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Há coisas que não se dizem!

Novembro 8, 2006

Quando somos pequenos, podemos dizer tudo o que pensamos. Quanto muito, ouvimos um “Luis Miguel! Não se diz isso que é feio!”.

Quando estamos com uma criança e ela nos diz “tu é muta feio!”, nós aceitamos porque a uma criança tudo se perdoa. Quando crescemos, tomamos consciência que há pensamentos que devem ficar confinados a uma zona do cérebro, com o nome “caixa-para-guardar-tudo-o-que-pensou-mas-não-deve-dizer”.

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O problema é que algumas pessoas, adiante designadas por ‘desbocadas’, por algum motivo genético – dirão uns – não nasceram com um centro de auto censura implantado no hemisfério direito do cérebro – aquele que comanda a fala. Assim, não têm um conjunto de neurónios, dotados de lápis azuis, que consigam riscar os pensamentos mais impróprios, impedindo-os de serem comunicados para o altifalante do sistema de som do corpo.

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Estas pessoas apenas devem ter um único ‘fiscal’ para todo o cérebro. Perante tão grande caudal de pensamentos impróprios, este apenas consegue correr cérebro abaixo a gritar “Agarra que é um pensamento impróprio! Agarra o gajo! Por favor, não o deixem chegar à boca!”.

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O pior destas pessoas, com um ‘gatilho sensível’ no que toca à expressão verbal, é justificarem-se dizendo: “Eu cá sou uma pessoa muito franca. O que tenho para dizer, digo, e não ando aqui com ‘coisas’”. Mas alguém lhes pediu sinceridade? Será que não entendem que há coisas que se podem pensar mas que não podem ser ‘disparadas’?

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Falar de assuntos gordurosos: andamos nós a pensar que aquilo do ‘Linea Zero’, ‘Light’, ‘Corpos Danone’ e outros tais que levem ‘Aloe Vera’, são eficazes, quando encontramos alguém de ‘gatilho sensível’ que já não vemos há um certo tempo. Ainda estamos a estender a mão e já ouvimos: “Eh pá, você tá gordo! Bolas, tá mesmo gordo. Caramba, isso é que é, só docinhos, não?” – uns minutos depois – “Bolas, isso é que é. Quem o viu e quem o vê!”.

Educadamente, podemos sempre dizer: “É verdade, é verdade. Mas há um ano atrás era bem pior. “‘Prazer’ – a remoer entre os dentes – em vê-lo!”.

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Falar de doenças: andamos nós preocupados com uma ‘coisa’ que não sabemos o que é, p.e. uma tosse com comichão e arrepios na espinha seguida de suor abundante, quando temos o azar de falar ao telefone com um ‘gatilho sensível’ doutorado em medicina: “O quê? Tosse e arrepios? Eh pá, conheço um tipo que com uma coisa semelhante foi parar ao Hospital. Parecia uma borbulha, só que não era, começou a tomar antibióticos, blá, blá, …internamento, blá, blá,…biopsia, blá, blá – aqui, já não o estamos a ouvir”. Diga-se que estes ‘doutorados em medicina’ estão sempre presentes nas urgências dos Hospitais, preferindo no entanto os SAP pela manhã.

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Falar de bebés: quando toca a bebés, são poucos os que têm um ‘gatilho sensível’. Eu sei que tudo é possível, mas, regra das regras, não há bebés feios. Ninguém, mesmo com ‘gatilho sensível’, será capaz de chegar ao pé de uma recente mãe e dizer: “Eh pá, é mesmo feio. Parece um gremlin!”, ou “Iiiii, que grandes orelhas! Até parece o Dumbo!”. Bom, tudo é possível.

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Uma atitude conservadora que sempre tive, foi nunca pronunciar grandes opiniões sobre bebés, dos quais, não conheça o seu ‘histórico’. Assim, tenho a certeza de não ‘meter os pés pelas mãos’. Se na rua encontro uma senhora com um bebé num carrinho, digo: “Lindo bebé. Tão giro. Olha que engraçado. Olha que risonho.” e chega. Dizer mais do que isto pode trazer problemas. Por exemplo: “É mesmo a sua cara!” – resposta – “Ah! Mas eu sou só a ama!”. Ou, imaginem a tal senhora inglesa, que teve gémeos com cor de pele diferente, quando encontrar ‘desbocadas’ pelo caminho. O que irá ouvir dessas pessoas e o que irá responder?

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Bom, isto tudo para chegar à seguinte história. Andava a minha princesa Mor a passear a princesa Jr no nosso carrinho de bebé tipo porta-aviões – maior que o U.S.S. Enterprise agora atracado em Lisboa – quando encontra uma rapariga que esteve com ela no recobro, após o trabalho que foi necessário efectuar para extrair a princesa Jr.

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Essa rapariga – adiante designada por Sra. X – tinha tido conhecimento que a minha mulher dera à luz uma menina – linda, por sinal, mas é apenas um comentário de pai babado. Mais, durante dois dias, tinha estado junto à minha mulher no Hospital.

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Então, não é que ao fim de cinco meses, a Sra. X vê a minha mulher, olha para a princesa Jr. E pergunta: “Ah! Então não tinha tido uma menina?”

Mas é coisa que se diga? A miúda tinha que estar vestida de cor-de-rosa? Se a Sra. X soubera no hospital que o bebé era do sexo feminino, que raio teria acontecido entretanto à miúda? Teria mudado de sexo em cinco meses?

Há coisas que não se dizem!

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E vocês? Conhecem muitos ‘desbocados’?

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