Antes de ler este texto, peço que faça uma leitura a “Armas ou Manteiga”, para que tenha uma noção sobre os valores gastos na indústria do armamento, e uma leitura a “África, Guerras e Ajuda Internacional ou ‘Como Perder 284 Biliões de Dólares’” para constatar que as guerras têm sido o principal sorvedouro das economias dos países subdesenvolvidos.
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Esta 3ª Feira, Ban Ki-moon, Secretário-geral da ONU, anunciou a criação de uma célula de crise encarregue de lidar com a questão da subida do preço dos alimentos e os consequentes problemas de fome. Esta célula será liderada pelo próprio Ban Ki-moon, que chefiará dois coordenadores, John Holmes em Nova Iorque e David Nabarro em Genéva.
Na conferência de imprensa, salientou-se um pedido urgente à comunidade internacional para constituir um fundo de emergência de 755 milhões de dólares, necessário para as Nações Unidas conseguirem alimentar milhões de pessoas esfomeadas em todo o mundo, como uma primeira medida de outras tantas medidas concretas a executar.
Vários protestos têm ocorrido em alguns países por causa da subida de preços de alimentos básicos, como o arroz, trigo ou milho. Ban Ki-moon salientou que a escalada nos preços da energia, falta de investimento na agricultura, aumentos da procura e condições climatéricas adversas têm constituído as causas para o aumento dos preços. De acordo com Ban Ki-moon, se esta crise não for gerida da melhor forma, a mesma poderá originar o surgimento de crises em cascata, afectando as trocas comerciais, crescimento da economia, progresso social e mesmo a segurança política a nível mundial.
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A cultura de arroz tem estado no centro da crise
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Mas as agências da ONU estão já a tomar medidas concretas para evitar esta crise. A Food and Agriculture Organization (FAO) propôs uma iniciativa de emergência para fornecer aos países de baixos rendimentos, sementes e incentivos à produção. Esta iniciativa propõe a criação de um fundo de 1,7 biliões de dólares. Em complemento, o International Fund for Agricultural Development (IFAD) está a tentar libertar uma verba de 200 milhões de dólares para atribuir a agricultores pobres dos países mais afectados pela crise, para que aumentem a produção das culturas.
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Na 2ª Feira, o director-geral da FAO, Jacques Diouf, na chegada a Lisboa para assinatura de um acordo, disse que «Os aumentos dos preços dos cereais são um problema cada vez mais sério, mas já o tínhamos previsto há meses atrás. Todas as estatísticas indicavam que esta crise iria acontecer. Infelizmente as pessoas só agem quando a crise já está instalada.» Questionado sobre as possíveis soluções, Diouf falou da «falta de vontade política» para resolver o problema, e defendeu «Aumentar a produtividade dos países mais pobres e que importam mais alimentos, ajudar os que dependem das importações, como é o caso de vários países africanos».
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Países onde se estão a verificar faltas de alimentos
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Outro alerta foi feito por Josette Sheeran, Directora do The World Food Programme (WFP). Nesse alerta foi mencionado que as reservas de alimentos no mundo estão ao nível mais baixo dos últimos 30 anos, e nalguns casos, dos últimos 60 anos, devido ao aumento constante dos preços no mercado mundial.
Em Fevereiro, este organismo viu-se obrigado, a solicitar 500 milhões de dólares de urgência à comunidade internacional por causa do buraco que o aumento dos preços causou no seu orçamento. Em apenas cinco semanas o preço do arroz duplicou na Ásia. O Banco Mundial indicou recentemente que esta situação pode levar mais pobreza a cem milhões de pessoas nos países menos desenvolvidos do planeta.
Josette Sheeran defendeu que a principal solução para a actual crise, que ela classificou como «um tsunami silencioso», é um aumento da produção de alimentos que responda ao aumento da procura mundial, a principal responsável da actual crise. «O mundo consome mais do que produz mas eu estou optimista porque o mundo sabe como produzir mais».
