, sempre iriam pensar em mais coisas em comparação com aquilo que os homens pensaram quando viram estas voluntárias, isso é garantido.
Então, uma campanha para as mulheres seria colocar homens a segurar em sinais de proibição, apenas vestidos com uns mini-calções e uns sapatos (não estou a pensar no Borat)? Possivelmente, estes voluntários seriam atacados com beatas, papéis ou garrafas arremessadas pelos homens condutores que se cruzavam com eles, além de ouvirem um ‘bicha’ ou algo do género. E as mulheres? Iriam apreciar o trabalho desenvolvido por estes potenciais strippers? Eu acredito que iriam apreciar muito mais se apanhassem com um Sean Connery de smoking a segurar nos ditos avisos.
Com isto, ocorreu-me o seguinte: as campanhas além de serem direccionadas maioritariamente para o sexo masculino ainda têm que explorar o corpo feminino? Seria este um caso sem exemplo? Comecei a lembrar-me e os exemplos vinham uns atrás dos outros.
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Ciclismo
Nunca gostei de provas de ciclismo. Nas tardes de Verão, não entendo a emoção do meu sogro em ficar a olhar para uns tipos em cima de bicicletas, a tentarem subir à Senhora do Monte com uma temperatura de quase 40º. E mal acaba a volta a Portugal, já está empolgado com o Tour.
Infelizmente acho que o ciclismo está transformado num laboratório de testes da última tecnologia que existe em termos de doping. O que aconteceu no Tour de 2006 foi algo absolutamente vergonhoso. O vencedor do Tour, Floyd Landis foi desqualificado por ter acusado positivo num controlo de doping, ficando Óscar Pereiro como vencedor virtual do maior evento do ciclismo mundial. Mas eu não estou aqui para falar de doping.
O que eu nunca entendi no ciclismo foi o facto do camisola amarela ser ladeado e beijado por duas ‘beldades’ no final das etapas. Porquê? Será que eles andam a pedalar durante várias horas, debaixo de um calor abrasador, apenas com a esperança de poderem vir a ser beijados? Não é por isso? Então, qual a origem ou justificação desse acto?
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Poderíamos falar em igualdade de oportunidades, mas não. Este ‘prémio’ só acontece no ciclismo masculino. No ciclismo feminino, as três vedetas do podium ficam abraçadas entre si e já não é nada mau. Será que também deveriam ter direito aos beijinhos?
Vamos pensar na Vanessa Fernandes. Esta deusa do desporto nacional, com uma humildade fantástica, com uma incrível vontade de vencer e que supera a maioria dos homens em termos de capacidade de resistência, não deveria ter um prémio à medida do seu esforço? estava a pensar em dois Adónis a ladeá-la e a beijá-la para a foto.
Uma imagem estranha? Porquê? Porque os homens não se prestam a este tipo de eventos? Então, porque é um acto ‘normal’ o facto de haver duas ‘beldades’ a beijar o camisola amarela?
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Salões do Automóvel
Mais um caso flagrante do uso da mulher para publicitar um artigo. Todas as ‘bombas’ estão sempre acompanhadas de uma ‘beldade’, seja junto à porta seja dentro do habitáculo. Será que isto está relacionado com aqueles autocolantes que se vêm em alguns carros e que dizem algo do género. “Os homens preferem cerveja fria, mulheres quentes e carros rápidos”?
Quem compra estes carros julgo que deverá saber que a ‘beldade’ não está incluída. Mas será que a mensagem transmitida é algo do género: “se conduzires este carro poderás ter uma ‘beldade’ assim”?
Isto leva-me a concluir que as mulheres não compram ‘bombas’. Se comprassem, seria lógico colocar um Pierce Brosnan a ladear o carro. Alguma vez viram um mocinho esbelto a publicitar um carro num salão automóvel? As mulheres não conduzem?
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A menina do gás
Num dos melhores anúncios de 2006, a Galp conseguia parar Portugal sempre que o dito anúncio passava na televisão (recorde aqui o spot e veja aqui tudo sobre a campanha).
Depois de passar o impacto inicial e após apurada investigação se saber que a bela e escultural modelo se chamava Katarzyna Potoczek, lá nos debruçámos sobre o objectivo do anúncio. O que estava em causa era que a Galp estava a lançar uma nova garrafa de gás, com o nome de código ‘Pluma’, que tinha a particularidade de ser tão leve que podia ser carregada por uma mulher.
Se fosse só isto nem era mau. Os homens, depois de passar o anúncio até poderiam ter reparado que havia uma garrafa de gás no anúncio. As mulheres, ficariam satisfeitas por existir mais um artigo onde não necessitavam da ajuda masculina para o transportar, pois até isso eles se esqueciam de fazer.
Só que a campanha virou algo do género: “Ligue para a Galp e mude para a ‘Pluma’. O serviço de troca é grátis e habilita-se a que seja feito por uma miúda do gás!”. Aqui é que isto descarrilou. Posso estar enganado, mas regra geral, quem costuma estar em casa e organiza e paga as contas até é a mulher (conheço muitas situações assim). Por isso, que interesse teria uma mulher em que o serviço da troca para a ‘Pluma’ fosse efectuado por uma miúda do gás? Aqui nos blogues do SOL, li um texto de ‘maris’ que representa bem esta minha afirmação. Transcrevo: “Só os gajos é que merecem regalar a vista?” e “Faço um apelo á galp, bp, repsol…arranjem um rapaz do gás e vão ver as vendas pularem.”. Leiam aqui o resto do texto.
