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Peregrino de Aluguer (167€/dia)

Dezembro 16, 2006

Promessa: Uma promessa pode ser equiparada a um juramento. Contudo, é geralmente associada como uma tradição religiosa, nomeadamente cristã, que consiste em prestar o culto a uma entidade específica (um santo, deus, etc.) em agradecimento.

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Eu já tinha visto a reportagem na televisão sobre um tal peregrino de aluguer. No Domingo passado, ao folhear a revista do Correio da Manhã, deparei-me com um artigo extenso sobre este peregrino, o Sr. Carlos Gil de 42 anos. No final deste texto, encontram links para a página do peregrino de aluguer e para o artigo do CM.

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Sobre o artigo, transcrevo as seguintes partes:

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Carlos Gil«…Carlos Gil, de 42 anos, tem uma loja de computadores em Cascais e vende casas na zona de Sintra. Duas ocupações que lhe roubam a maior parte do tempo. Contudo, duas vezes ao ano, tira uma quinzena para se dedicar a uma espécie de part-time religioso…»

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«…É, sem dúvida, uma ideia peregrina. E estranha. No entanto há quem recorra a este serviço temporário, que teve a sua origem há cerca de 700 anos. A simples preguiça, incapacidade física ou outra razão qualquer tem um custo ao cliente: 2500 euros, que não só preenche o rendimento de 15 dias de trabalho, como também cobre as despesas inerentes à peregrinação, desde o alojamento às refeições. Este é o montante cobrado por Carlos Gil para peregrinar pelos outros, fazer a caminhada, acender as velas no santuário e regressar a casa. De lembrança traz uma espécie de diploma – que não é mais do que um ‘souvenir’ – com carimbos dos vários sítios por onde passou e uma paz de espírito…»

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«…“As pessoas têm o direito de pensar que isto é um negócio, mas acreditem que não é”. E acrescenta: “Não considero que este peregrinar para terceiros seja contra-natura. Uma peregrinação é algo pessoal. No meu ponto de vista, isto é um serviço romântico que eu presto”…»

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«…Esta espécie de remédio que é a caminhada aos locais divinos é para todos, daí Carlos Gil nunca ter recusado os serviços ‘rent-a-peregrino’ a nenhum potencial cliente. “Quem sou eu para recusar seja o que for? Não tenho medo do presente envenenado. Não me compete dizer que faço isto por aquele sujeito e não faço pelo outro. No fundo não tenho o direito de julgar ninguém”…»

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Além disso, após consulta do site do peregrino, transcrevo os seguintes textos incluídos na secção de Perguntas e Respostas:

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«Porquê pagar uma promessa?»

«São questões de fé. Cada um tem as suas razões. É o sentimento de estar em falta com o divino. Quando, muitas vezes em desespero, se faz uma promessa e recebemos ajuda para a resolução dos nossos problemas, sentimos necessidade de saldar contas… reconhecer, acima de tudo é mostrar reconhecimento. É acima de tudo o estarmos gratos pela ajuda que veio, pela resposta ás nossas preces…»

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«Quem prometeu, ao dar dinheiro, não está a fazer nenhum sacrifício…»

«A pessoa que se acha impedida de cumprir a promessa e se sente em falta, ao pagar está a dispender do seu dinheiro. Para o ganhar dispendeu do seu tempo, trabalhou e prescinde da comodidade que esse valor lhe podia dar. Está a dispender do fruto do seu trabalho, pagando o meu tempo… É o seu sacrifício!»

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Cumprir promessas 

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Bom, eu tenho sempre uma certa dificuldade em aceitar situações onde se ‘mistura’ religião e/ou fé com dinheiro, é tipo água e azeite. No caso deste serviço de aluguer, faço notar os seguintes pontos:

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- O que pode levar alguém a pagar a uma pessoa para cumprir uma promessa em seu nome?

O artigo usa um termo, no mínimo, infeliz. Menciona «…a simples preguiça…» como uma razão para se contratar os serviços deste peregrino. Eu não acredito que alguém possa fazer um pedido divino e depois, sem qualquer problema, pague a uma pessoa para cumprir a sua própria promessa, apenas por que não lhe apetece mostrar o seu reconhecimento.

Mesmo em caso de doença, também não vejo razão para que tal aconteça. Quem esteve doente, fez um pedido e obteve resposta às suas preces, conseguindo melhorar mas não possuindo capacidade física para mostrar o seu reconhecimento, creio eu, não deveria ter necessidade de o fazer. Na minha opinião, o facto de não poder cumprir uma caminhada, não significa que não esteja agradecido pelas melhoras obtidas.

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- Não é um negócio? Um serviço romântico por 2.500€?

No meu caso, posso dizer que se recebesse 2.000€ por 15 dias, já iria receber mais do que ganho num mês de trabalho. E estamos a falar de valores líquidos, porque no site do peregrino não é indicado que seja passada factura.

E se alguém agora viesse dizer que fazia o mesmo por 2.000€ ou 1.500€? será que este peregrino iria manter os seus valores? Aliás, no site deste peregrino, poderá ver a sua justificação para o valor apresentado. Sobretudo, afirma que tem direito a manter o seu nível de vida. Sobre isso, nada a dizer. (link)

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- Uma questão de lógica, se é que existe.

Na entrevista, o Sr. Carlos Gil diz «…Não considero que este peregrinar para terceiros seja contra-natura. Uma peregrinação é algo pessoal…». Se é algo pessoal, mais um motivo para não ser feito em nome de terceiros. A peregrinação é também uma demonstração de fé e a fé, acho eu, é pessoal e intransmissível.

No seu site, afirma que quem paga está a despender do dinheiro que ganhou através do fruto do seu trabalho, logo, através de sacrifício para o conseguir. Assim, essa pessoa ao pagar ao peregrino está também a ter um sacrifício. Faz sentido.

Por fim, afirma na entrevista que «…nunca ter recusado os serviços ‘rent-a-peregrino’ a nenhum potencial cliente. “Quem sou eu para recusar seja o que for?…». Pois, e se o contratante não teve qualquer sacrifício em ganhar o dinheiro com que vai pagar o serviço? Sem querer mencionar negócios menos limpos, continua a ser válido peregrinar por alguém que não tem qualquer problema em despender 2.500€? não se está a banalizar o conceito de peregrinação para ‘pagamento’ de uma promessa?

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O Sr. Carlos Gil diz que «…No fundo não tenho o direito de julgar ninguém…». Para que não hajam dúvidas, nem eu estou aqui a julgar o Sr. Carlos Gil. Mal seria.

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Aproveito sim para fazer uma sugestão. Sugiro a todos aqueles que não podem ou não querem cumprir promessas, que em vez de contratarem os serviços de um peregrino de aluguer, experimentem, por exemplo, a doar esse dinheiro para uma instituição qualquer de solidariedade, ou uma Igreja da sua zona. Podem ter a certeza que o dinheiro seria melhor empregue e que desse acto até iriam obter uma maior satisfação ou paz interior. É só uma sugestão.

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Por fim, pergunto a todos aqueles que possivelmente, até já foram a Fátima cumprir uma promessa. Seria capaz de pagar a alguém, uma quantia qualquer, no sentido dessa pessoa ir no seu lugar a Fátima cumprir uma promessa sua?

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Peregrino de Aluguer – Artigo no ‘Correio da Manhã’, 10/12/2006

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Pagador de Promessas – Site oficial

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