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Perto de um bilião de pessoas vive com cerca de 1 dólar por dia. Se, numa estimativa conservadora, o custo dos seus alimentos subir 20% (em alguns locais tem aumentado muito mais do que esse valor), 100 milhões de pessoas podem vir a ter de viver com esse montante diário, que é a medida comum para classificar a absoluta pobreza. Em alguns países, esse retrocesso será idêntico a todos os ganhos que foram obtidos na luta contra a pobreza na última década de crescimento.
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No sudoeste da China, os residentes fazem fila para conseguirem comprar óleo alimentar
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Lester Brown, um reputado analista e presidente do Worldwatch Institute, afirmou que se a actual situação de crise provocada pelo aumento do preço de alimentos básicos continuar, existem 33 países que vão estar sujeitos a problemas sociais graves, que podem colocar em causa a própria autoridade do estado.
No Paquistão, uma potência nuclear onde problemas políticos se têm sucedido e onde a Al Qaeda tem bases firmes, o aumento do preço da farinha atingiu 100% nos últimos meses.
Tumultos provocados pelos problemas de distribuição de comida estão a tornar-se comuns. Já ocorreram conflitos graves no Egipto e em Marrocos. Também houve tumultos no México, na Indonésia e nas Filipinas. No Yemen, Camarões, Senegal e Etiópia já ocorreram mortes provocadas pela falta de alimentos. No Haiti, onde uma missão da ONU tenta manter uma paz precária, os problemas com a falta de comida levaram já à queda do governo.
Para piorar a situação dos países mais pobres, a declaração por parte de alguns países produtores, como a Argentina e a Tailândia, avisando que cancelariam as exportações, levou automaticamente a um aumento dos preços no mercado internacional, onde os grandes investidores bolsistas e os fundos de pensões, estão a comprar comida que ainda não foi colhida e a negociar os preços nas bolsas mundiais, completamente alheios à catástrofe que poderá ocorrer.
Os Estados Unidos com alguns excedentes de produção e que têm planos para aumentar a produção de cereais para os transformar em combustíveis, não deverão ser afectados. A Europa, que tem financiado uma contenção na agricultura, poderá reverter a situação, pois tem muitas áreas férteis e um sector agro-industrial forte. Já em África, em muitas áreas da América Latina, nos países do médio oriente que não têm petróleo e na Ásia, onde a população continua a aumentar a pressão será muito maior.
A juntar aos problemas políticos que já se levantam em muitos países do mundo, os problemas do aquecimento global – que alguns governos, como o dos Estados Unidos ainda há pouco negavam, mesmo perante as evidências – podem complicar a situação. A Amazónia sofreu recentemente a maior seca de que há registo.
A crise afectará sem dúvida os mais pobres. O problema principal dos países ricos, não é a falta de comida, mas sim o que fazer com um mundo, onde em alguns meses, poderão haver centenas de milhões de pessoas que nada têm a perder.
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Um cidadão do Haiti come relva em frente a um soldado da ONU como forma de protesto para a falta de alimentos que assola o país
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Esta crise também poderá colocar de novo na mesa a discussão sobre a intromissão da ciência na agricultura, em particular, o caso da cultura de transgénicos. A forma de alimentar o mundo não deverá passar pelo aumento dos campos cultiváveis, mas pela criação de culturas mais eficientes e rentáveis.
E será esta crise um resultado directo da utilização de cereais, como o milho, para a produção de biocombustíveis? Essa é a opinião do Brasil ou Venezuela, que associam o aumento dos preços ao crescimento da produção de biocombustíveis, que tem sido incentivado especialmente, pelos Estados Unidos.
John Holmes, um dos responsáveis pela nova célula de crise da ONU para enfrentar a subida de preço dos alimentos, indicou ser necessário não dar respostas precipitadas contra o desenvolvimento dos biocombustíveis. Segundo John Holmes «Os biocombustíveis foram desenvolvidos em resposta ao problema dos efeitos das alterações climáticas e devido à necessidade de diminuir as emissões de gases com efeito de estufa. Não foram criados apenas por prazer. Em certas regiões é sensato produzir biocombustíveis, mas noutras não é forçosamente assim»
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Uma mulher ugandesa arrasta uma saco de comida distribuído pelo The World Food Programme (WFP)
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Na sequência destas notícias, George Bush anunciou que será apresentada uma proposta ao Congresso dos EUA para que aprove uma verba de 770 milhões de dólares para ajuda alimentar e programas de desenvolvimento, com o objectivo de controlar a recente crise mundial dos alimentos.