Nas imagens que encontrei sobre a campanha e para contrariar a minha afirmação anterior, a maioria das trocas foram efectuadas entre miúdas do gás e homens (foram pagos para estar em casa, só pode ser isso). Vejam os vídeos aqui e aqui.
Eu acho que ‘maris’ representa bem o desagrado feminino perante a tendência masculina da campanha.
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Se te der um VOIP?
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Outra campanha que também fez um enorme furor em 2006. Cito: «… A nova campanha publicitária VOIP da TV Cabo está a ser um sucesso e em 10 dias obteve 20 mil chamadas…»
Dizia-se no spot que: «”Olá, eu sou a Joana, esta é a Rita e esta é a Teresinha. Quando não temos de estudar queremos é conversa. Por isso, se te der um VOIP, liga-nos…”».
Vou ser mauzinho, mas será que as vinte mil chamadas foram feitas por membros do sexo masculino que ao sentirem um VOIP pensaram que as meninas estavam sem estudar e por isso quiseram falar com elas?
Conseguem imaginar a versão masculina deste anúncio?
“Olá, eu sou o Hugo, este é o Luís e este é o José….”
Acham que teria sucesso? Conduziria a vinte mil chamadas nos primeiros dez dias?
E como era mais uma campanha feita para os homens, a TV Cabo decidiu aumentar a divulgação do produto e fez um concurso onde o prémio era um jantar com as três meninas do anúncio. Assim, Ruben, estudante de dezoito anos só pôde dizer “Há coisas fantásticas”, já que venceu o passatempo “Jantar com a Joana, a Rita e a Teresinha” e teve uma noite “Voip”. Veja aqui os detalhes do jantar (o Ruben parece estar no céu).
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Revistas masculinas e femininas?
Aqui não é o caso de haver mais revistas para os homens do que para as mulheres. Aqui, eu apenas queria salientar a forma díspar como dois itens semelhantes conseguem ser tão diferentes caso o público-alvo sejam os homens ou as mulheres.
Para o meu estudo, dirigi-me ao meu Quiosque predilecto e decidi comprar duas revistas que fossem semelhantes, para que o estudo pudesse ter credibilidade. Assim, pensei na letra “M” (M de ‘Macho’ e M de ‘Mulher’?) e verifiquei que haviam duas revistas que cumpriam este critério, a Maxmen e a Máxima.
Em relação ao preço não existiam diferenças, ambas custavam 3€. Porém, a Máxima oferecia uma mala e um cachecol. Logo aí a Máxima começou a destacar-se.
Da análise que fiz às revistas, reparei que as maiores diferenças começavam precisamente nas capas. Vamos comparar os títulos pequenos:
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Maxmen |
Máxima |
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Perdemos a cabeça: fotografias de mulheres nuas! |
Loura demais? Como mudar a cor do cabelo sem perder a identidade. |
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Britney sem cuecas! Somos os únicos que mostramos tudo! |
Jude Law: Dos escândalos ao papel de pai dedicado |
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Rita Egídeo: You’re so sexy, sexy, sexy |
O amor e o sexo, Segundo Alberoni |
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Apenas pela comparação dos títulos da capa, a diferença já é abismal.
Mas vamos fazer outra análise.
Uma revista cujo público-alvo são os homens, tem uma mulher na capa.
Uma revista cujo público-alvo são as mulheres, tem uma mulher na capa.
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É interessante. Na Máxima, a modelo usa um colar-gravata, colecção Caresse d’Orchidées, de Cartier. Na Maxmen, a Rita Egídeo usa uma blusa em renda, cujo comentário na capa é “Já nos tinham dito que as rendas estavam a subir…”
O que está aqui em causa é que as ditas revistas para ‘homens’ apresentam sempre alguém do sexo feminino com pouca roupa ou em poses sexy. Temos, a Maxmen, a FHM , VIP e a T3 (no caso desta última será por os homens quererem “cervejas frias, mulheres quentes, carros rápidos e Ipods pequenos”?).
Qual é a necessidade? Se colocassem na capa aquele tipo do Nespresso, o tal de “…deep and sensual…” – pois, o George Clooney – a revista já não vendia? Seria conotada com revista ‘gay’? é que por comparação, as revistas cujo público-alvo são as mulheres, não necessitam de por um homem em cuecas para conseguirem vender.
Resta dizer que em relação à Maxmen, depois de ver o seu conteúdo ainda fiquei mais desiludido com os 3€ que tinha gasto. É o que se chama, ‘pegar em algumas fotos da Playboy, pegar em alguns artigos da Motor, copiar pequenos artigos de outras revistas, propor a compra de uns gadjets, misturar tudo e já está’. Pelo conteúdo, sem dúvida que os 3€ da Máxima foram muito bem empregues.
Faço no entanto uma correcção às considerações anteriores sobre as revistas para os homens. A Men’s Health é a única que apresenta um Adónis na capa e tem artigos que se assemelham aos da Máxima. Mas é mesmo uma excepção em relação ao resto das revistas. Para fazer justiça, talvez ainda faça um texto sobre essa revista.
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Lembram-se deste?
UM BOM ANÚNCIO, NÃO É? MAXIM, A REVISTA QUE SABE O QUE OS HOMENS GOSTAM!
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Então, comparem com este
OK TELESEGURO, BOA TARDE, FALA O RUI…
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Não sei o que é feito da Maxim, ou se ainda se vende, mas eu nunca a comprei porque achei que não sabia daquilo que eu gostava. Sem dúvida que prefiro ler a Máxima.
Mas digam-me, pela publicidade e outros eventos, constata-se que em geral o mundo só gira em torno do homem ou foi apenas uma análise absurda que eu fiz?




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