Um facto curioso é que os EUA lideram sempre todas as frentes. São o país com o mais elevado orçamento de defesa, aquele que mais contribui para o Efeito de Estufa, e são o maior dador de ajuda alimentar.
George Bush salientou a necessidade de eliminar barreiras comerciais para combater a escalada dos preços e apelou aos países para eliminarem os entraves às culturas produzidas através de biotecnologia «Estas culturas são seguras, são resistentes às pragas e doenças, e contêm a promessa de produzir mais alimentos para mais pessoas»
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Veja-se o caso de Manila, nas Filipinas. Na mesma semana em a crise mundial dos alimentos foi notícia principal na maioria dos media, somos também confrontados com uma notícia onde os muito pobres conseguem fazer negócio com os que são ainda mais pobres. No meio de toneladas de lixo e lama, adultos e crianças procuram comida para reciclar. A mesma servirá para a sua alimentação e para vender a outros. Veja o Vídeo RTP.
E não é só um problema de falta de comida. Também em Manila como noutras regiões do globo, junte-se a falta de condições sanitárias e de água potável, que acabam por causar inúmeras doenças e mortes. Na imagem seguinte, em Manila, uma mulher lava o seu filho no meio dos esgotos da cidade.
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Por cá, o aumento do preço dos alimentos já se está a reflectir no consumo. Os portugueses estão a comprar menos pão e leite, dois bens de primeira necessidade que registaram fortes aumentos de preço no último ano. No caso do pão, em seis anos, o preço médio deste alimento básico subiu 34,3 por cento, enquanto a inflação cresceu 19%.
E como cada vez é mais difícil alimentar a esperança, com pedidos cada vez maiores por parte das instituições, vai haver lugar, este fim-de-semana, por parte do Banco Alimentar Contra a Fome, a mais uma campanha de recolha de alimentos junto à maioria das superfícies comerciais, para tentar encher os armazéns que já se encontram vazios.
É a “Campanha Saco” onde os portugueses podem e devem colocar bens alimentares para ajudar os mais carenciados, cujo número ultrapassa os 230.000. Entre as várias opões, o Banco Alimentar contra a Fome destaca: Azeite, Óleo, Leite, Enlatados e Cereais. Veja o Vídeo RTP.
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Mesmo nos EUA, as limitações nas vendas são necessárias para evitar o açambarcamento
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Nas palavras de Ban Ki-moon, «Eu estou confiante que conseguiremos lidar com esta crise mundial dos alimentos. Nós temos os recursos. Nós temos o conhecimento. Nós sabemos o que fazer. Nós devemos assim não considerar esta situação apenas esta situação como um problema mas também como uma oportunidade.»
Este é de facto um Tsunami Silencioso. Se o problema é a falta de fundos, então é fácil verificar que a indústria do armamento e todas as guerras provocadas para a utilização dos meios bélicos, caso não existissem ou fosse retirada apenas uma pequena percentagem do montante que representam, seria suficiente para evitar toda a fome que existe no mundo. Tal como escrevi antes, desde 1990, 23 países africanos contribuíram para a perda de 284 biliões de dólares. Esse valor é equivalente à Ajuda Internacional que tem sido enviada para África no mesmo período. Se esse dinheiro não tivesse sido perdido em conflitos armados, seria suficiente para resolver problemas associados à SIDA, suficiente para cobrir as necessidades relativas à educação, água potável e saneamento básico, ou prevenir a Tuberculose e a Malária.
Até hoje, o problema da fome e da falta de alimentos parecia ser algo que só acontecia em África, onde os programas de notícias nos mostravam imagens de crianças subnutridas e moribundas. Quando estas imagens começarem a ser mostradas relativamente aos próprios países desenvolvidos, então talvez seja tempo de todos acordarem e verem que a situação é mesmo grave. Mas nesse dia, talvez seja tarde demais para evitar a catástrofe.